quinta-feira, dezembro 31, 2015

Dezembro de 2015 e dealbar de 2016…


Nesta noite festiva, segundo o calendário gregoriano, é difícil para um europeu não estar assoberbado por uma profunda intranquilidade. 

Primeiro, pela crise económica e financeira que teima em não desaparecer. Os tempos de ‘bem-estar’ do progresso e do desenvolvimento estão cada vez mais distantes e longínquos. 

Depois, pelo drama dos refugiados vítimas de guerras das quia a Europa não pode afirmar que tem a mãos limpas. 

Não vamos tecer considerações sobre a crise económica e financeira, já muito longa e sem fim à vista, onde as queixas e recriminações são mais do que muitas, porque dedicar a atenção para este problema (grave) soa, neste momento, a um certo egoísmo. 

Por outro lado, o drama dos refugiados não pode ser ignorado ou desvalorizado. Esta tragédia que bateu à nossa porta e invadiu o nosso sossego sem que – mais uma vez – a prevíssemos. Trata-se do mais intenso fluxo migratório depois de 1945 que levantou uma maré de incertezas, miséria e desespero que julgávamos impossível. Uma 'maré' (tsunami ?) que mobilizou 1 milhão de refugiados num ano é qualquer coisa de extraordinário e perturbador.  

Tanto mais perturbador quanto é verdade que a União Europeia tem revelado uma penosa incapacidade de resposta a este dramático problema. Na verdade, salvaguardando a disponibilidade que tem demonstrado a Alemanha (que quer transformar este surto numa oportunidade) os 28 países europeus mostram uma total incapacidade em actuar coordenada e eficazmente para a sua solução ou até para promover o necessário alívio de um descomunal sofrimento humano que nos entra diariamente nas nossas casas. 
Cada um dos 28 Países actua per si. Resultado: acordaram (com reticências) repartir, nos próximos 2 anos, 160.000 refugiados. Ao soar da meia-noite de hoje estarão acomodados (recebidos com um mínimo de dignidade) cerca de 200.
Isto é, a Europa que se propõe (tentar) resolver pouco mais do 15% do problema, hoje, ao mudar a folha do calendário terá 'resolvido' 0.002% (!).

Pior, a Europa fechou os olhos a uma mutação infame no seu bordo Sul e Leste. Viu, impassível e descuidadamente, o mar Mediterrâneo transformar-se num gigantesco cemitério. 

Todos conhecemos que no período difícil que a UE atravessa (uns mais do que outros) é extremamente difícil absorver e integrar tanta gente. Mas intolerável é o facto deste drama ter despertado medos e receios, nomeadamente, de eventuais infiltrações de terroristas. E mais lastimoso é ainda que os medos levantados pelo brutal ciclo migratório tenham favorecido o crescimento de ideologias de extrema-direita recheadas de um nacionalismo pacóvio e obsoleto, de matriz fascizante. 

Em 2016 os burocratas de Bruxelas e de Frankfurt, com o indispensável agrément de Berlim, continuarão a tentar ‘apurar’ a união bancária e financeira e a decidir novas regras orçamentais, mas ninguém, nenhum País, se erguerá para que exista, por exemplo, uma legislação comum aos 28 sobre o direito de asilo.

Às 24 horas de 31 de Dezembro, quando soarem as festivas badaladas da meia-noite, provavelmente os europeus deveriam descortinar outras tonalidades em tudo semelhantes a um 'toque a finados'… 

O piropo já é crime, na lei_2

Não sou indiferente à violência verbal e às humilhações a que a mulher, mesmo nas sociedades ditas civilizadas, é sujeita.

Assisti, ao longo da vida, aos mais soezes impropérios, com vontade de esbofetear os energúmenos, contra as mulheres, a que não escaparam adolescentes e até crianças.

Sei o que era para uma adolescente do meu tempo de liceu passar em frente de um café, do quartel ou de outro local frequentado por homens. Uma das minhas irmãs, mais nova do que eu 2 anos, nunca saiu de casa ou regressou na minha companhia, para não aturar os piropos pesados durante o trajeto que mediava de casa ao liceu. E a mágoa que tenho da companhia de que me privei!

Compreendo a revolta das vítimas e o desejo de reparação mas receio as arbitrariedades do julgamento a que ficam sujeitos os comportamentos reprováveis e subjetivos.

Talvez minimize a violência das palavras com conotação sexual, talvez me lembre deste educado monólogo, num país imaginário onde a precariedade do trabalho passou a ser a norma, e sem qualquer ilícito penal:

- «Senhora doutora, já é a segunda vez neste mês que V. Ex.ª me pede para ir buscar o seu filho à creche. Não tenho culpa de que o seu filho só tenha cinco anos, o seu marido a tenha deixado e a sua mãe esteja no hospital.  Pelos 800 euros que lhe pago há muitos trabalhadores para a substituir e vejo-me forçado a não lhe renovar o contrato, que está a terminar.  Lembre-se de que tem mais de quarenta anos».

Para memória presente….

O candidato presidencial Marcelo Rebelo de Sousa considerou na passada segunda-feira que "é um escândalo", em período de crise, gastar-se centenas de milhares de euros numa campanha e defendeu que poderia ter apresentado um orçamento ainda mais baixo. link.

Na campanha para as presidenciais de 2011 o actual Presidente da República – “declarou despesas de € 1.791.576,90 (e receitas exactamente no mesmo valor, até ao cêntimo)"… link.

Marcelo Rebelo de Sousa apoiou a candidatura de Cavaco Silva à presidência e, na altura (2011), não se incomodou, nem se ‘escandalizou’…

Segundo era suposto, em 2011, estaríamos no auge da crise.

Agora, transformou-se em ‘mestre-de-cerimónias’ das presidenciais. Impôs o calendário eleitoral (para depois das Legislativas) porque isso lhe interessava particularmente. E depois, como andou em campanha disfarçada de comentário político durante 10 anos, quer agora colocar um tecto de despesa aos outros legítimos concorrentes ao cargo. 
Mais, quer pelo garrote das despesas impedir os ‘outros’ de fazerem campanha.

Por outro lado, constatamos que a campanha do ‘chico espertismo à presidência' está no começo...

As próximas eleições presidenciais_8

A presença obsessiva de Marcelo Rebelo de Sousa na comunicação social é de tal modo obscena que a informação passou a propaganda e a exposição do candidato a massacre.

Se vier a confirmar-se a vitória de quem se ouvem todas as opiniões sem se escrutinar o eu passado, cumprir-se-á a profecia do falecido Emídio Rangel: «A televisão tem igual eficácia na venda de sabonetes e presidentes da República».

Marcelo Rebelo de Sousa, José Miguel Júdice, Santana Lopes, Manuel Durão Barroso e António Pinto Leite surgiram no início de 1984, organizados, para fazerem regressar ao poder, por via democrática, a velha política, sob o pseudónimo de “Nova Esperança”.

Foram decisivos em dois congressos do PSD, em 1984 [Braga] derrotando Mota Amaral com Mota Pinto e, especialmente, em 1985 [Figueira da Foz], na improvável ascensão à liderança partidária do obscuro salazarista Cavaco Silva, derrotando João Salgueiro.

Marcelo não foi apenas líder do PSD, foi sempre o defensor das posições que são hoje minoritárias na sociedade portuguesa, por mais anestesiada e aturdida que se encontre.

Ninguém confronta Marcelo, o candidato presidencial solicitado a pronunciar-se sobre todos os assuntos, incluindo o S.N.S., onde revela a beata compaixão e cínico desacordo com o desinvestimento do último governo mas em contradição com o seu voto, no PSD, contra a Lei de Bases. Lutou ainda contra a universalidade do SNS, alegando a injustiça do seu caso, que podia e devia pagar a saúde, e tinha direito à gratuitidade. Demagogo!

