O Sud Expresso e a pide (Crónica)

Aquelas férias da Páscoa, em 1970, eram as primeiras após o regresso da guerra colonial e as últimas sem carro próprio. Foram limitadas a uma semana, pela necessidade de um segundo emprego, para sobreviver dignamente.

Lembro-me de telefonar para a estação de Santa Apolónia, a perguntar os horários dos comboios para Vilar Formoso. Foi longa a espera, primeiro para  encontrar disponível a linha telefónica e, depois, para ser atendido. Finalmente, lá apareceu um funcionário que me deu todos os horários para o dia pretendido. E não eram muitas as escolhas.

Optei pelo trajeto da Beira Alta à hora mais conveniente. No dia previsto, cheguei cedo, como habitualmente, entrei na bicha e, quando chegou a minha vez, pedi um bilhete para Vilar Formoso. O funcionário, ríspido, perguntou-me se não sabia que aquele comboio era internacional. Disse-lhe que não e que me era indiferente, queria o bilhete para a estação onde sabia que iria parar. Que não, que saísse da bicha, havia mais gente para comprar bilhete, já me tinha dito tudo, não vendia bilhetes para território nacional. Ficou incomodado quando alterei o pedido e solicitei o bilhete para Fuentes de Oñoro.

Disse-me o preço, recebeu o dinheiro e tartamudeou uns sons incompreensíveis quando me deu o troco e o bilhete. Entrei no comboio e, à hora marcada, o que não aconteceria à chegada, lá se pôs em marcha. Pousei o jornal e fui todo o tempo a olhar pela janela, um reencontro com os azulejos das estações do caminho de ferro e as paisagens que me devolviam ao território afetivo de que fora afastado tão longo tempo.

Entravam passageiros sem que algum saísse. Só empregado da CP, apoiado no estribo e agarrada ao varão da carruagem traseira, fazia sinais ao maquinista com uma bandeira empunhada na mão esquerda, em cada estação, antes de recomeçar a marcha, e voltar a subir. Havia vários lugares vagos e grupos de pessoas conversavam. Senti o ar estranho de voltar à pátria depois de um longo desterro.

A surpresa, misto de raiva e espanto, aconteceu-me a seguir a Vila Franca das Naves. Um indivíduo, com ar aparentemente normal, exibiu o crachá da PIDE e pediu-me o passaporte. Disse-lhe que não necessitava de passaporte porque me apearia em Vilar Formoso. Ficou irado. Parecia o homem da bilheteira, em Santa Apolónia. Grosseiro, perguntou-me para onde ia e o que ia fazer. Respondi-lhe que não tinha obrigação de lhe dizer. Está preso, acompanhe-me. Segui à sua frente enquanto de todos os lados surgia uma onda de solidariedade. Acompanhou-me o silêncio da carruagem carregado de pena  e de medo, até me dar ordem de entrar num compartimento onde me confiou a outro colega que me pediu a identificação. Entreguei-lhe o Bilhete de Identidade. Perguntou-me também para onde ia e a fazer o quê. Repeti-lhe a resposta. Seguiram-se longos quilómetros de silêncio. A Pátria era um lugar estranho e hostil. Há uns meses, de camuflado e com metralhadora a tiracolo, não teria de aturar biltres tão insolentes. Era mais livre em Moçambique.

Lembrei-me do primeiro comandante do Batalhão 1936, o tenente-coronel  Luís Canejo Vilela, que advertiu todos os militares de que não consentiria quaisquer maus tratos aos prisioneiros e que, logo no início da comissão, me mostrou a comunicação confidencial da Pide onde lhe era pedido para me vigiar, por não oferecer confiança ao regime. Recordo a bonomia com que me disse para não me importar e que apenas esperava que cumprisse as funções, e como me ouviu impassível a dizer-lhe que uma vez que não tive a coragem de desertar, embora discordasse daquela guerra, não trairia os camaradas com quem fora. Só espero que cumpras as tuas funções, repetiu, estendendo-me a mão.

Algum tempo depois voltou, com alguns passaportes na mão, o pide que me dera ordem de prisão. Sinistro, ajustamos contas no posto, emigrante clandestino, sem passaporte. Já tínhamos saído da Guarda há algum tempo, passávamos na Cerdeira do Côa, e senti medo, a boca seca, uma raiva violenta, as pernas a tremer, e foi a gaguejar que lhe disse que tinha passaporte mas não queria ser obrigado a ir a Fuentes de Oñoro, para chegar a tempo à camionete de ligação a Almeida.

Mostre-me o passaporte e a licença militar, e eu mostrei. Tinha-me prevenido para não necessitar de pedir favores à PIDE, se quisesse ir a Espanha ver familiares ou, apenas, para mudar de ditadura.

Ficaram os dois pides estupefactos. Um passaporte novo, tirado em Lisboa, através de uma agência de viagens, e licença militar, ambos de data recente. Nem isso os acalmou. O que ia fazer a Almeida, vou ver os meus pais que durante 26 meses não vi, enquanto estive na guerra. Mas quem são os seus pais? Está o nome no Bilhete de Identidade . Eu conheço-os, disse um. Já podia ter dito, nós podíamos ser amigos, não estou interessado, já percebi. E agora a raiva era do primeiro pide a devolver-me o B.I., o passaporte e a licença militar enquanto nos meus ouvidos ressoava o tom do «já percebi». Saia!

Já ficara para trás a Freineda quando, a recompor-me do susto e do asco, voltei ao meu lugar, seguido pela curiosidade e alívio daqueles emigrantes que pensaram que eu seria mais um cujos gritos ecoariam pela estação de Vilar Formoso, espancado logo ali, no local da estação onde a pide iniciava a tortura dos presos na mais absoluta impunidade e com total arbitrariedade.

O comboio parou. Lentamente, peguei na mala e no jornal e, com o olhar, despedi-me dos meus companheiros de viagem, que seguiriam para França mais aliviados por me verem incólume e livre a descer titubeante as escadas da carruagem para a plataforma onde o chefe da estação, o Jaime Pinheiro, feliz por me ver, veio ao meu encontro de braços abertos.

Ponte Europa / Sorumbático

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