Escadas da Universidade ou uma “monumental” aleivosia…


A polémica levantada por um grupo de estudantes relativa à “pichagem” das escadas monumentais, local onde o PCP realizou um comício em Coimbra é, acima de tudo, um sinal dos tempos de crispação em que vivemos. (Posteriormente, os incidentes de Faro, num comício do PS, confirmam a intolerância cívica [...e política] que “varre” esta campanha eleitoral) link.

Quem vive há largos anos em Coimbra já conheceu estas escadas – como de resto o pólo universitário construído sob a antiga alta de Coimbra um símbolo da arquitectura do Estado Novo – com diversas “pichagens” de múltiplos partidos políticos e com os mais variados propósitos desde motivações políticas, estudantis, associativas, culturais, etc.. O facto de estar a decorrer um processo de classificação na UNESCO – que ao que parece envolve toda a Alta - não deverá ter capacidade para interditar alguma coisa, uma vez que a fase preliminar não foi satisfeita. As escadas monumentais nem sequer estão classificadas como património nacional.

A atitude dos estudantes é, aparentemente, um excesso de zelo. As escadas municipais espaço público municipal – e não “propriedade” da Universidade – devem ser desfrutadas por todos os cidadãos. Um grupo de estudantes não se pode arvorar em fiéis guardiães de um “tesouro” que é do domínio público. A não ser que regressemos ao conceito conservador de que a Universidade (abusivamente correlacionada com esta questão) continua a ser a tal “torre de marfim” inexpugnável aos comum dos mortais. Mas para além do excesso de zelo a atitude do referido grupo de estudantes viola um outro património mais valioso do que eventuais classificações da Unesco (ainda não adquiridas), isto é, o património colectivo das liberdades humanas fundamentais, dentro delas a liberdade de expressão. Que deve ser inviolável, e não o foi, facto que – no meu entendimento de leigo - parece ser um “crime público” com todas as suas consequências.

Mas um outro excesso é a ligeireza da classificação (estudantil) atribuída às “pichagens” das escadas de: “vandalismo”!. Não se praticaram danos brutais nas escadas monumentais. Nem muito menos qualquer destruição “irreversível”. As escadas foram pichadas com “tinta de água” que bastará uma boa chuvada para as remover.
As “brigadas de limpeza” que parecem estar a organizar-se (já depois de conhecido o parecer da CNE transcrito abaixo) é que poderão incorrer no crime de destruição de propaganda eleitoral afixada em local autorizado. link.

Na quarta-feira, a CNE emitiu um parecer em que reconhece à CDU o direito legal de fazer propaganda eleitoral através de um mural nas Escadas Monumentais, um imóvel emblemático da Alta muito associado à resistência dos estudantes à ditadura de Salazar durante a Crise Académica de 1969.
Para a CNE, tendo em conta que “ainda se encontra em curso” o procedimento com vista à sua classificação, no âmbito da candidatura da Alta apresentada à UNESCO, “afigura-se que as mesmas não gozam da protecção conferida” pelo n.º 4 do artigo 66º da lei n.º 14/79, de 16 de Maio, e pelo no n.º 3 do artigo 4.º da lei n.º 97/88, de 17 de Agosto. link.

Coimbra deve muito à Universidade. Mas, hoje, o campus universitário não pode ser um gueto físico, social e cultural. Deverá ser um espaço público e aberto ao Mundo (incluindo a política). Pelo menos, enquanto estudante de Coimbra, no final da década de 60 e início da de 70, bati-me por esse vasto alargamento.
O incidente da escadaria desta semana é, certo modo, o regresso ao “velho” conceito de Universidade como um bafiento templo da ciência, inexpugnável, impregnado de espírito jesuítico.
É esse retrocesso que, como cidadão, me faz levantar a voz!

Comentários

No tempo das pinturas e dos cartazes colados às paredes não havia outdoors.

Esconder a alarvidade cometida por trás da curta vida util da pintura ou do alegado desinteresse urbanistico do "monumento" é afrontar quem justamente se incomoda com a visão e com a gratuitidade deste excesso.