Ninguém lhe lembra a sua oposição à despenalização da IVG ou ao chumbo do primeiro projeto para a legalizar nos casos de risco de vida de mãe, malformações ou violação.

Este Marcelo humanista, que lava mais branco o passado do que qualquer detergente as nódoas, será o mesmo cujos preconceitos pios condenariam à morte mulheres cuja vida fosse incompatível com a gravidez, e à gestação obrigatória as vítimas de violação e as grávidas de um feto teratogénico?

Este Marcelo, que esteve vários anos a vender a imagem nas televisões e a ser pago, que agora a consolida em todos os canais, sem o remorso judaico-cristão de ver ostracizados os concorrentes diretos, será o mesmo que demagogicamente afirma que as candidaturas não deviam receber donativos particulares?

Este Marcelo, amigo do peito e da hóstia de banqueiros, respeita a identidade partidária que o atual inquilino de Belém, por indigência cívica, não suporta?

Este Marcelo, que foi à Festa do Avante em ecuménico branqueio, será o que denunciou ao padrinho a presença perigosa dos comunistas no Congresso de Aveiro?

Este Marcelo, que aceitou ser presidente da Fundação Casa de Bragança, saberá que o cargo é incompatível com a ética republicana e a presidência da República?

Este histrião pode agradar à populaça mas não serve a democracia.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, dezembro 30, 2015

Piropos, assédios e bullyings…



O piropo tem alguma analogia com a questão do assédio. Popularmente existem termos que congregam alguma da essência destes actos: ‘chatear’ ou ‘azucrinar’ (a mona ou a vida).

Mas tal como o piropo o assédio é um problema frequentemente desfocado da sua plenitude, isto é, no seu largo âmbito.

O foco no ‘assédio sexual’, normalmente um instrumento de perversão e de abusiva dominação nas relações de trabalho, com incursões deambulantes e devastadoras na política e meios artísticos link  e até eclesiásticos, tem ocupado a centralidade do problema e faz esquecer o persistente assédio moral de alguns 'presbíteros da verdade' (p. exº.: Marcelo Rebelo de Sousa) e, ainda, um outro mais vasto e mais caustico - o colectivo.

Seria interessante ver o PSD – que subitamente resolveu dedicar-se a temas ‘fracturantes’ – propor algo sobre o assédio colectivo. Por exemplo, apresentar um projecto-lei para penalizar modelos de intervenção externa, daqueles ditados pelos ‘mercados’, pelos ‘credores’ e quejandos, a que fomos sujeitos durante anos e que não andarão longe de um modelo de assédio colectivo.

De facto, direitos laborais, rendimentos dos pensionistas, de funcionários públicos, etc. foram objecto daquilo a que podemos chamar um continuado assédio, de dimensão colectiva, se não mesmo de ‘bullying’. Na realidade, as sucessivas intervenções de Wolfgang Schäuble acerca de Portugal e da Grécia assemelham-se muito a este quadro.

A posição do PSD é de todo semelhante aquela visão do observador atento da árvore próxima mas (politicamente) apostado em negligenciar a floresta.

O piropo já é crime, na lei – Nova redação do artigo 170.º do Código Penal

O fervor repressivo contra o “Crime de importunação sexual” parece mais uma cruzada contra a má-criação do que a medida dissuasora da violência contra as mulheres, numa sociedade cuja herança misógina assenta nos livros santos herdados da Idade do Bronze.

Assusta-me a promíscua unanimidade da Assembleia da República, a beata harmonia de 7 (sete) partidos com representação parlamentar, a lembrar o júbilo saloio que conduziu Amália e Eusébio ao Panteão.

Não vislumbro na repressão do piropo o mais leve benefício para a educação cívica ou a mínima eficácia na redução de atos de boçalidade, mas temo as cruzadas moralizadoras, hoje contra o piropo, amanhã contra o beijo, depois para o simples olhar.

A sanha persecutória, à semelhança do que se passa nos EUA, é mais uma arma para a destruição de adversários políticos do que para a defesa da mais fracos (mulheres?) e a redução do número de vítimas.

Se começamos a tolerar todas as medidas repressivas, é a liberdade que hipotecamos, é a submissão a fantasmas refletidos na lei, o abrir de portas a novas inquisições. Prefiro ficar sozinho na desconfiança a participar na euforia coletiva da fúria repressiva.  

terça-feira, dezembro 29, 2015

Paulo ou as Portas que, por ora, fechou …

Paulo Portas deixa a cúpula dirigente do CDS/PS após 15 anos de liderança. link

A sua saída da liderança do partido seria uma das 'opções naturais'  (óbvias) após o derrube, em 10.11.2015, no Parlamento, do Governo chefiado por Passos Coelho e de que era vice-primeiro-ministro.

Foi, com a sua atitude, o primeiro político de Direita a mostrar que compreendeu a chegada de um novo ciclo e daí tirou consequências.

Mas com Portas nunca se sabe se saiu, se está emboscado ou se (já) começou a preparar o regresso.

Talvez o mais apropriado seja considerar que submergiu face à cena política em desenvolvimento no País.

Demência da fé

«Estou orgulhosa do meu marido e gabo-lhe tanto o seu mérito, ó se gabo! (...) Eu encorajei o meu marido a aterrorizar o povo francês, que tem tanto sangue nas mãos. Enquanto vocês continuarem a ofender o Islão e os muçulmanos, serão vítimas potenciais, não só os polícias e  os judeus mas o mundo inteiro.»

KAHINA, mulher de Samy Amimour, um dos atacantes ao Bataclan, em Paris)

[Fonte: DN, hoje, página 6]

As próximas eleições presidenciais_7

O azougado e frenético Marcelo

O obreiro da chegada de Cavaco a líder do PPD/PSD, na Figueira da Foz, exaltando-lhe virtudes que não tinha, exultou com a sua entrada no Palácio de S. Bento, como PM, e extasiou-se com a viagem preparada ao ‘mísero professor’, em casa de Ricardo Salgado, para Belém. O velho e rancoroso salazarista é criação sua, pouco polida e ilustrada, algo rudimentar, como convém ao brilho do criador.

Podia ter sido o remorso que o levou a candidatar-se em nome de uma dívida a Portugal mas é de crer que foi a ambição.

Quem acha sublime rezar o terço a nadar no mar, certamente se impôs como penitência o ato de contrição, na Festa do Avante, e a salve-rainha nas urgências do Hospital de S. José, abonando uma novena à Senhora de Fátima pelo ostracismo a que os adversários são votados. E não faltará à missa de requiem pelo Serviço Nacional de Saúde quando os seus sequazes voltarem ao Governo.

Como estrela pop todas as excentricidades lhe são perdoadas, todos os pecados remidos, todo o passado branqueado. Há de andar por aí a rezar o credo, em latim, com a direita dos negócios a persuadir os eleitores de que é chique, é moderno, é a “Nova Esperança”.

segunda-feira, dezembro 28, 2015

E o País a ir de carrinho (*) …

Os portugueses estão confrontados com mais um enigma político.

Donde provem o ‘espírito ganhador’ e, segundo as sondagens, um 'percurso avassalador' da candidatura de Marcel Rebelo de Sousa?

Deixando de lado questões como a ‘geração espontânea’ melhor será recorrer ao escrutínio racional para perceber o fenómeno. Porque, na realidade, trata-se de um fenómeno.

Sendo Marcelo uma personagem política com um percurso como dirigente partidário extremamente sinuoso e relativamente efémero – pouca gente se recordará da ala PPD designada por ‘Nova Esperança’  e da sua posterior passagem como presidente do PSD - de algum lado surgirá a sua presente ‘performance eleitoral’.

