A crise e as utopias

Os tempos vão de feição para os demagogos. Também os Irmãos Muçulmanos, quanto maior for a desgraça, mais se fortalece o seu poder, sem se tornarem recomendáveis.

Os níveis obscenos de desemprego, a miséria que grassa no País, a angústia que corrói a esperança e a desilusão que desagrega a democracia, dão lugar a desvairadas propostas e aos sonhos mais utópicos.

Difícil, nestes momentos, é conciliar a racionalidade com a ideologia própria, sem ceder aos radicalismos, alimentar projetos de vingança ou embarcar em utopias.

Quando vejo gente de formação democrática apelar a novo 25 de Abril ou a alguém que se coloque acima dos partidos e os substitua, percorro a história da América do Sul, bem mais eloquente do que a da própria Europa. Não sonham o que nos aguardaria após um golpe militar, para o qual não há, felizmente e por enquanto, condições.

Há quem pense que se renovam as condições que democratizaram os militares de Abril e que se repetiria a madrugada onde floriram cravos nos canos das espingardas!

Se, por um acaso da História, a União Europeia se desagregar, os países que possuíram longas ditaduras estarão na vanguarda de novas aventuras totalitárias. Não é preciso ser profeta para sentir as pulsões despóticas que a raiva e o desejo de vingança inspiram.

Espero que quem conhece a História da Europa reflita com prudência no momento atual e não se precipite em apelos demagógicos que, sob a capa da utopia, contribui para uma nova e devastadora ditadura.

Portugal não é um país com sólidas tradições democráticas. Para o golpe reacionário já basta a lenta agonia dos direitos, liberdades e garantias.

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