SOBRE A ASSOCIAÇÃO ATEÍSTA PORTUGUESA
UM POUCO DE HISTÓRIA
Por Onofre Varela
No dia 1 de Abril de 1997, a propósito da clonagem da Ovelha Dolly (levada a efeito pelos biólogos escoceses Keith Campbell e Ian Wilmut, investigadores do Instituto Roslin, na Escócia, cuja experiência tinha sido divulgada para o mundo, mês e meio antes, no dia 14 de Fevereiro) publiquei no Jornal de Notícias um texto a propósito, bem humorado, onde me confessava ateu e indagava se o primeiro clonador não teria sido Deus, ao conseguir fazer Eva a partir de uma costela de Adão?
“Costela” não seria um modo de dizer célula?
(A data de publicação – 1 de Abril, dia de enganos – não foi um propósito… foi casualidade!…)
Recebi algumas reacções de leitores. Um deles, o senhor Manuel Paiva, com mais de 90 anos de idade, mostrou interesse em falar comigo. Fui a sua casa e ele propôs-me editar uma revista mensal dirigida a ateus.
A ideia era interessante… mas alertei-o para a dificuldade económica da proeza, porque a revista tinha de ser vendida e incluir publicidade bem paga para que as despesas de produção, impressão e distribuição, fossem cobertas. E eu não estava a ver nenhuma empresa a publicitar os seus produtos ou serviços numa revista ateia (exactamente pelo estigma que a palavra “ateu” tem na opinião pública).
Na continuação da conversa, surgiu uma alternativa para substituir a revista: uma Associação Ateísta.
Nos dias imediatos publiquei um anúncio no Jornal de Notícias, com o título AOS ATEUS, e o texto “se você é ateu e concorda com a formação de uma Associação Ateísta, escreva-nos” e forneci o número de um apartado dos correios que, então, possuía.
Foi assim que se juntou um grupo que crescia todas as semanas. Fizemos a primeira reunião na sala de teatro da Seiva Trupe (Rua de Camões, no Porto) e parti para a legalização da Associação. Tínhamos número de contribuinte e o nome Associação Ateísta Portuguesa registado. Só faltava escrever os estatutos para concluir o processo de legalização.
Com o correr do tempo e o atraso dos estatutos, aconteceu que o humorista, pintor e desenhador José Vilhena, publicitou a Associação Ateísta Portuguesa na sua revista O Moralista (ou O Cavaco… já não me recordo)
Um dia telefonaram-me da Televisão SIC convidando-me a participar, na qualidade de ateu, num programa apresentado pela Júlia Pinheiro. O dia que me propunham já eu o tinha comprometido com um evento de caricatura em Ourense (Galiza) e não pude comparecer… mas, já que os estúdios se situavam em Lisboa, propus o José Vilhena que estava perto. Aceite o seu nome pela SIC, telefonei ao Vilhena. Ele não podia fazê-lo por dificuldades de locomoção, mas arranjava quem fosse na sua vez.
No Sábado respectivo deixei a televisão a gravar o programa e quando cheguei da Galiza, vi-o… e ia morrendo!…
O personagem que José Vilhena conseguiu para o representar foi o “Alexandrino”, um moço que foi aproveitado pelo humorista Herman José para preencher alguns dos seus programas com disparates bem humorados, e que mais tarde foi “bruxo” na festa das bruxas em Trás-os-Montes nos dias 1 de Novembro!
No final do programa, onde se discutiu Religião, o Alexandrino subiu a um púlpito e deram-lhe um minuto para debitar um discurso… o que ele fez da maneira mais disparatada. De tal modo que um interveniente no programa perguntou “mas quem é você?!”… e a resposta não podia ser pior: “Estou aqui em representação da Associação Ateísta Portuguesa, que foi fundada pelo meu amigo José Vilhena”.
Devo dizer que aprecio os desenhos do Vilhena. Sou seu admirador enquanto humorista, e considero que ele conseguiu impor-se no mundo da arte e da comunicação com um tipo de humor desenhado (e escrito) sui generis, incluindo piadas anticlericais… mas também pornográficas!…
Não tenho nada contra o seu trabalho… até gosto… mas, naquele momento, aliar o nome de José Vilhena à criação da Associação Ateísta Portuguesa, era matá-la logo à nascença. Seria alvo dos críticos do desenhador e humorista (que iriam aproveitar a pornografia e escamotear a sua arte) para afirmarem que “os ateus são um grupo de bandalhos pornográficos”…
Decidi congelar a formação da Associação, esperando melhores dias, com o desejo de que o tempo apagasse a imagem transmitida pelo Alexandrino.
Depois (talvez dois anos passados) surge Carlos Esperança e Luís Grave Rodrigues, entre outras personalidades, que encabeçam o projecto da Associação e partiu-se para a sua legalização definitiva… com uma primeira reunião em Coimbra, seguida de almoço (e disse Carlos Esperança: “Vale mais o primeiro almoço do que a última ceia!”) sem podres na sua história e com a experiência “Alexandrina” perfeitamente esquecida!
E assim chegamos aos nossos dias.
ATEUS OU LIVRE-PENSADORES ?