No círculo partidário que aparentemente nada terá a ver com a eleição presidencial – e o aparente deveria ser interiorizado pela Esquerda – não existem apoios substantivos apesar da recente rábula divulgada sob a forma de surda ‘recomendação’. No passado, as ‘cartas de recomendação’ eram um adorno dos despedimentos e uma eventual porta para um novo emprego. Agora são a evidência de soluções para as quais não há outra saída. Um embelezamento pacóvio para factos consumados.

Na verdade, a Direita na altura da recomendação ainda formalmente coligada não perde uma oportunidade ‘ganhadora’.

Passos Coelho, classificou-o como um ‘catavento de opiniões erráticaslink – ninguém está isento de ter um acesso de lucidez – e exorcizou-o num recente Congresso partidário (2014). 

Aliás, a sombra de Marcelo como candidato presidencial vem de longe e estaria a ser congeminada há muito tempo. Em Novembro de 2010 (ainda Cavaco não tinha sido reeleito para o 2º. mandato) já estava a posicionar para a actual candidatura link.

Por outro lado, um dos seus actuais 'apoiantes', Paulo Portas, tem em relação ao candidato um antigo parti-pris, que ultrapassa o  domínio gastronómico, engalanado sob a forma de uma putativa sopa ‘vichyssoise’ (que se serve fria) e que não esconde a sua fantasiosa mania de omnipresença e omnisciência habituado (viciado) a opinar sobre tudo e todos e a gerir seletivas entregas de fantasiosas e intriguistas 'informações confidenciais' aos órgãos de comunicação social, de acordo com agendas mundanas.

Mas esta última abencerragem diz respeito à informação e aos circuitos que o actual dirigente do CDS alimentou enquanto jornalista do Independente e teve por fonte Marcelo.
Aliás é interessante (re)ver o vídeo link onde Portas conclui que o actual candidato à Presidência da República 'não é uma pessoa confiável'.

Mas, igualmente, no âmbito da comunicação social inserem-se as questiúnculas entre Marcelo e Pinto Balsemão que passam pelo célebre episódio da inscrição na rubrica Gente da seguinte boutade (que designa como um ‘vaipe’): “O Balsemão é lélé da cucalink.

No campo político – é o que interessa - sua participação no Governo de Pinto Balsemão não revelou (enquanto ministro dos Assuntos Parlamentares) grandes dotes políticos, acabou mal (desertando após a derrota nas Autárquicas) e com grande espalhafato jornalístico (capa do DN) e, finalmente, arrastou na sua manobra o VIII Governo Constitucional.

A par da carreira académica (Faculdade de Direito da UL) e de jornalista (Expresso e Semanário) dedica-se a uma longa, e algumas vezes atribulada, actividade como comentador político em vários órgãos de comunicação social (TSF, TVI e RTP) sob a forma de homílias dominicais em que exerce uma função de 'equilibrista' face aos Governos de Direita e de crítico e de crítico viperino  e manhoso nas outras circunstâncias. Uma duplicidade de comportamento e carácter que nunca conseguiu esconder ou disfarçar.

Presentemente pretende destacar-se de Cavaco Silva mas, na realidade, foi o homem que, com a ‘ala Nova Esperança’, abriu - no célebre Congresso da Figueira da Foz - dentro do PPD/PSD as portas à longa, fastidiosa e mesquinha carreira pública do político de Boliqueime.
Mais tarde estaria no restrito núcleo de proponentes de Cavaco Silva à Presidência em 'serões prandiais e espíritas' (em casa do Espirito Santo). 

Em resumo: Marcelo foi (tem sido) um homem dos 7 ofícios - menino que escreve missivas ao homónimo Caetano, jornalista, homem do aparelho partidário, académico, comentador, conselheiro, insaciável leitor noctívago, criador de factos políticos, conferencista, nadador, etc.

Na realidade, os portugueses estão a ser convocados para eleger um diletante para a Presidência.

Cabe aqui a pergunta de que foi colocada a Richard Nixon em 1960: "Você comprava um carro em segunda mão a este homem?"

Ou outra: quem aceita ser conduzido por este taxi-driver (foto)?

(*) – Alusão a uma cantiga de Zeca Afonso: “O País vai de carrinho…” .

domingo, dezembro 27, 2015

As próximas eleições presidenciais_6


A guerrilha da direita está no terreno. Não bastaram os anos de campanha de Marcelo Rebelo de Sousa, em proveito próprio, nas televisões. Agora, que deixou a profissão de comentador em um só canal, passou a comentador de todos os canais, jornais, emissoras de rádio, folhas paroquiais, lares de infância e da 3.ª idade, sarjetas e afluentes. E, como pode não bastar, em vez de se discutir o carácter e o passado do candidato, publicam-se sondagens para desmoralizar os adversários e quem os apoia.

Só faltam as agências de rating e as opiniões de altos funcionários europeus, os mesmos que atestavam a qualidade da governação do PSD e do CDS. Marcelo deixou de ser o autor de factos políticos, o infeliz criador de Cavaco Silva, o ex-líder do PSD e passou a D. Sebastião do Alcácer Quibir da nossa irreflexão.

O homem é culto, inteligente e sem negócios escuros, um político que não envergonha, que leu Os Lusíadas e não comprou ações da SLN, que não fez permutas obscuras de vivendas nem foi catedrático por decreto, mas assegura a perpetuação do cavaquismo. Um Cavaco culto e urbano não faz um Sampaio da Nóvoa, com as mesmas virtudes e sem os seus defeitos, que não foi líder partidário nem passou férias a expensas de um banqueiro suspeito ou urdiu candidaturas em sua casa.

Esta campanha presidencial é a segunda volta das legislativas, mais lúcida e com menos esqueletos, uma digressão à boleia da comunicação social e de interesses privados, com o coro de vuvuzelas a abafar vozes dissonantes, uma gritaria dos devotos para calar os hereges, uma espécie de União Nacional para assegurar a evolução na continuidade.

Depois do salazarista inculto, provinciano e rancoroso, não se poupam esforços para as novas ‘conversas em família’ numa reedição do marcelismo.

A escolha do próximo PR tem opções melhores, tal como a do atual, que não tinha pior e não se previa tão péssimo.

Cabe aos portugueses evitar o mal que o último inquilino de Belém fez à democracia e ao cargo que ocupou. A direita não deve ganhar nas presidenciais a derrota averbada nas legislativas. Portugal merece melhor,  merece outro Sampaio, de Novo.

sábado, dezembro 26, 2015

Uma inaudível, mas repetitiva, ‘cantiga’ neste Natal…

Imagem alusiva ao Club Bilderberg onde se destaca (à direita) Mario Draghi presidente do BCE
 
Os recentes acontecimentos à volta do sector financeiro, melhor seria chamar-lhe ‘escândalos’, determinam que sejam repensados os âmbitos e as dimensões da crise despoletada há 7/8 anos (2007/2008) e que – como verificamos no dia-a-dia - continua a manifestar-se como num abalo telúrico por periódicas réplicas um pouco por todo o lado. Precisamos de encontrar o fio à meada. Para já há manifestos e sistémicos sinais de fadiga e esta será a grande via de contaminação para inevitáveis e cada vez mais anunciadas tréplicas.

É difícil separar (isolar) as situações nacionais quando, a partir da queda do muro de Berlim, se enveredou alegre e descuidadamente para um Mundo globalizado.

