EU SOU ANTI-SEMITA?

 


EU SOU ANTI-SEMITA?

Por Onofre Varela

A pergunta expressa no título desta prosa foi motivada por uma crítica de que fui alvo em 2023 por parte de uma instituição israelita perante o desenho que ilustra esta crónica e que, na época (2023) estava exposto na Bienal de Arte de Gaia… e depois de criticado foi mostrado nos canais da televisão e comentado em rádios e jornais (*).

A Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia recebeu carta do consulado israelita em Lisboa exigindo a retirada do apoio que a autarquia dava ao evento, alegadamente por apresentar mensagens “anti-semitas”(**)… do que, então, dei conta neste espaço.

Agora, perante o que se passa no mundo, com ditadores como Putin, Netanyahu e Trump a invadirem territórios independentes pretendendo tomá-los para si (para se apoderarem do território, ou do petróleo e da exploração de minerais), em desrespeito pelos direitos dos respectivos povos e pelas leis internacionais, o assunto de ser-se anti-qualquer-coisavoltou-me à mente.

É comum qualquer ditador considerar-se insultado por quem critica as suas atitudes, por isso não me admirei de os censores do meu trabalho me rotularem de anti-semita” (Salazar também rotulava de “anti-patriota” quem não fosse Salazarista; Putin rotula de terrorista quem o critica; e Trump diz que os seus críticos são comunistas). Os ditadores sempre se afirmaram cidadãos exemplares e donos da razão universal… embora só mereçam o encarceramento sem fiança e por largas décadas.

Por isso me obrigo a perguntar: Eu sou anti-semita? Uma definição de “anti-semitismo” pode ser esta: «a recusa de conceder a Israel aquilo que é dado a qualquer outro estado, isto é, uma existência plena, definitiva e estável» (palavras de David Grossman no prefácio do seu livro “O Coração Pensante”, editado pela Dom Quixote em 2024).

Segundo esta definição, eu – que defendo a existência de Israel e da Palestina – não sou anti-semita… mas Putin é anti-Ucrânia independente e também é anti-ocidente; Trump é anti-Gronelândia independente, anti-América Latina e anti-Europa… tal como os sportinguistas são anti-benfiquistas e vice-versa, e os genros são anti-sogra… (na demonstração de uma estupidez de todo o tamanho).

Há um tipo de anti” de que tenho consciência plena de ser: sou anti-nazi, anti-estado de guerra, anti-invasores e anti-ditadores… vá lá… também sou anti-aquele-gajo que um dia trepou à minha varanda, entrou no meu quarto e roubou um cordão de ouro com uma medalha que a minha mulher tinha na cómoda… mas este desgraçado até pode merecer o meu perdão… os outros não!…

(*) - O caso em questão foi, a seu tempo, publicado aqui, no Ponte Europa. Para quem não sabe, ou não se lembra, deixo a explicação necessária para melhor entendimento:

