Moçambique – A morte do líder da RENAMO

A morte de Afonso Dhlakama, por doença, pode ter acontecido num momento em que fosse útil para a pacificação do País, mas o passado de quem nunca abdicou de ter um exército privado, apesar da significativa representação parlamentar, não dava garantias de pacificação a Moçambique.

O líder da Renamo queixou-se sempre da falta de transparência das eleições, no que era natural ter razão, mas o apoio do regime racista da Rodésia à fundação do partido e que o levou a sair da Frelimo, a que aderira, após a independência, era uma nódoa indelével do movimento terrorista que chefiou.

Dhlakama era o típico líder tribal, filho de um régulo, que não aceitava perder eleições. Em 1994, concorreu às primeiras eleições presidenciais de Moçambique, mas só obteve 33,7 % dos votos, contra 53,3 de Chissano. Em 1999 realizaram-se novas eleições presidenciais e de novo Dhlakama perdeu para Chissano, então com o líder da Renamo a somar 47,71 % e o da Frelimo 52,29%. Aliás, em Moçambique, parece ter funcionado o sistema pluripartidário, quer nas eleições presidenciais quer nas legislativas, embora a partir de certo momento o governo tudo fizesse para o assassinar e ele para continuar a comandar um exército cuja fusão com as forças nacionais estava agora em negociações.

Havia no percurso de Afonso Dhlakama analogias com o de Savimbi, mas faltava-lhe a inteligência, cultura e preparação intelectual do angolano. Ambos foram o resultado da guerra fria e da luta contra o comunismo que, no imaginário ocidental, era representado pelo MPLA e FRELIMO. Daí as conivências que sustentaram os dois líderes tribais.

Os votos de paz para Moçambique não podem ser mais intensos do que os de quem ali esteve 26 meses na guerra colonial e se sentiu solidário com o povo, conhecendo bem a miséria, repressão e exploração a que as autoridades administrativas, os cantineiros e os colonos submetiam as populações autóctones sob a proteção da administração colonial.

É difícil unificar um país onde os ódios tribais são ancestrais e as fronteiras separam as famílias, mas a unidade sob a bandeira da língua portuguesa e os interesses comuns do que pode ser uma grande nação devem ser o objetivo das elites intelectuais que surgem.
A morte do guerrilheiro, que foi um problema para a pacificação de Moçambique, tanto pode abrir uma janela de esperança para a paz como criar o vazio que impeça o diálogo.

Solidário com o grande país lusófono, não faço coro nos elogios ao defunto terrorista, e não me alegro com a morte de ninguém. É da paz dos diversos povos de Moçambique e da necessidade do seu progresso que ora me lembro. Espero que o País se torne exceção de sucesso num continente onde permanecem feridas do colonialismo, disputas tribais e sequelas do racismo na imensa miséria onde há recursos para a erradicar.

Afonso Dlakama era tudo menos o herói que, na morte, muitos querem glorificar. Era o Savimbi moçambicano, um soba tribal responsável principal pela continuidade de uma guerra civil, ainda que o governo de Maputo não possa ser inocentado.

Espera-se que a Renamo honre os acordos feitos pelo defunto presidente Dlakama e que a desmilitarização, desmobilização e reintegração dos seus militares se processe sem os sobressaltos que os fatores étnicos e tribais costumam provocar.

A morte de um líder pode ser uma oportunidade para um partido político se desarmar.

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