Bento XVI (B 16) – A Música de Ratzinger
Bento XVI (B 16) – A Música de Ratzinger
«O Cardeal
Joseph Ratzinger, Prefeito da Sagrada Congregação para a Fé (ex-Santo Ofício)
em um ensaio consagrado à liturgia, 11 de fevereiro de 2001, criticou
severamente a música rock e pop e manifestou reservas em relação à ópera que
acusa de ter “corroído o sagrado” de tal modo que – cita –, o papa Pio X
“tentou afastar a música de ópera da liturgia”, de onde se deduz que ela é
claramente desajustada à salvação da alma.
Eu já
tinha suspeitado que certa música é a “expressão de paixões elementares” e que
“o ritmo perturba os espíritos”, estimula os sentidos e conduz à luxúria.
Salvou-me de pecar a dureza de ouvido que tinha por defeito e, afinal, era
bênção.
Mas nunca
uma tão relevante autoridade eclesiástica tinha sido tão clara quanto aos
malefícios da música, descontada a que se destina à glorificação do Senhor, à
encomendação das almas ou a cerimónias litúrgicas, outrora com o piedoso
sacrifício dos sopranistas.
Espero que
o gregoriano, sobretudo se destinado à missa cantada, bem como o Requiem,
apesar do valor melódico, possam ressarcir-nos a alma dos danos causados pelo
frenesim da valsa, a volúpia do tango ou a euforia de certos concertos
profanos.
Só agora,
mercê das avisadas palavras de Sua Eminência, me interrogo sobre a ação
deletéria do Rigoleto ou da Traviata, dos pensamentos pecaminosos que Aida ou
Otelo poderão ter desencadeado em donzelas – para só falar de Verdi – ou dos
instintos acordados pela Flauta Encantada, de Mozart, ou pelo Fidélio, de
Beethoven! E não me venham com a desculpa de que há diferenças entre a ópera
dramática e a cómica, ou entre esta e a ópera bufa.
A música,
geralmente personificada na figura de uma mulher coroada de loiros, com uma
lira ou outro qualquer instrumento musical na mão, já nos devia alertar para o
pecado oculto na harmonia dos sons.
Sua
Eminência fez bem na denúncia. Espera-se agora que, à semelhança das listas que
publicou com os pecados veniais e mortais e respetivas informações
complementares para os distinguir, meta ombros à tarefa ciclópica de catalogar
as várias músicas e os numerosos instrumentos em função do seu potencial
pecaminoso.
Penso que
a música sacra é sempre de louvar (desde que dispensados os eunucos), enquanto
a música de câmara, a ser executada em reuniões íntimas, é de pôr no índex. Na
música instrumental, embora o adjetivo seja suspeito, talvez não haja grande
mal, e quanto à música cifrada não tenho dúvidas de que transporta uma
potencial subversão.
Nos
instrumentos, há-os virtuosos, como o sino, o xilofone, as castanholas e quase
todos os de percussão, deixando-me algumas dúvidas, mais por causa do nome, o
berimbau.
Nos de
corda, exceção feita ao contrabaixo e, eventualmente, ao piano, excluídas
perigosas execuções a quatro mãos, quase todos têm riscos a evitar. A lira, o
banjo, a cítara, o bandolim e o violino produzem sons que conduzem à
exacerbação dos sentidos.
Mas
perigosos mesmo – a meu ver –, são os instrumentos de sopro. Abro uma exceção
para os órgãos de tubos que nas catedrais se destinam a glorificar o Altíssimo.
Os outros parecem-me pecaminosos. A flauta, o clarim, o fagote, o pífaro e a
ocarina estimulam diretamente os lábios e, desde o contacto eventualmente
afrodisíaco aos sons facilmente lascivos, tudo se conjuga para amolecer a
vigilância e escravizar-nos os sentidos. Nem o acordeão, a corneta de pistões
ou a gaita-de-foles merecem confiança.
Apreciemos
o toque das trindades dos sinos dos campanários e glorifiquemos o Senhor no
doce chilrear dos passarinhos. Cuidado com a música, sobretudo com os efeitos
luminosos associados. Estejamos atentos às palavras sábias do Cardeal
Ratzinger.»
In Pedras Soltas, Ed. 2006.


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