«O consumo de Religião em demasia é como o vinho: embebeda!… O sentimento religioso misturado com o sentimento pátrio, mais o poderio económico e a força militar, resulta numa mistela explosiva desintegradora do raciocínio dos animais que a consomem. Quando abordamos a actualidade da política judaica temos em mãos um exemplo de tal mistela, na qual se mistura fé religiosa na vertente mais sacana (a extremista) com poder económico e militar. São estes bêbedos consumidores de fé e presunção de superioridade em copo cheio, e do poder económico às litradas, que se alimentam do vício do poder e se permitem vomitar sobre a liberdade de quem bebe com regra, raciocina saudavelmente e dispensa radicalismos. A última vomitadela censória de que fui alvo aconteceu na Bienal de Arte de Gaia – 2023, (de 8 de Abril a 8 de Julho) seis meses antes do ataque terrorista do Hamas a Israel (país igualmente terrorista). Fui convidado a participar na Bienal e expus 20 desenhos (cartunes e caricaturas). Um deles (seleccionado em segunda escolha e aqui reproduzido) é datado de 2021 e refere esta verdade histórica: “Israel trata os Palestinos com o mesmo desrespeito com que Hitler tratava os Judeus”. Todos sabemos que em Religião e Política a verdade é sempre a primeira vítima… tal como nas guerras… sendo espezinhada e maltratada, e que os extremistas “Donos da Verdade Única e Universal” se consideram representantes dos deuses da nossa criação. O meu desenho não agradou a um judeu visitante da exposição que se sentiu incomodado no raquitismo cerebral de que enferma, fotografou o trabalho e enviou a imagem como reclamação para uma coisa denominada Comunidade Israelita de Lisboa (se não é este o nome, é parecido). Em consequência da acção daquele aprendiz de espia da Mossad, a Câmara Municipal de Gaia recebeu uma mensagem “de teor agressivo”, sugerindo (ou impondo?) a retirada do apoio económico da autarquia à Bienal de Arte, como que se a má disposição judaica fosse mais importante do que o evento artístico em causa! Na sua reclamação, aquela coisa judaica entendia que "a Estrela de David sobreposta no coração de uma imagem desenhada de Hitler é uma ofensa grave e indecorosa"!… Reacção típica de um sentimento religioso fundamentalista e estúpido em último grau, que tem muito mais piada do que o meu desenho… porque a estrela Israelita não está sobreposta no coração, mas sim desenhada na representação de um casaco!… Se despíssemos o casaco àquela figura, a estrela passava a estar pendurada num cabide… sem necessitar de cirurgia para a “remover do coração”! Fui informado da censura ao meu desenho por telefonema do director da Bienal na manhã do dia em que a Câmara Municipal de Gaia recebeu o recado judeu. Num segundo telefonema, a meio da tarde, com a presença do vice-presidente e outros autarcas na conversa telefónica (o presidente estava em viagem para a Ucrânia), apercebi-me de que a autarquia estava com “uma batata quente nas mãos” e que a Embaixada de Israel em Lisboa já fazia parte do processo com mensagem considerada “agressiva”. O autarca queria saber qual era a minha posição sobre a questão. O espaço de tempo decorrido entre os dois telefonemas serviu-me para reflectir sobre o assunto. Já tinha digerido e percebido o incómodo judeu e a consequente chantagem camuflada no protesto, bem visível na preocupação do responsável autárquico… e sabia de notícias recentes que me apontavam a verdadeira razão do desconforto (o avultado investimento judeu em Gaia!). Se eu tivesse 20 anos, cavalgava a minha juventude guerreira e batia o pé frente a Israel… mas enquanto octogenário já tenho estatuto para ser mais racional e inteligente do que qualquer fundamentalista estúpido, seja judeu, muçulmano ou cristão. Ultrapassei a irracionalidade e a falta de inteligência dos presunçosos israelitas e decidi retirar da Bienal o cartune da discórdia, mantendo o espaço vazio para ser notada a falta da obra e se poder explicar o porquê a quem perguntasse. Assim se fez e a questão foi arrumada.» 

(Dias depois o autarca preocupado com a má disposição do cônsul de Israel, foi preso… alegadamente por fazer favores a empreendedores imobiliários israelitas!… Mas isso já é outra história… não faz parte desta que termina aqui).

(**) - O termo “Semita” quer dizer “oriundo de Sem”. Sem foi filho de Noé. Na história bíblica embarcou na arca com os seus irmãos Cam e Jafé para sobreviverem ao dilúvio, e deram origem ao povo Hebreu (Judeu), do qual também faz parte Jesus Cristo. Mitologias que ainda hoje alimentam radicalismos tão criminosos como são Trump, Netanyahu, Putin e Ali Hosseini Khamenei, entre outros patifes que consporcam a espécie a que, com dignidade, pertenço... mas apetece-me ser membro de qualquer matilha do que do grupo destes humanos indignos da inteligência que lhes calhou por sorteio...


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