(ACERCA DA POSSIBILIDADE DE MUDAR O NOME À ASSOCIAÇÃO)
Se é verdade que o termo ateu não é bem visto por um determinado sector conservador da sociedade, que pode entendê-lo como “agressivo”… devo dizer que a palavra “ateu” é um termo tão agressivo quanto a palavra “religioso” (se entendermos este “religioso” como um extremista islâmico degolador de pacíficos cidadãos, ou um sacerdote da Inquisição Católica torturador de quem não diz amen com a Igreja).
E depois, a sociedade é diversificada… é muito mais do que o grupo de conservadores que lhe caíram dentro como mosca na sopa, que a conspurcam e não aceitam o termo “ateu”. Devemos mudar de nome para agradar aos conspurcadores? Para eles, “Livre-Pensador” não é, também, um termo a evitar? O Salazar odiava os ateus e prendia os “livre-pensadores”… e os adoradores do ditador ainda andam por aí, esquecidos da História…
A “agressividade” encontrada na palavra “ateu” não está nela própria, mas sim na cabeça de quem assim a interpreta. Podemos dizer que não temos modo de levar um conservador a entender que um ateu é uma pessoa de bem... uma pessoa tão correcta quanto o conservador garante ser ele próprio. Em alguns casos, até, (e todos nós conhecemos casos) o ateu tem muito mais dignidade do que um conservador ou um religioso seguidista de um qualquer credo, que nas suas atitudes sociais não passam de umas excelentíssimas nódoas. Alguns deles nem passam de asquerosos homúnculos… há um que até se candidata a presidente da República e tem um número de apoiantes até dizer chega!…
Esta questão faz-me lembrar as primeiras reuniões do embrião da AAP, no Porto, quando em 1997 iniciei o movimento que conduziu à formação da Associação Ateísta Portuguesa. Então, eu estava longe de supor haver tantos modos de se ser ateu como maneiras de se ser religioso e de cozinhar bacalhau.
Geralmente todos nós temos tendência para negarmos tudo o que não encaixe no nosso modo de ver, e excluímos da nossa roda de amigos aqueles que pertencem à “espécie rara” de não comungarem dos nossos pensamentos, das nossas certezas ou convicções e das nossas crenças.
Se há uma matriz identificadora de um religioso ou de um ateu, ela é, apenas, a de se ser, ou não, crente em Deus. Para além desta simples bitola, há vários modos [e comportamentos sociais] de crer e de descrer, e nenhum deles, por si só, permite aferir o nível da qualidade humana daquela pessoa. Estas diferenças comecei a notá-las a partir da primeira reunião com os aderentes à ideia da congregação dos ateus numa associação nacional que os representasse.
O primeiro aderente foi o mencionado Manuel Paiva (na verdade, até foi ele o autor da ideia), um homem que contava mais de 90 anos de vida. Mostrou-se empedernidamente anti-clerical, mas, ao mesmo tempo, também frontalmente contra a ideia da legalização do aborto voluntário [colocando-se ao lado da Igreja na defesa do embrião] pois, para si, o embrião da vida era coisa sagrada, não admitindo que uma gravidez fosse eliminada por vontade da mulher, obrigando-se, esta, a levar o estado de gravidez até ao parto.
Para além disto (que, para mim, já era grave) manifestou-se contra a minha proposta de atribuirmos a qualidade de sócio honorário a José Saramago (que acabara de ganhar o Prémio Nobel)… pelo facto de o escritor ser comunista!
Depois notei que o fundamentalismo caracterizador de alguns religiosos também tinha lugar no pensamento de alguns ateus; mormente aquela certeza de se ser o detentor de todas as verdades, e a vontade de as impor aos demais, condenando outros modos de pensar que não alinhem pelo seu.
Verifiquei, ainda, o desprezo e a postura xenófoba que alguns ateus demonstravam ter por atitudes puramente étnicas, como o modo de vestir e de rezar de outros povos não europeus, como que se os europeus [e os ocidentais] fossem a fina-flor da Humanidade!
A minha virgindade (enquanto Ateu-Humanista) na apreciação dos meus correligionários, era constantemente violada pelas observações que fazia naquelas primeiras reuniões, obrigando-me a alterar, constantemente, o modo de entender as coisas que ao Ateísmo e à Religião pertencem, numa espécie de curso rápido sem mestre, aprendendo, autodidacticamente, a pautar a qualidade das pessoas não pela superficial camada visível de se ser crente ou descrente, mas pelas suas condutas sociais e pelas motivações que levavam, cada um, à crença ou à descrença.
Cheguei à naturalíssima conclusão de que em todas as classes sociais, em todos os partidos políticos e em todas as religiões [quando livres de extremismos e atitudes homófobas e xenófobas], há boas e más intenções, boas e más práticas, boas e más pessoas.
O Homem é assim mesmo… é um produto mal acabado!… Se eu me dirigisse a religiosos com este discurso, para ser mais perceptível diria que entre gente de muita fé em Deus “há quem tenha a alma a arder no inferno”… e que entre os mais empedernidos ateus “há quem raie a santidade”.
Se de “Ateus” passarmos a “Livre-pensadores”… para os conservadores vamos ser todos santos e "uns gajos porreiros"?
Cá por mim prefiro manter a designação Associação Ateísta Portuguesa.
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