E o problema começa com a pegada cada vez mais impressiva da existência uma concertação mundial (um ‘governo sombra mundial’ para uma instituir uma 'nova ordem'), nunca explicitamente divulgada ou escrutinada, onde se sentam à mesa os que congeminam e impõem decisões estratégicas (aplicáveis à posteriori), isto é, os poderosos ('donos disto tudo') ou os seus fiéis serventuários, sejam representantes institucionais (dirigentes nacionais ou transnacionais) como é o G 7 ou, ainda, de ocultas personalidades como no Club Bilderberg.

Existem quanto a este club evidências (e não simples coincidências) que são preocupantes. António Guterres, Durão Barroso e José Sócrates foram convidados deste club antes de assumirem funções no topo da governação nacional.

Será tão difícil arranjar uma correlação entre estes convites e a posterior ocupação de responsabilidades políticas como,  em jeito de contraditório, descartar qualquer ligação entre estes factos. Embora este dilema não constitua uma 'dúvida metódica' do tipo cartesiano esta é - sempre foi ao longo das últimas décadas - uma questão permanente, pertinente e cada vez mais presente link.

É óbvio que ocorrem, aqui e acolá, algumas inconformidades porque a dita elite (política, financeira e económica), que vai reunindo anualmente pela Europa, não pode antever todos os cenários. Um desses exemplos terá sido o convite a António José Seguro. Recuando um pouco mais verificamos que Manuela Ferreira Leite foi outra das convidadas que não vingou. 

António Costa também esteve presente numa reunião realizada em 2008 acompanhado por Rui Rio, provavelmente também duas premonições antecipadas e durante algum tempo frustradas. Uma preciosa antevisão do anfitrião português residente no Club de Bilderberg, o Dr. Pinto Balsemão.

É fastidioso enumerar o rol dos convidados e tentar encaixá-los nas evoluções e mutações políticas ocorridas em todo o Mundo e, também, no nosso País. 

Tudo isto mostra que não estamos entregues à nossa sorte e o que nos acontece não é fruto do mero acaso. O que não sendo uma grande consolação sempre nos vai abrindo a compreensão para o que se passa connosco ou à nossa volta.

Reuniões secretas (e conspiratórias) para a governação de um Mundo que se quer democrático e transparente são excrescências e um insulto à limpidez. 
Como os portugueses foram convocados para pagar uma nova tranche à banca para ‘salvaguardar (salvar) o sistema financeiro’ o mínimo exigível seria que se jogasse limpo, 'limpinho' (como diria um palavroso treinador de futebol). 
Tal parece não estar efectivamente a acontecer. Uma obscura cortina de secretismo continua a envolver-nos.

Passos Coelho: o efabulado…

É tempo de deixar António Costa governar…” disse Passos Coelho numa peregrina mensagem ao País, como líder do principal partido da Oposição link. Como se tivesse nas suas mãos ou, ao seu alcance, fazer outra coisa…

A crise política ocorrida em Portugal, em 2011, que a Direita conseguiu transformar em golpada permitindo-lhe assumir a governação do País, depois de uma campanha eleitoral carregada de promessas, logo rasgadas, e [esta Direita] uma vez chegada ao Poder iniciou a imposição de políticas ultra conservadoras (neoliberais) geradoras de um selvático empobrecimento, desemprego e assentes em permanentes transferências dos contribuintes para os ‘mercados financeiros’, deixou marcas (políticas e civilizacionais) e não é repetível.
 
A actual oposição está emparedada e confinada ao protesto vazio e a espúrias ‘justificações’, por mais ameaças que faça. Quando surgirem desencontros no seio da maioria que apoia o actual Governo – e tal situação é bem possível - Passos Coelho sabe que essas situações, decorrentes essencialmente do terreno armadilhado que o anterior Governo criou, ocultou e deixou, jamais lhe darão a possibilidade de derrubar o executivo, na Assembleia da República, com uma moção de censura. Esta é uma das 'coisas' que está escrita nas posições conjuntas do BE, PCP e PEV assinadas entre estes partidos e o PS.

O recente desalinhamento ocorrido quanto ao ‘problema BANIF’ mostrou que se existem divergências entre a maioria parlamentar que sustenta o Governo, directamente relacionadas com a profunda indignação que paira sobre o putativo  ‘resgate’ do sistema financeiro e, de igual modo, evidenciou que o líder da oposição acabou por ficar irremediavelmente acorrentado às suas culpas e erros e encurralado nas contradições que desenvolveu (e aplicou) durante mais de 4 anos. 

E, desde já, isto é, mais cedo do que o esperado, a pretensa solidez de postura (raivosa) em relação a um novo Governo, apoiado pela Esquerda, mostrou entre os dois partidos de Direita as primeiras fissuras que colocam em causa uma hipotética e precária ‘unidade oposicionista’.

Portanto, basta de tanta efabulação.

sexta-feira, dezembro 25, 2015

Portugal às avessas


Quando um governo oculta durante anos, sem resolver, o caso Banif, mas vende, depois de demitido, a TAP, não é apenas a honra desse governo que fica em causa, é também a de quem devia zelar pela República e compromete o futuro da democracia.

A professora de aldeia – O Cume e a sobrevivência (Crónica)

Quando a jovem professora de 28 anos chegou ao Cume, em outubro de 1947, depois da permuta com uma colega, paga a peso de ouro, com a ajuda dos pais e sogros, já levava os dois primeiros filhos.

Regressara ao distrito de origem, depois de errar por Ceca e Meca, vinda do Marquinho, na freguesia de Santiago da Guarda, concelho de Ansião, onde durante 4 anos lecionara numa escola com mais de 70 alunos repartidos pelas quatro classes do ensino primário. Abalou para lá a D. Nazaré aconchegada com os 8 contos de réis da permuta.

Foi difícil arranjar onde viver depois de breve trânsito por uma casa de que o dono veio a precisar. Arrendou outra, ao Sr. António Bernardo, minúscula, com janelas onde foi demorada a substituição de vidros partidos. Tinha por baixo a corte de terra batida onde, sobre a palha, se vazavam os penicos e, no curral que separava o portão das escaleiras da habitação, o galinheiro e o cortelho.

A estudante, que iniciou na Universidade do Porto um curso que as duas únicas alunas deixaram, adaptou-se a condições mais precárias do que as dos pais, na Miuzela do Coa.

A situação agravou-se quando ficou grávida do terceiro filho, uma segunda menina, sem poder albergar, em tão acanhado espaço, três filhos, a criadita e, nos fins de semana e no mês de licença, o marido, funcionário de finanças na Guarda, onde, de segunda a sexta-feira era hóspede da D. Bernardina, na Pensão Madeira.

Na aflição, o marido decidiu construir uma casa de raiz. A Junta de Freguesia cedeu-lhe o terreno, isto é, barrocos junto ao largo do mercado, onde a breve prazo vinte contos de réis do pinhal que o pai lhe dera e, mais tarde, o empréstimo do Montepio Egitaniense, lograram erguer paredes e pôr o telhado à casa, logo ocupada, e que progrediu à medida das posses do casal. Foi ali que a menina nasceu aparada pela Ti Ismelindra, corruptela de Ermelinda que a própria ignorava ser. Ainda seria de parteira do último filho, surgido nove anos depois.

O Sr. José Lúcio, de Carpinteiro, cujo ofício coincidia com o topónimo, fez as obras que ajustou. Ia à segunda-feira, bem cedo, e abalava sábado à tarde, para ver a família, trazer o farnel e preparar as ferramentas. Trabalhava de sol a sol para mais rapidamente ganhar a quantia do ajuste. Durante algum tempo trouxe na bicicleta um aprendiz para o ajudar e, mesmo assim, levou mais de 1ano a concluir a obra cujos acabamentos nunca foram previstos ou executados por serem um luxo escusado e dispendioso.

