Chega…

Chega…

Eu sabia que os militantes do Chega eram incapazes de pensar, mas não imaginei que soubessem ler, apesar da obstinação com que escrevem no meu mural do Facebook.

Nunca conseguiram atingir-me com maiores danos do que os que infligem à gramática e à urbanidade, mas admiro o esforço para superar o ídolo na indelicadeza e boçalidade.

Tolero-os. Sei que não distinguem a democracia da ditadura, a sanidade da demência o civismo da selvajaria. Porque nunca tiveram voz, admiram o seu Profeta, porque grita, e confundem os seus grunhidos com vozes do Além.

Como democrata respeito os antidemocratas e como ateu defendo os crentes, e o Chega não é um partido, é uma seita que crê no Profeta e na virtude dos exorcismos. O líder não é um portador de ideias, é o vendedor de sonhos cuja presença é uma aparição que extasia e excita os peregrinos que o seguem. Ele próprio se considera o 4.º Pastorinho de Fátima, julgando ser a reencarnação do cónego Formigão.

Sei que os devotos sonham com o “nosso Ultramar infelizmente perdido” e se oferecem para reverter a descolonização oferecendo-se para envergarem um camuflado e partirem para a Cruzada que restaure a Fé e o Império.

Quando o Pastorinho anuncia que vai só, por ser o único no lado certo do caminho, não veem que todos os outros vêm pelo mesmo lado em sentido contrário, julgando que vêm contra ele, ele que sonha atropelar todos os outros.

O Pastorinho impede os outros de falar, e queixa-se de que o silenciam. Só nesta última semana deu quatro entrevistas exclusivas às televisões, foi citado em todos os jornais e ouvido em todas as emissoras de rádio, e os devotos acreditam, enquanto os agnósticos hesitam em abrir o frigorífico ou o micro-ondas com medo de vê-lo aparecer.

O que une os seus fiéis é a fé inabalável, a crença na redenção à custa da abdicação do raciocínio, a esperança de indulgências nas peregrinações em que o acompanham. Nas Caldas até lhe emprestaram uma bicicleta acreditando que soubesse pedalar.

Se este homem chegasse a Belém, à semelhança de Calígula, faria cônsul Pedro Pinto, nomearia Pedro Frazão Patriarca e exiria cultuar Rita Matias como Imaculada Ariana.

Os que julgam que têm o Trump com que sonharam, não distinguem a mansão de Mar-a-Lago do apartamento no Parque das Nações cujos 70 metros quadrados o Pastorinho reduziu a 30 para que os devotos pensassem que vivia numa cela monástica.

Os que sonham com o Trump lusitano contentam-se com a imitação, com uma fotocópia rasca tirada numa impressora de Algueirão. Saiu-lhes um Salazar vindo do comentário da bola para as homilias diárias de um evangelho fascista que mistura o catolicismo do Concílio de Trento com o Integralismo Lusitano, de Rolão Preto, e que julga que Orbán, Fico e, sobretudo, Trump, são os profetas dos novos tempos.

Vão em direção a Alcácer-Quibir convencidos de que caminham para o Armagedão.


     

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