O MAI, as polícias e o desastre iminente…

A semana encerra com este Governo a acumular desastres sobre desastres. Desde a ‘convergente’ sessão da Aula Magna link à recente notícia do envio da ‘convergência’ das pensões para fiscalização preventiva do TC link, tudo está a conjugar-se e a acontecer.
Mas, importante - porque não é possível circunscrever a um acto ‘acidental’ – foi a manifestação das forças de segurança frente à Assembleia da República.

A saga de prosseguir por via orçamental uma política de feroz austeridade com que o presente Governo tem fustigado (‘castigado’) os portugueses atingiu – como se pode observar na manifestação das forças de segurança – áreas sensíveis das funções de soberania e segurança do Estado. Tentar minimizar os acontecimentos não passa da ruinosa ‘política de avestruz’. Já não é possível escamotear o que está a acontecer. A transferência de capitais do bolso dos cidadãos (das famílias) para instituições financeiras, escondidas sob o manto diáfono de ‘mercados’, tornou-se demasiado evidente, escandalosamente notória, para que possa continuar a ser ocultada.

Vai ser difícil defender a estabilidade política (destas ‘políticas’) perante a crescente instabilidade social. Há algo de absurdo nesta contradição que se revela inconciliável. Mas quando a virulência das medidas punitivas sobre os cidadãos atinge (infecta) um dos pilares da autoridade do Estado (as forças de segurança), que se entende como um exercício democrático, aqui - e usando a expressão do presidente da Comissão Europeia – é que ‘o caldo está entornado’.

Os cuidados com que (todas) as forças políticas comentam os acontecimentos em frente ao Parlamento são um claro indício da gravidade dos acontecimentos. De facto, o praetorium – onde se acoita a ‘maioria governamental’ – foi posto à prova pela suposta ‘guarda pretoriana’, e quer o actual Governo quer as Oposições ficaram a saber que não existe. De certa maneira o poder ameaça cair na rua. Os comentários e as reacções quer do Governo quer dos partidos em geral incidem sobre questões corporativas e disciplinares esquecendo o fundamento político que lhe está subjacente. E, sob o aspecto político, este é um indício iniludível de desagregação do Estado. A usura do exercício desastrado do Poder conseguida através de reincidentes abusos configurados por antipatriótica obsessão pela austeridade punitiva, que se agrava cada dia, revela-se, como seria previsível, geradora de fortes desequilíbrios e tensões sociais. Por detrás deste quadro o eterno alimento (fermento) de todas as insubordinações cresce: a fome e os seus terríveis espectros!

É óbvio que a manifestação das forças de segurança não foi - nem será - o ‘assalto ao Palácio de Inverno’. Não está em curso uma revolução, nem haverá propriamente um clima insurreccional (ou sequer pré-insurreccional). Mas chegamos – e os recentes acontecimentos são reveladores – à altura de ‘arrepiar’ caminho. Quando se ultrapassam marcas (de limites difíceis de definir) a dinâmica popular tende a tornar-se imparável e irreversível. Não sabemos, exactamente, em que altura deste trágico percurso, nos encontramos. Seria prudente não arriscar mais.

A reacção do Governo é mais uma vez inábil e, pior, contem no seu ventre ingredientes que só podem agravar a situação. A exigência da demissão do director nacional da PSP (ninguém engole a colocação do 'cargo à disposição') link é um cínico ‘fait divers’ visando a desresponsabilização política ao mais alto nível. Pior, uma ‘atitude’ passível de agravar – ainda mais - a situação no interior da PSP, órgão essencial para a manutenção da segurança pública. Na verdade, a manifestação frente ao Parlamento não se restringiu à PSP e envolveu todas as forças de segurança. Ora, o ‘director natural’ de todas essas forças será o Ministro da Administração Interna. Que aparece em público a ignorar todas as suas responsabilidades. Como, de resto, a globalidade do Governo. Tornou-se cada vez mais premente e inadiável a realização de eleições. Com ‘soluções’ do tipo da arranjada pelo MAI estamos longe de uma almejada ‘paz social’.

Sem querer prever cenários, sem pretender incitar a qualquer ‘coisa’ (muito especialmente a violência), não é difícil adivinhar (prever) o desastre iminente.

Comentários

Manuel Galvão disse…
Cidadão cometem o grave ato ilícito de irem armados para uma manifestação (muito mais grave por serem polícias).

Polícias cometem o grave ato disciplinar de não desarmarem os manifestantes, como exige o Artº 8º Lei 406/74.

No mínimo, o ministro que tutela a polícia devia ser demitido.
Agostinho disse…
As leis neste país "são meras sugestões" como dizia o ex-presidente da República. São para cumprir só por alguns.
A começar pelo des-Governo, afinal uma sugestão pseudo-democrática, que se encontra agora, com a manif das polícias, em estado de "indireita". Houve unanimidade nos dois lados da barricada. "Tá bonita a festa, pá".

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