O Lecas exerceu ali o ofício de trolha durante muitos meses. No amplo logradouro, depois de erguer, rebocar e caiar paredes de tijolos que separaram as divisões da casa, construiu, dentro dos muros, a latrina, o cabanal, o cortelho, o galinheiro, o pombal e a corte da cabra. Os pedreiros, erguidas as paredes, tinham sido dispensados. Bastava um servente para ajudar o artista.

De aldeias próximas, gratos ao funcionário de finanças pelos conselhos sobre a décima ou partilhas, chegaram lavradores, com carros de bois, para acarretarem areia, pedras e barro, sem aceitarem o preço da jeira.

Não serve a literatura a descrição da casa, rés-do-chão e primeiro andar com forro, e a dos anexos, mas retrata a vida e as vidas ali vividas. Era um palácio, comparada com as outras casas da aldeia, geralmente de telha vã, sem reboco, com a corte do vivo por baixo ou dentro do curral, com raras janelas e algum postigo. Os pais dormiam em enxergas de palha, no chão ou sobre catres, e as crianças deitavam-se umas para baixo outras para cima, a aproveitar o calor e o espaço em divisões separadas por lençóis. O fumo saía pelos telhados, tanto mais espesso e negro quanto mais verde e molhada a lenha. Na lareira guardavam-se brasas cobertas de cinza para, na manhã seguinte, atear o fogo sem precisão de ir pedir lume à vizinha e voltar com brasas nas pontas dobradas da gesta negral.

Voltemos à casa da professora. O porco criava-se à pia até à matança que acontecia nas férias do Natal. O enchido já pingava do fumeiro quando se iniciava o segundo período letivo.

No curral, logo que a professora entrava em casa, galinhas, perus, marrecos e galinhas da Índia, corriam, vindos da rua, a disputar o milho, o centeio e os restos de comida. No inverno, sobretudo em dias de neve, quando escasseavam as ervas, sementes e insetos, a ração aumentava. As pombas comiam sobre o muro que cercava os anexos e, no quintal, só as pias de água eram comuns.

A pequena horta comprada ao lado da casa produzia legumes. O estrume das galinhas, pombas, cabra e porco bastava para adubar a terra. Alfaces, cenouras, couves, feijão frade, tomates, cebolas, feijão verde e de estaca, alhos, nabos e abóboras abundavam na época própria. As meruges e os agriões bordejavam os regatos e bastava apanhá-los tal como os cogumelos, míscaros e tortulhos, depois de noites húmidas, nos dias de outono, por entre pinheiros e carvalhos.

Em casa, ao lusco-fusco, acendiam-se os candeeiros a petróleo, um espanto de claridade para quem só aspirava à candeia de azeite. Penoso era acarretar a água da fonte, a única nascente que alimentava as necessidades da aldeia. No inverno doíam as mãos a pegar nos regadores e baldes que nunca mais enchiam as panelas e a caldeira de cobre onde, depois de aquecida, era levada para a banheira de zinco, sucessivamente esvaziada para outro banho. E a lenha que se gastava! O banho semanal era uma exótica bizarria da Sr.ª professora para uma população que lhe atribuía malefícios para o corpo e, sobretudo, para a alma, jamais imaginando que pudesse alguma vez converter-se em hábito diário.

Os pratos partidos, juntados os cacos, esperavam os gatos com que o amola-tesouras os devolveria à mesa e os tachos furados regressavam à trempe com pingos de solda. Até do caldeiro da vianda do porco, depois de queimado, se fazia um assador de castanhas.

O pão, as mercearias e a carne de vaca, assim como o polvo seco do Natal, o azeite ou o petróleo, vinham no fim de semana trazidos pelo marido da professora que os filhos iam esperar ao apeadeiro do comboio em efusiva alegria.

O pão de trigo era um luxo na aldeia onde o forno comunitário era desamuado uma vez por mês, aguardando alguns dias o pão da última fornada porque tenro e estaladiço não surdia. As folhas de couve e um local seco logravam manter por mais de um mês o pão de centeio, o único que era cozido na aldeia. O trigo não se adaptava à aridez dos solos.

O sal, o sol, o unto, o azeite, o açúcar e o fumo conservavam os alimentos. No sal jazia, para todo o ano, parte significativa do porco, cuja matança era uma festa e ainda se lhe juntavam pés, orelhas e pás de outros porcos, arrematados nas festas pias, pagamento de promessas de paroquianos ao santo da devoção que os livrara da moléstia. O sol secava os figos e as vagens, assegurando a desidratação notável longevidade. No pote de azeite ficavam os chouriços e no unto os lombos. A marmelada, a ginjada, a geleia e o doce de abóbora, com o ponto apurado, duravam o ano inteiro. No vinagre curtiam-se pimentos e cenouras e às azeitonas bastava o sal e a mudança de água.

Não faltavam galinhas degoladas quando as pombas deixavam de criar ou era preciso variar as ementas. O pombal fornecia centenas de borrachos por ano e a carne era uma delícia, assada, guisada ou cozida, a acompanhar a massa, o arroz , as batatas ou o pão.

A cabra Becas, que era mocha, comia a erva da beira dos caminhos e era regularmente mudada de sítio à medida que a consumia. Os filhos mais velhos disputavam o pastoreio e sabiam procurar os melhores sítios públicos para a prender. Soltou-se algumas vezes e teve direito a coleira com chocalho para facilmente ser localizada. Ó Becas!, e a mocha logo se denunciava pelo tilintar do badalo.

Havia competição dos filhos para mugir a Becas cujo leite era abundante e delicioso, salvo na primavera quando a ingestão de maias das gestas negrais lhe transmitia sabor amargo. Não faltava o leite e, nos períodos de maior abundância, ainda sobrava para os queijinhos e requeijões que a professora e mãe se esmerava a fazer com rara satisfação. Até das natas acumuladas, os filhos embirravam com os farfalhos no leite, surgiam pequenos rolos de manteiga embrulhados em papel vegetal.

Os filhos só muitos anos depois tomariam consciência da determinação da mulher que, sendo uma professora de exceção, conseguiu criá-los felizes e sem fome em tempos de miséria. Não imaginaram ser diferentes dos outros meninos e foram iguais aos filhos de outras professoras que, com ordenados miseráveis, viveram no tempo do racionamento que perdurou depois da guerra de 1939/45.

Jornal do Fundão – 24_12_2015

Algures, na Palestina

Erro de diagnóstico


O nascimento de pessoa incerta, em data errada e local improvável deu origem a uma seita judaica de sucesso.

quinta-feira, dezembro 24, 2015

Aníbal e um 'elefante natalício'...



O Governo apresentou cumprimentos de Boas Festas ao Presidente da República. Trata-se de uma cerimónia protocolar e tradicional sem qualquer outro significado
.
Aliás, num estado laico, como é o nosso, assume de duvidosa pertinência o desenrolar destes floreados, salamaleques e rodriguinhos imbuídos dos resquícios de filosofia cristã ‘pré-vestfália’.

O actual (ainda) Presidente da República, em final de mandato, aproveitou a oportunidade para lançar mais umas farpas ao Governo. Tudo o que vem à rede é peixe (será a nova filosofia cavaquista).

Mas o caricato, e simultaneamente mesquinho, terá sido a ‘parte gaga’ da sua alocução aos membros do Governo presentes na cerimónia. Ao anunciar que resolveu manter a ‘boa tradição’ deixou na sombra todos os equívocos para expor toda a sua pequenez (política). Na verdade, as tradições valem ('serão 'boas') enquanto possam ser colonizadas por ocultos (piedosos) desígnios políticos.