Serviu porém para ver uma vez mais a quixotesca visão do PC sobre quem belisca os camaradas do partido.

Como diz o "gordo"...já foste Jerónimo!
e-pá! disse…
Leao do Quiosque:

Os outdoors não "mataram", nem desvalorizaram os graffitis estáticos (como é o caso vertente).
A utilização de um espaço simbólico (uma longa escadaria de acesso ao polo universitário), bem como o teor das inscrições e a utilização de técnicas do tipo throw-up e bombing, tem conotações ao nível comunicativo, intencionais (associada aos problemas do Ensino Superior).
Aliás, a longa escadaria - a monumental escadaria - não representará os longos escolhos que no século passado inquinavam o acesso ao ensino superior?
Continuará a ser uma ladder of fame?

Finalmente, o carácter evanescente das inscrições torna aqui a aplicação do conceito de vandalismo um mero oportunismo.
E não sendo uma "acção brutal" integrada que está no contexto urbano (alta citadina de acesso às Faculdades) dificilmente se encaixa dentro das "alarvidades". Na verdade, a violência não é o colorido mas o exercício da liberdade de expressão (em espaços públicos não classificados).
Ou até poderá ser a fobia a uma cor: o vermelho!. O que não é muito abonatório para uma Academia que, por princípio, deve reivindicar o universalismo...

PS - Não sou "Jerónimo"!, nem Geronimo! (nome de código de bin Laden).
Pois no meu fraco entender de simples operário emigrante na Holanda desde 1964 e já velhote (87anos)direi que os estudantes que protestaram contra as mensagens desenhadas na escadaria monumental
da Universidade,serão certamente apoiantes do CDS/PP da chamada
«democracia» cristã a «democracia»
musculada do tempo da Ditadura
clerical fascista do Estado Novo.
Êstes estudantes vestidos a rigor de capa e batina,até parecem Padres
e serão àmanhã certamente Doutores,
Engenheiros,Economistas,Ministros ao serviço dos Oligarcas e dos
PlutocratasEspeculadores do Mercado
Financeiro,adoradores de Mercúrio
o Deus do Comércio e dos Ladrões, cuja estátua figura na Bôlsa de
Valores.
Rui Cascao disse…
Claro que se fosse para pintar "Não Pagamos" nas escadas, como já aconteceu, seria outra coisas...
Maquiavel disse…
A Alta de Coimbra dificilmente será PAtrimónio da UNESCO porque eles insistem em dar esse prémio apenas a sítios onde as casas antigas estejam bem cuidadas e se vejam poucos ou nenhuns automóveis. Gente estranha!

Portanto, näo se melindrem os tais estudantes, que o JGC deslindou ao longe com o seu saber de experiência feito, näo é pelas pichagens efémeras que Coimbra näo entra no tal clube. Podem é pedir classificaçäo da Alta de Coimbra como "parque de estacionamento protegido" e lá poderäo deixar as suas bombas sem se chatear mais... até na escadaria, que é o único sítio onde ainda näo aparcam!
andrepereira disse…
TEMOS QUE SABER REMAR CONTRA O POLITICAMENTE CORRECTO! USAR A CAPA E BATINA, SÍMBOLO DE CLASSISMO E ELITISMO CONTRA UM COMÍCIO COM DEZENAS OU CENTENAS DE OPERÁRIOS, COM CARAS ESFORÇADAS, CORPOS VERGADOS AO SOFRIMENTO DA LUTA DIÁRIA NAS FÁBRICAS, NOS CAMPOS, NO COMÉRCIO, NA ADMINISTRAÇÃO: Que ironia da História esta! Os Estudantes contra os Operários! Força PCP! Força!

Se querem zelar pelas escadas monumentais, façam um concurso de ideias e proponham um conjunto de murais, devidamente regulamentado pela Câmara Municipal.

Aliás, para quem não é de Coimbra. Ficai a saber que durante uns 20 anos várias escadarias tinham o símbolo da APU - Aliança Povo Unido.

Mesmo que se considere ilícito - crime - a pintura de espaços públicos, isso não autoriza outro ilícito - perturbar o direito de reunião e de manifestação política!

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