Eleições, troika, reestruturação e contágio. Alguns apontamentos.

Antes de mais, gostaria de me desculpar perante os leitores e os colegas do blogue pela longa ausência.
Gostaria de deixar algumas breves opiniões sobre a actual conjuntura política e financeira.

1. Parece-me ser de meridiana clareza que a derrapagem da dívida pública e do défice é a consequência de décadas de laxismo e falta de rigor nas contas públicas por parte dos sucessivos Governos. Com a crise financeira internacional, causada pela ruptura de uma bolha especulativa, a banca internacional ficou exposta a activos tóxicos e a perdas significativas, o que levou os Governos de muitos países a intervir, nacionalizando ou recapitalizando esses bancos. A Irlanda, país que apresentou superavits durante os anos que antecederam a crise, viu-se subitamente confrontada com a bancarrota. Portugal não foi imune, tendo que financiar os buracos negros do BPP e do BPN. Outra consequência da crise financeira internacional foi a necessidade dos bancos reposicionarem a sua actividade especulativa: primeiro nas "commodities", o que parcialmente explica a alta do preço do ouro e do petróleo. No entanto, o mercado das "commodities" não apresenta grandes margens para o lucro especulativo, e um segundo reposicionamento levou-os ao ataque às dívidas soberanas, especialmente as dos países com uma economia real anémica. Ora, a especulação com a dívida soberana apresenta poucos riscos, e aliada à vassalagem dos mercados financeiros às agências de rating que exageraram o risco, os juros da dívida de Portugal, Irlanda, Grécia, etc. dispararam. Ora o disparo dos juros ameaçou a sustentabilidade da dívida. Países que historicamente apresentavam orçamentos deficitários deixaram de os poder compensar com o recurso a crédito barato. Juntemos a isto um Euro sobrevalorizado e a alteração das regras das contas públicas pelo EUROSTAT, passando a incluir a dívida das empresas públicas e das PPP, e temos um verdadeiro efeito bola de neve. A bola de neve transformou-se em avalanche, e essa avalanche cairia em cima de qualquer Governo, fosse PS, PSD ou PSD com a muleta do CDS, todos partidos que não são de forma alguma confiáveis no que diz respeito a despesismo. Portugal não deve significativamente mais do que devia há 5 ou 10 anos: apenas o truque de obter crédito barato e as técnicas de engenharia contabilística para mascarar as contas do Estado acabou. Repito: FOSSE O GOVERNO PS, PSD, ou PSD+CDS, ESTARÍAMOS NA MESMA IMINÊNCIA DE BANCARROTA. É pura demagogia afirmar o contrário.

2. As políticas de austeridade (os sucessivos PEC I, II, III, e o acordo com a troika) são profundamente recessivos no plano económico, já para não falar do plano social. A economia real vai contrair profundamente, e à taxa de juro agiota de 5,6%, prevendo-se uma contracção significativa do PIB (e consequente receita fiscal a menos) vai ser, por muito rigorosa que seja a execução orçamental, extremamente difícil, senão impossível evitar a reestruturação da dívida, como demonstra o caso da Grécia e da Irlanda.

3. O acordo com a troika, nestes termos vai criar uma recessão profunda, e aprofundar o anatocismo (juros sobre juros), e talvez não deva ser tabu equacionar a reestruturação.

4. Reestruturando Portugal, Grécia e Irlanda a dívida, isto terá um efeito de contágio. Nomeadamente em vários bancos que lhe estão expostos (nomeadamente a banca espanhola, mas também a francesa, inglesa e alemã).

Concluindo:
1. Portugal deve reequacionar o acordo com a troika, ou pelo menos exigir uma taxa de juro realista. Deve emagrecer o Estado, evitando cortes cegos com impacte recessivo.
2. A UE deve seriamente passar a adoptar uma perspectiva holística da crise, resistindo a populismos e bodes expiatórios. Deverá adoptar mecanismos integrados, tal como as Eurobonds, e o BCE deveria flexibilizar a sua óptica monetarista hardcore, baseada na obsessão pela força da moeda e da estabilidade dos preços, e desvalorizar o Euro de forma a aliviar os países mais expostos à crise e permitir a competitividade das suas exportações. Porque senão, qualquer dia a crise pode bater à porta da Alemanha.

Comentários

e-pá! disse…
Concordo na íntegra com esta análise.