Disse o PR: “Eu considero que é uma boa tradição da nossa democracia e por isso decidi mantê-la, independentemente do Governo em funções"  link.
(o sublinhado é nosso)

De facto, será que passou pela cabeça deste transitório inquilino de Belém quebrar a tradição só porque - como tem revelado amiúde - 'não gosta' do Governo em funções?

O homem carece de postura institucional para o cargo – isso é um dado adquirido pelos portugueses - mas o “…independentemente do Governo em funções” extravasa toda a decência democrática e afunda-se na mais abjecta tacanhez e mediocridade. 

Além do mais, revela uma confrangedora falta de decoro cívico.

A vilanagem quando revelada na praça pública é, simplesmente, nauseabunda. O melhor é passar à frente e devorar umas rabanadas... Deixemos o 'bolo-rei' para este senhor... mastigar.
 

Felizes festividades para tod@s @s leitores e amig@s

Car@s amig@s e leitores:

As minhas convicções filosóficas não se coadunam com a liturgia da época mas as memórias e a cultura são comuns. Agradeço, pois, os votos de 'santo Natal' já recebidos e, por antecipação, os que vierem, apesar de ter exonerado a santidade há sessenta anos sem indulgências plenas capazes de a devolverem.

Felizes festividades neste solstício de inverno, ontem ocorrido, e cujas manifestações se prolongam pelo ano que há de vir.

Saudações republicanas, laicas e democráticas.


Adriano Moreira, o CDS e o Conselho de Estado

Esta direita está a reescrever a História da democracia e, na pressa, tropeça nos próprios esqueletos. A grande golpada foi a tentativa de festejar este ano, pela primeira vez, o 25 de novembro, ao arrepio dos atores, como se tivesse intervindo no processo cuja cadeia de comando começou em Costa Gomes, sucedido por Vasco Lourenço, Ramalho Eanes e Jaime Neves, os operacionais,  sendo o “grupo dos 9” ideólogo e responsável político.

Esta direita, na sua ingratidão e raiva, já esqueceu o ódio que devotou a Melo Antunes e Vítor Alves bem como aos sobreviventes do «Grupo dos 9», democratas e patriotas.

Agora é a eleição de Adriano Moreira para o Conselho de Estado, modelo de democrata e patriota, segundo o proponente e autor dos epítetos, Paulo Portas. A idade do ancião não exige o apagamento do passado, desencardido pela escolha do PSD & CDS.

Adriano Moreira que, em 2009, considerou Salazar o maior estadista do século XX, foi seu secretário de Estado e ministro do Ultramar. A idade e a inteligência levaram-no a conformar-se com a democracia mas foi ele que, como Ministro do Ultramar,  nomeou, no início da guerra colonial, Venâncio Deslandes governador-geral e comandante-chefe das Forças Armadas em Angola e que o demitiria na sequência de um discurso ambíguo cujas explicações não o convenceram ou não lhe foram dadas.

Adriano Moreira foi responsável pela maior violência e, quiçá, pela utilização de meios condenáveis na repressão com que o exército de ocupação respondeu à crueza dos atos terroristas, injustos e gratuitos, com que nacionalistas angolanos iniciaram a guerra de libertação de Angola.

Quem louva Adriano Moreira silencia que foi presidente do CDS e se manteve militante na expulsão da Internacional Democrata Cristã, por ser antieuropeísta e duvidosamente democrático.

Adriano Moreira (AM) foi, é e será sempre o reacionário que a democracia reabilitou. Concedeu-lhe comendas, o cume da carreira académica e cargos do Estado (deputado, vice-presidente da AR). Foi o ministro fascista que reativou o Campo do Tarrafal em 1961, Campo de Trabalho do Chão Bom, para prisioneiros oriundos das colónias. Ali sofreram a tortura e o degredo numerosos patriotas dos futuros PALOPs, incluindo o escritor luso-angolano, Luandino Vieira, nascido em Vila Nova de Ourém. Em  21 de maio de 1965, achando-se Luandino aí preso, há quatro anos, a Sociedade Portuguesa de Escritores atribuiu-lhe o Grande Prémio de Novela pela sua obra Luuanda. Quem tem memória sabe como a Pide agrediu os membros do júri e o regime suspendeu, durante meses, o Jornal do Fundão por se recusar a chamar-lhe terrorista, ao noticiar o prémio.

Continua convencido de que o frio torcionário, Salazar, foi o maior estadista do século XX, tal como Paulo Portas ou Cavaco Silva o julgam democrata. À sua imagem.

Adriano Moreira é o Conselheiro de Estado do agrado desta direita e, quiçá, do ainda PR mas jamais será uma referência ética, democrática ou patriótica. É apenas o fascista inteligente, culto e longevo de um país sem memória nem vergonha.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Os amigos não se esquecem

Se a campanha nos correr bem como a do Cavaco, a partir do próximo ano serei eu a retribuir-te as férias.

Como era para prejudicar o PS, segundo afirmou...


terça-feira, dezembro 22, 2015

DN, hoje


Cavaco Silva e a governação ideológica

O velho salazarista, que não conseguiu impedir a formação do atual Governo, voltou a ser «mestre da banalidade», como o definiu o notável escritor e glória das nossas letras, José Saramago. Apenas o ódio e o ressentimento lhe toldam a clarividência.

Perante a herança funesta do governo PSD/CDS e a delinquência bancária dos amigos, que aí se repoltrearam à solta, afirmou que a “governação ideológica é sempre derrotada pela realidade”, como se em democracia tivesse havido algum governo mais ideológico do que o que desejou perpetuar e torpeza maior do que a ocultação da situação do país.

Nem uma palavra acerca do alerta da comissária europeia da concorrência sobre o caso Banif e a necessidade de lhe encontrar uma solução…em 2014, nem uma palavra para o casal Roque, para Joe Berardo, para a UNITA, para o Governo Autónomo da Madeira ou para o chairman Luís Amado, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros do PS que está nos negócios privados à sombra do PSD e foi vedeta do combate contra a formação do atual Governo.

Hoje, com a ex-ministra Maria Luís, a culpar o governador do Banco de Portugal e este a culpar o seu governo, com o CDS a afastar-se do PSD arremessando-lhe o governador que ambos reconduziram, pela primeira vez sem auscultação da oposição, fica claro que a fatura herdada é uma herança negativa perpétua.

Só a desfaçatez dos culpados é maior do que o desespero do país perante a impunidade de que gozam os algozes.

segunda-feira, dezembro 21, 2015

Curiosidades_21_12_2015


1 – Marisa Matias diz que Presidente da República ajudou anterior Governo a encobrir a situação do Banif para que a "bomba-relógio" explodisse já nas mãos do novo executivo".

2 – A Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo explodiu no peito de Alberto João Jardim, no mesmo dia. Foi mera coincidência de um PR que não acerta com as condecorações.

BANIF

Mais este desastre a juntar à trágica herança. Ignorava-se a sua dimensão e a ocultação deliberada do governo de Passos, Cavaco & Portas, quer aos portugueses quer à União Europeia.

Percebe-se agora melhor a aflição com que saíram do governo e o medo do julgamento dos portugueses. Para já, seremos todos nós a pagar a política de mentira e dissimulação de um governo incapaz, que exonerou a ética ao serviço da propaganda.

Espera-se que, consumada mais esta catástrofe, Cavaco se explique agora do silêncio estratégico que invocou.

Apostila - Um vídeo que pode lançar luz sobre a história do Banif.

domingo, dezembro 20, 2015

Eleições em Espanha: PP / Problemas e Pendências…

As eleições espanholas independentemente dos resultados que se verificarem - neste momento ainda desconhecidos - deverão induzir profundas alterações políticas imediatas na governação (segundo as mais recentes sondagens), mas o seu alcance poderá ser muito lato e atingir o próprio regime.

