quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Acabar com o folhetim…

Desmontada – como parece que está - a questão do voto de censura anunciado pelo BE é tempo de acabar com este folhetim que ocupou a “classe política” portuguesa nos últimos dias.

De facto, a voluptuosa efervescência que nasceu - e cresceu - à volta do tremendo erro político que foi protagonizado pela direcção do BE, poderá ter efeitos perversos e acabar por ferir a confiança dos portugueses em relação ao Governo e às Oposições. Ninguém fica de fora!

A já dissecada infantilidade da posição BE induziu respostas desconformes. Conduziu a uma “dramatização” excessiva e desproporcionada do ambiente político nacional reveladora de uma imaturidade que um regime com 37 anos de percurso parecia ter ultrapassado. Criou - vemos com um distanciamento histórico de menos de 1 semana – aquilo que hoje podemos considerar “uma tempestade num copo de água”.

A moção de censura nasceu pejada de pecadilhos, politicamente inconsistente, com um incompreensível timing, titubeante para os próprios protagonistas e, desde logo, condenada ao insucesso. Para usar um lugar-comum dos think thanks políticos: “as condições não tinham amadurecido”…
Mas as reacções – em todo o espectro partidário – alimentaram múltiplas especulações e construíram cenários para todos os gostos. Os fogos-fátuos ateados à volta da moção de censura do BE tiveram, porém, uma virtude: clarificaram os timings do Centro-Direita [PSD e CDS] quanto à estratégia de derrube do Governo e denunciaram uma iníqua evocação do “interesse nacional”. link

Na verdade, este é um assunto [politicamente] morto. As sequelas ficam para os que têm memória. E, enquanto os partidos se afundaram em discussões imediatistas e tácticas sobre um cenário político irrealista, o País [real] caminhou apressadamente - nesse mesmo lapso de tempo - no sentido do aprofundamento da crise. Mais uma vez tomamos a nuvem por Juno. Mais uma vez andamos distraídos e divertidos...

Se é verdade que temos conseguido algum equilíbrio orçamental [subsidiário de pesadas medidas de austeridade], esse facto, não tem tido repercussões na situação financeira do País que, progressivamente, se degrada, como se infere das declarações de Teixeira dos Santos, à entrada da última reunião do ECOFIN. link A sensação residual é que fomos abandonados à fúria dos especuladores do dito “mercado financeiro”.
Por outro lado, o crescimento económico vive momentos dramáticos e de grande incerteza apresentando-se como inevitável o espectro de uma nova recessão. link

São estas realidades económicas e financeiras que, à margem das chicanas políticas, preocupam profundamente os portugueses.

De resto, a inconsequência do voto de censura na estabilidade governativa, a derrocada estratégica da Esquerda [não só do BE], as promessas do PSD na defesa do status quo [a prazo, note-se], não acalmam o ambiente político, nem incutem confiança aos portugueses quanto ao caminho desenhado para enfrentar a actual crise. São episódios marginais de um folhetim cujo desfecho todos julgamos conhecer…