Crise alimentar, insurreições populares e futuras guerras…

Os levantamentos populares no Norte de África e Médio Oriente traduzem a vontade de mudança e de libertação dos povos concretizada na luta pela queda regimes opressivos dirigidos por ditadores, suportados por uma elite autóctone [política e/ou religiosa] envolvida na pilhagem dos recursos económicos e financeiros locais, na corrupção sistémica através do aparelho de Estado ou, ainda, receptores das “ajudas externas”.
Mostraram ao Mundo que a ocupação das chefias [políticas] nacionais por um conjunto de títeres ao serviço de interesses internacionais, concertados num vasto quadro estratégico mundial onde, desde as mortíferas fanfarronices de G.W. Bush e a paranóia do combate ao terrorismo, atingiu níveis insuportáveis e incompatíveis com as liberdades individuais e, simultaneamente, contribui para eternizar no poder regimes fantoches.

Mas existem outros factores para além das questões políticas. Na verdade, a persistência destes opressores no poder, acabou por trazer à superfície questões económicas e sociais que interferiram violentamente na vida quotidiana dos cidadãos. Duas questões terão sido determinantes: o desemprego de uma vasta camada jovem e o galopante empobrecimento de largos estratos populacionais.

Sobre a mobilização dos grupos populacionais jovens, educados e com acesso a redes de comunicação e de informação, muito está escrito e dissecado. A sua importância nas movimentações de massas nestes Países não pode ser escamoteada. Eles foram um [não o único]dos motores destas revoluções. Pouco mais há a acrescentar.

Por outro lado, o empobrecimento progressivo das populações tem sido ensombrado pela componente política. Na realidade, um outro motor das “revoluções”, se olharmos com atenção à trajectória histórica dos povos, sempre foi a fome. Ou melhor, as grandes mudanças políticas e económicas coincidem com ciclos de fome, basta olhar para os mecanismos precursores da Revolução Francesa.
Esse é um espectro dramático que, actualmente, perturba todo o Mundo.

Neste momento, a subida dos preços dos bens alimentares é [deverá ser], politicamente, preocupante. Vários alertas têm sido lançados por ONG’S, pelos conclaves orquestração da riqueza [G-8; G-20], por organizações internacionais [FAO] e, inclusive, pelo Banco Mundial.
Segundo este último organismo [Banco Mundial] - que tem por dever ajudar os países em desenvolvimento a reduzir a pobreza - a situação presente decorrente da subida descontrolada dos preços dos bens alimentares lançou, entre Junho e Dezembro de 2010, 44 milhões de pessoas [em todo o Mundo] no limiar da pobreza extrema. link Uma verdadeira catástrofe social e humanitária que condicionará – a par das questões energéticas e da água - as políticas mundiais no século XXI.
Esta é mais uma vertente da presente crise económica e financeira. O preço dos alimentos básicos deverá disparar, este ano, cerca de 10%!. Dois produtos estão incluídos neste pacote: o pão e o leite. link

O peso desta terrível crise alimentar tem vários gradientes de impacto nos diferentes Países. De acordo com ONU, uma família dedica aproximadamente 15% do seu rendimento para aquisção de bens alimentares [nos países desenvolvidos], mas essa proporção pode chegar a 60%, 70% e até 75% do orçamento familiar nos países em desenvolvimento... link

Será, inevitavelmente, uma crise que alargará o fosso entre ricos e pobres aprofundando as desigualdades sociais.
Face a estas negras perspectivas Robert Zoellick [presidente do BM] porpôs um "New Deal for Global Food Policy" que entre outras medidas de fundo passa por estímulos a um desenvolvimento, a longo prazo, do sector agrícola. link
Por outro lado, Dominique Strauss-Kahn, director do FMI, defendeu a necessidade de fazer frente à crise alimentar através de acções do BM destinadas a colmatar de imediato as carências nutritivas dos mais vulneráveis e, desde logo, começar a investir na distribuição de sementes e fertilizantes, bem como, promover a melhoria das redes sociais de segurança social. O preço se não forem tomadas medidas deste tipo é, pura e simplesmente, mais guerras... link.

Enfim, enquanto nos empenhamos, dia a dia, no combate à crise financeira e económica, paralelamente, o Mundo caminha em direcção ao abismo. As crises regionais são minimizadas. A verdadeira crise é global e diz respeito à sustentabildade da vida no Planeta. E veio para ficar!

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