A fórmula de reino unitário chefiado pela família Bourbon mostra-se, cada vez mais, como sendo um modelo à beira da completa exaustão. 

A versão autonómica adoptada após o fim do franquismo muito embora promova uma larga descentralização (mais profunda da que se verifica por exemplo na República Federal Alemã) continua a revelar múltiplos problemas regionais e provinciais que ganharam acuidade com a crise económica e financeira. 

Uma outra versão, assente no modelo federado, parece, à primeira vista, promover melhores soluções integradoras entre os cidadãos e os territórios. Os seus adeptos – entre os quais o PSOE - estão convictos de que a intensa tensão política entre as regiões e o poder central poderão beneficiar da existência de um quadro federal e, para além disso, o modelo e o ritmo do desenvolvimento poderá passar, também, por aí. 

Todavia, os partidos emergentes (Podemos e Ciudadanos) nas eleições de hoje, tem posições diferentes (e divergentes) perante a agudização da crise catalã pelo que a solução do problema 'das múltiplas Espanhas' embora urgente e necessária não se afigura fácil, nem consensual.

A manta de retalhos que é hoje a Espanha passa pela existência de 17 autonomias, ou regiões autonómicas, gera atritos e pulsões políticas e também sabemos que, muitas delas, nasceram e afirmaram-se com o fim do franquismo. Este facto não é despiciendo. Aparecem porque emanam de povos que sempre tiveram consciência de serem nações (facto que o franquismo reprimiu com violência e gerou sentimentos secessionistas e independentistas) e que foram, pela impiedosa elite falangista, despojadas de criar e desenvolver qualquer organização política e administrativa própria e de proximidade que traduzisse a realidade identitária que lhe está subjacente. 

O franquismo foi, por assim dizer, no século XX, o guardião da ‘sagrada reunião’ nascida sob a batuta medieval (Reis Católicos), num contexto de ‘cruzada’. 

Não é preciso muito mais para compreender a total desadequação do actual modelo de soberania espanhola. 

Os dirigentes e ‘apoiantes' do Partido Popular – filhotes do franquismo – que, neste momento, estão no poder sediado em Madrid, têm sido, no seu espaço político natural (conservador), os continuadores desta saga medieva, absolutamente desfasada da actual realidade. 

Na verdade, a Espanha (durante muito tempo designada no plural como as Hispanias) poderá estar à beira de uma profunda mudança política. 

E essa mudança poderá passar pelo fim de uma monarquia imposta pelo franquismo e o nascimento de um Estado Federado, com capacidade agregadora, cuja representação plural e territorial seria feita, democraticamente, através de um Senado (Câmara que o franquismo reactivou mas esvaziou de conteúdo). 

E o representante legítimo dessa Federação de Povos Hispânicos (uma designação possível para o actual reino) seria ‘naturalmente’ o presidente desse Senado. 

A grande questão, mesmo assim, continuaria por resolver. De facto, fica por esclarecer se qualquer um dos Estados Federados poderia abandonar da Federação se, democraticamente, o decidisse fazer. 

Interessaria, também, esclarecer se o ‘direito à autodeterminação’ deve ser restritamente aplicado em função de obsoletos contextos coloniais ou se tem um âmbito mais largo (universal) e deve aplicar-se em todas as situações que possam contrariar e ‘ofender’ os legítimos sentimentos e anseios de emancipação de Estados-Nações.

Multiculturalismo...


E assim vai a campanha eleitoral...


sábado, dezembro 19, 2015

Madre Teresa de Calcutá a caminho da canonização

A a notícia de que o papa Francisco reconheceu a cura de um homem que sofria de tumores cerebrais provocou imenso júbilo nos devotos do costume.

Soube-se ontem, 18 de Dezembro do Ano da Graça de 2015, que o homem curado por Madre Teresa é um brasileiro que esteve em fase terminal e recuperou, em 2008, na diocese de Santos, no litoral de São Paulo.

Segundo as notícias, «Parentes rezaram e pediram ajuda à Madre Tereza, e o homem recuperou, deixando os médicos sem explicações». Não se percebeu se foi o homem que abandonou os médicos, sem explicações, ou estes que não as souberam dar mas, para o milagre, é igual.

É mais um milagre na área clínica, vocação dos defuntos católicos que jamais entram no campo da economia, da física quântica ou da nanotecnologia.

Madre Teresa, adversária do preservativo e fervorosa auxiliar do Papa João Paulo II na teologia do látex, sabia que é na dor que os pecadores encontram a redenção e, por isso, contrariava o uso de analgésicos em doentes terminais.

Em recente defunção (F. 1997), aprovada nas provas para ‘beata’, em 2003, defenderá a canonização em 4 de setembro de 2016, com tese já aceite e dispensada de comparência, 19 anos após a sua morte.

A beatificação tinha sido defendida com um milagre reconhecido em 2002, adjudicado a madre Teresa, cura de uma mulher de 30 anos, de Bangladesh, Monika Besra, que sofria de um tumor abdominal.

Apesar do êxito da defunta na área da oncologia, em dois continentes diferentes, não se esperam outros milagres. Os defuntos depois de obrarem os milagres obrigatórios para a canonização, dão-se ao eterno ócio e fazem como os catedráticos que, após a homologação do concurso, nunca mais apresentam qualquer trabalho.

O Deus de Madre Teresa podia ter evitado ao miraculado os vários tumores cerebrais mas impediria que madre Teresa, a pedido, lhos removesse em sepulcral telecirurgia.

sexta-feira, dezembro 18, 2015

Da série «Até fui eu que tive a ideia»...

Tal como já tinha sucedido quando evitou que a Grécia saísse da UE.

«O Partido Popular Europeu reagiu com moderação, como aliás sugeri que fizessem [sic].»

(Pedro Passos Coelho, em Bruxelas, referindo-se à posição do PPE em relação ao Governo português)

A frase

«É preciso medir bem as palavras quando se fala do sistema bancário, porque o seu funcionamento é decisivo para o funcionamento da economia e consequentemente para o crescimento do emprego e da nossa produção.»

(Cavaco Silva, sobre o caso Banif) – in DN, hoje, pág. 8

Nota: A verdade irrefutável foi proferida pelo mais improvável dos analistas e aquele que mais vezes se enganou sobre os bancos, salvo na compra e venda de ações da SLN. Os portugueses recordam-se, alguns mais amargamente, das suas declarações sobre a solidez do BES e do posterior apoio a Passos Coelho de que os contribuintes não seriam prejudicados. Mas o que deveras surpreende é a prudência, por quem reiteradamente ameaçou com a reação dos ‘mercados’, dos ‘juros’, da ‘Nato’ e das ‘agência de rating’ perante o apoio do PCP e do BE à formação do atual governo, na aparente (?) incitação à retaliação contra Portugal.

É preciso topete!

Silêncios e ruídos de um PR em fase terminal


Não se condene Cavaco Silva por ter prevenido que os portugueses não podiam suportar mais sacrifícios, quando ainda não tinham realmente começado, mas espanta que, após o ruído de então, se tenha remetido ao monástico silêncio, só quebrado para defender o indefensável e elogiar os que mereciam mais pesada derrota eleitoral.

Parece que apenas queria substituir o governo por outro do seu agrado, à semelhança do tocante esforço que fez para evitar o atual governo, com apoio parlamentar maioritário.

Surpreende que quem já foi economista e ainda se reclama entendido na matéria não se tenha pronunciado sobre os problemas dos bancos onde ganhou dinheiro e amigos seus, do peito e da hóstia, perderam a honra própria e o dinheiro dos outros. Aliás, quando se pronunciou, fê-lo da pior maneira, anunciando que o BES tinha ativos que o punham ao abrigo do pior dos cenários.