Entendo, no entanto, que o canceito (expresso no presente post) de "Portugal deve reequacionar o acordo com a troika" é uma forma soft de abordar a inevitabilidade de reestruturação da dívida (...que não deverá circunscrever-se à "nova dívida": UE/BCE/FMI).
O "ciclo infernal" é evidente: resgate - reestruturação - recessão económica - empobrecimento.

A UE tem meios financeiros e económicos para estancar esta cataclísmica hemorragia (com reformas políticas, finaceiras, monetárias e económicas). Deve, no entanto, preservar a sua marca civilizacional: o modelo social europeu.
O que se passa é que a UE não tem tido actores políticos à altura, para enfrentar a crise e impor soluções financeiras e salvaguardar a economia de modo equilibrada no espaço comum.

Assim, a incontornável reestruturação das dívidas externas dos países economicamente mais débeis não é uma miragem, nem um devaneio, nem uma desonra. Será, para os que a equacionam, "ter razão antes do tempo". O que em política é muitas vezes fatal!
Reestruturar não é pregar "calotes" aos mercados financeiros internacionais. É, pelo contrário, mostrar-se disposto a honrar a dívida, com todos sacrificios necessários (e aceitáveis), i.e., mantendo a dignidade.

Esta a razão pela qual - aceite pelas maiores forças políticas a "receita da troika" - não assistimos um debate aberto, descomplexado, profundo e abrangente sobre as alternativas de enfrentamento da actual crise. A presente campanha eleitoral não criou espaço (democrático) para esse debate em nome de "soluções sem alternativas". Essa atitude redutora - para além de condicionante do exercício da democracia - não influenciará o nosso futuro. Só o adia.
Eu,um simples operário emigrante na Holanda desde 1964 e já velho
(87anos),não entendo nada de Economia e Finanças,mas pelo que tenho lido,foram os Banqueiros e os especuladores da Bolsa de Valores que desde Wall Street,é
que desencadearam a Crise que se espalhou pela Europa,pois lá é que está o comando da Globalização Capitalista desde que o Dólar foi
após a Segunda Grande Guerra,
designado como a Moeda de referência a nível mundial.E são os Banqueiros e os respectivos Mercados Financeiros que regulam a Finança e a Economia no Mundo.
No Dicionário de sinónimos está que
Mercador significa comerciante,
marchante,comprador,vendedor,chatim
traficante,negociante.Mas eu direi que no negócio há trapalhice,há
roubo,há gatunice,há velhacaria,há
pulhice,há ciganice.Porque será que
na Bôlsa de Valores está a estátua
de Mercúrio,o Deus do Comércio e dos Ladrões?!
Rui Cascao disse…
E-pá: penso que há três questões essenciais:

1) A dívida e o défice seriam sustentáveis se a taxa de juro fosse a mesma que existia antes da crise financeira... a reestruturação poderia ser feita com uma taxa de juro não punitiva por parte da troika. O que acho mais preocupante é que a Europa está descapitalizada. Os países da UE que vão contribuir para o fundo de estabilização terão que contrair dívida pública em seu nome para nos financiarem (e à Grécia e à Irlanda, e possivelmente à Espanha, Bélgica). Para lhe dar um exemplo, pequenos países como a Eslovénia tiveram que emitir dívida pública para os bailouts da Grécia, Irlanda e Portugal. E mesmo nos países ricos (Alemanha, Holanda, etc.) a liquidez não abunda, e estarão a preparar-se para o pior cenário. Para além disso o clima político no Norte da Europa está de cortar à faca...

2) Parece-me que o problema essencial é que apesar de tudo, alguns países vão navegando à bolina apesar de sobreendividados (Itália, Espanha, Japão mesmo a França) porque a sua economia real ainda vai exportando. Penso que a situação será insustentável se o BCE não quebrar a moeda. Isto, a meu ver, é uma medida essencial para restituir competitividade na economia real dos países do Sul. E para aliviar o serviço da dívida.

3) É óbvio que em Portugal é necessário combater o despesismo. Mas repare que os partidos do arco da governação pouco ou nada apresentam para combater isto, além de algumas sugestões demagógicas como "um executivo pequeno". Nenhum refere a necessidade de racionalizar (reduzir) as autarquias, e nenhum tem um plano definido para racionalizar a administração pública, o exército ou acabar com muitas mordomias do braço político da administração pública (viaturas, telemóveis). Nenhum tem uma visão estratégica para a redução da despesa- apenas a lógica do corte cego- sem definir prioridades (educação, qualificação profissional, segurança social).

2)

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