Eleições presidenciais – 2.ª volta

Eleições presidenciais – 2.ª volta

Não se pode suspender a luta partidária, inerente e imprescindível à democracia, mas seria de grande lucidez que os partidos democráticos, de motu próprio, interrompessem voluntariamente a agressividade, entre si, até ao próximo ato eleitoral.

Em Portugal, só um partido é claramente contra a democracia liberal, e apenas outro, em processo de extinção, descobriu que pode ser equidistante entre a democracia e autocracia, entre a liberdade e a opressão.

No próximo dia 8 de fevereiro não está em causa uma luta entre direita e esquerda, entre socialismo, que nunca existiu em Portugal, e capitalismo, mas a defesa da democracia contra a ditadura, do Estado de Direito democrático contra a sua subversão, da liberdade de expressão contra a censura, dos direitos, liberdades e garantias contra o despotismo.

No fundo, temos um histrião que anda aí em todas as redes sociais, em todos os ecrãs de televisão e em todas as emissoras de rádio, em provocações à democracia, desafios à Constituição e ameaças à convivência pluriétnica e multicultural. O histrião precisa de palco e este é-lhe oferecido, desde o início, porque o ruído tem mais audiência do que o silêncio, a mentira atrai mais do que a verdade, e o insulto supera a urbanidade.

No próximo dia 8 joga-se o futuro da democracia e não está garantida a sua vitória, mas se é mais provável que o candidato decente, urbano e confiável saia vencedor, o futuro da democracia também se joga na correlação de forças entre ele e o marginal que vive do ódio e se alimenta do ressentimento.

Cada voto em quem não é contestado quando defende Salazar e a ditadura é um voto em quem despreza a liberdade, a decência e a própria verdade. Pior, são votos que transitam dos partidos democráticos e podem não regressar.

Quem tem memória, quem conheceu a censura, as prisões sem culpa formada, o partido único, a tortura, as perseguições, o degredo, o trabalho forçado dos negros nas colónias, a guerra colonial, a violação da correspondência e a emigração em massa na ditadura de Salazar, que deixou 25% de analfabetos, não hesitará no voto. Mas, meio século depois, há quem ignore de onde viemos e que serve de modelo ao demagogo que provoca e insulta acompanhado de Pacheco de Amorim, uma excrescência fascista e ideólogo do Chega, antigo membro destacado do MDLP de onde emergiu um grupo terrorista que assassinou adversários e combateu a democracia.

Nas próximas eleições está em causa a democracia e a capacidade de a defender. Cada ponto percentual do inimigo da democracia é um rude golpe para os partidos de onde saírem os eleitores num ato de indiferença e desamor pela liberdade e pelos valores que transformaram Portugal de país do terceiro mundo, onde as mulheres eram humilhadas, no país moderno, humanista e solidário que não soube defender-se da horda fascista que surgiu para o reconduzir ao passado que devia envergonhar-nos.


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