A SAGA DOS MONSTROS

Por Onofre Varela

Um ditador é sempre um monstro. Tanto o que detém o poder e é demitido por acto violento, quanto o que lhe toma o lugar. Mesmo quando o ditador é eleito pelo voto popular em sufrágio universal, ele continua a ser o monstro que qualquer ditador sempre é, embora se lhe possa conceder a figura de “monstro eleito democraticamente”, sem avaliarmos a qualidade da democracia e do acto eleitoral que deu a vitória ao monstro, o qual, não raras vezes, teve a ajuda de interesses alheios à vontade dos eleitores. Estes, por “hábito democrático”, são enganados em campanhas eleitorais cientificamente desenhadas para burlar os eleitores.

É tão habitual o uso de tais actos ludibriantes em política, que podemos comparar o povo de qualquer país à figura das eternas vítimas das fábulas “O Lobo Mau e Os Três Porquinhos” (divulgado pelo escritor australiano Joseph Jacobs em 1853 e passado ao cinema em desenho animado por Walt Disney em 1933) e dos meninos encurralados, no conto da colectânea dos Irmãos Grimm “A Casinha de Chocolate” (também autores de “O Lobo e os Sete Cabritinhos”, de 1812, que deu origem à história do Lobo Mau e Os Três Porquinhos).

Passando para a realidade actual, o mundo acaba de assistir à constatação de uma fábula vertida para a vida real no início deste ano de 2026, já com um quarto do século XXI gasto, cujo século sempre imaginamos (pelos sonhos que construímos à medida dos nossos desejos) ser tempo de atitudes humanamente positivas. Desta feita trata-se de uma fábula para enganar meninos, ou de um guião para filme a ser rodado em Hollywood, e que se pode contar assim:

Um país rico, governado pelo monstro comissionista Ditador Número Um, comedor de dólares e vaidoso, arrogante e interessado nos recursos naturais de outro país escolhido para vítima, ataca pela calada da noite esse país alvo, com todas as suas Forças Armadas aéreas e marítimas, apoiadas por sofisticada tecnologia inibidora da defesa do povo agredido. Para aumentar o interesse no enredo da história, o país invadido também é dirigido por outro monstro, o Ditador Número Dois, não menos vaidoso e arrogante do que aquele que o invade; a diferença entre eles está no interesse do Ditador Número Um, atacante invasor do território, que não sente qualquer simpatia pelo povo oprimido… até o prende e expulsa violentamente da sua terra quando ele é imigrante!… Na verdade, o que o move na invasão é a riqueza do território que quer para si. O povo oprimido não tem valor e continuará a ser desvalorizado e oprimido.

O Ditador Número Dois dorme no seu rico leito, num quarto ricamente decorado, estrategicamente situado no centro do seu rico palácio. Os alarmes não funcionam pelo boicote tecnológico promovido pelo invasor, e os soldados do Ditador Número Um apanham o Ditador Número Dois em cuecas, e a sua mulher em calcinha de fio dental. Aos dois candidatos a prisioneiros do Ditador Número Um, aquela entrada de rompante – sem audiência agendada – de soldados armados com aspecto de figurantes em filme de ficção científica, foi de tal modo inesperada que sentiram despertar de um sono tão tranquilizador que nem lhes deu tempo para perceberem o que acontecia e borrarem-se de medo.

O povo não deu por nada… apenas uns rebentamentos de bombas em local bem distante do palácio para enganar as tropas que correram para lá desguarnecendo o ponto vital. O povo também dormia… com o estômago mais ou menos vazio pela escassez de alimentos, os quais vão continuar a ser escassos com a gerência do Ditador Número Um, que só ele quer comer…

As riquezas do sub-solo retiradas de minas e de poços de petróleo, fizeram o interesse do Ditador Número Um invadir o território do Ditador Número Dois, pensando ter colocado um ponto final no filme, arrecadando a riqueza petrolífera daquele território que há tanto tempo cobiçava.

O filme podia acabar aqui, mas não… esta não é a última cena da fita. Ainda há assunto para argumento de um segundo episódio deste filme, não só no descontentamento do povo invadido, mas também quando o Ditador Número Três que, lá das estepes russas abençoa o Ditador Número Dois, apoiou a eleição do Ditador Número Um e faz guerra idêntica para tomar um país vizinho, decidir dar continuação à vergonhosa fita, contrariando ou confrontando as vontades do Ditador Número Um.

Entretanto, a indústria da informação, sempre ávida de escândalos e de guerras para aumentar as audiências alimentadas por um povo menor (em termos de escolha informada) é enriquecida pelos ditadores que, todos os dias, fornecem os canais das televisões…

The End” do episódio, mas não do filme…

A saga continua… provavelmente com a invasão de um outro território em forma de ilha, pelo Ditador Número Quatro de olhos amendoados… e, quiçá, de mais um território no norte gelado, pelo Ditador Número Um!… É só esperar para ver.




Comentários

Mensagens populares deste blogue

Coimbra - Igreja de Santa Cruz, 11-04-2017

HUMOR – Frases de AMÉRICO TOMÁS, um troglodita que julgávamos não ter rival