Os portugueses devem interrogar-se para que lhe serviu a legião de assessores e outros especialistas, sem que o avisassem da ocultação das desgraças que o seu governo legou nas mais diversas áreas nem o prevenissem contra as frequentes declarações infelizes.

Como foi possível ‘nacionalizar’ silenciosamente o Banif, garantir a ausência de riscos para os contribuintes com o Novo Banco, reconduzir à pressa o governador do Banco de Portugal sem ouvir a oposição, adiar a publicação dos maus indicadores económicos antes das eleições legislativas, sem um alerta vindo de Belém?

O julgamento do comportamento presidencial deve fazer-se agora porque rapidamente será esquecido depois abandonar o Palácio que serviu de agência de propaganda da pior direita que chegou ao poder em democracia. O encobrimento da incompetência do seu Governo não foi por desconhecimento, foi deliberada cumplicidade.

Ontem, o dueto presidencial foi à RTP debitar uma qualquer mensagem. Foi a última presença natalícia a dois. Basta.

quinta-feira, dezembro 17, 2015

A República e as primeiras-damas

Portugal deve banir os (maus) exemplos vindos da Europa ou dos Estados Unidos, quiçá por reminiscências monárquicas, em que o presidente da República se faz acompanhar da consorte, como um sultão com o seu harém, em visitas de Estado.

As primeiras-damas são um anacronismo que diminui a mulher e as torna adereços da democracia onde seria inaceitável que a discriminação de género lhes negasse o direito de ocupar o cargo.

O lugar de primeira-dama representa um cargo sem funções, um mero estado civil, que a República deve extinguir. A tradição seria grotesca se a igualdade de género fosse já, como devia, uma realidade de facto e não apenas de direito.

A notícia de que as mulheres de Sampaio da Nóvoa ou Marcelo Rebelo de Sousa, assim como o homem de Maria de Belém Roseira, não preencherão as funções ocupadas pelas mulheres dos últimos PRs, é uma excelente notícia para quem repudia direitos conjugais na representação do Estado ainda que, em um dos casos, seja por hipocrisia beata.

Não se pode confundir a coabitação no Palácio de Belém da família do, ou da, PR com a constante presença conjugal nas cerimónias públicas e, muito menos, como a matriarca cessante fazia das viagens do PR, excursões familiares com os netinhos.

A inevitável eleição de um dos três candidatos citados trará um PR incomparavelmente melhor do que o atual, o Palácio de Belém será melhor frequentado e a República mais prestigiada. A ausência de uma primeira-dama ou de um primeiro-cavalheiro, de género igual ou diferente do do candidato eleito, é um avanço institucional do órgão unipessoal.

Não é a primeira vez que Portugal se coloca na vanguarda da civilização e constitui um exemplo para outros países. Não sendo neutra a escolha que o eleitorado venha a fazer, há benefícios enormes na substituição presidencial, a chegada de alguém com a cultura, sensibilidade e sentido de Estado, que o cargo exige, e a abolição da prótese conjugal.

Viva a República!

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, dezembro 16, 2015

Silêncios e ruídos de um PR em fase terminal

Não se condene Cavaco Silva por ter prevenido que os portugueses não podiam suportar mais sacrifícios, quando ainda não tinham realmente começado, mas espanta que, após o ruído de então, se tenha remetido ao monástico silêncio, só quebrado para defender o indefensável e elogiar os que mereciam mais pesado julgamento eleitoral.

Parece que apenas queria substituir o governo por outro do seu agrado, à semelhança do tocante esforço que fez para evitar o atual governo, com apoio parlamentar maioritário.

Surpreende que quem já foi economista e ainda se reclama entendido na matéria não se tenha pronunciado sobre os problemas dos bancos onde ganhou dinheiro e amigos seus, do peito e da hóstia, perderam a honra própria e o dinheiro dos outros. Aliás, quando se pronunciou, fê-lo da pior maneira, anunciando que o BES tinha ativos que o punham ao abrigo do pior dos cenários.

Os portugueses devem interrogar-se para que lhe serviu a legião de assessores e outros especialistas sem que o avisassem da ocultação das desgraças que o seu governo deixou nas mais diversas áreas.

Como foi possível ‘nacionalizar’ silenciosamente o Banif, garantir a ausência de riscos para os contribuintes com o Novo Banco, reconduzir à pressa o governador do Banco de Portugal sem ouvir a oposição, atrasar a divulgação dos maus indicadores económicos antes das eleições legislativas sem um alerta vindo de Belém?


O julgamento do comportamento presidencial deve fazer-se agora porque rapidamente será esquecido depois abandonar o Palácio que serviu de agência de propaganda da pior direita que chegou ao poder em democracia. O encobrimento da incompetência do seu Governo não foi por desconhecimento, foi por deliberada cumplicidade.

GRAVÍSSIMAS DECLARAÇÕES DO PRESIDENTE DO SINDICATO DO MINISTÉRIO PÚBLICO SOBRE O CASO SÓCRATES

Na sua entrevista de anteontem na TVI Sócrates criticou asperamente o M.P. pela sua atuação no processo dele. Ontem veio o Presidente do Sindicato do Ministério Público, Dr. António Ventinhas, defender a honra da sua corporação, a sua isenção e imparcialidade.

Porém as suas declarações demonstram exatamente o contrário, pelo menos no que a ele diz respeito. Com efeito, o Dr. Ventinhas deixou sair da boca o seguinte:

"O principal responsável pela existência deste processo tem um nome e esse nome é José Sócrates, porque se não tivesse praticado os factos ilícitos este processo não teria acontecido."

É manifesto que estas declarações violam grosseiramente o princípio constitucionalmente consagrado da presunção de inocência do arguido. Com efeito, Sócrates ainda não foi condenado nem sequer acusado e o Dr. Ventinhas já diz que ele praticou factos ilícitos (isto é, crimes, uma vez que de um processo penal se trata).

Com tais declarações, o Presidente do Sindicato do M.P., em vez de desmentir Sócrates, vem dar-lhe razão, demonstrando que o M.P. ou pelo menos ele, Ventinhas, tem um "parti pris" contra o arguido Sócrates.

Declarações deste género já têm sido feitas por alguns jornalecos e por simples cidadãos, o que não tem grande importância (como diz o povo, "vozes de burro não chegam ao céu"). Mas, vindas de quem vêm, assumem extrema gravidade.

Aguarda-se uma tomada de posição dos associados do sindicato: ou rejeitam as referidas declarações ou então é como se as fizessem suas.

A frase


terça-feira, dezembro 15, 2015

Os casos da justiça e a injustiça


segunda-feira, dezembro 14, 2015

BANIF: mais um imbróglio…

O País está literalmente estupefacto com as notícias sobre o BANIF. Desde os anúncios de uma brutal queda do valor das acções de quase 50% (42,8%) link o que não pode deixar de significar a falência eminente, até notícias sobre a necessidade de (mais) uma rápida intervenção pública link , facto que leva os contribuintes desde já a porem as barbas de molho, passando ainda por planos de venda de afogadilho (até ao final do ano) link existem informações para todos os gostos.

A realidade, que foi camuflada pelas intervenções ditadas pelas instituições europeias, pela necessidade de uma 'saída limpa' e mais recentemente pelo período eleitoral, compeliu o Estado em Janeiro de há três anos a proceder a uma injecção de capital de mais de mil milhões de euros.

Desde então o Estado (principal accionista) decidiu manter-se ''quieto' e 'expectante' e assim continuou mesmo após de há cerca de 1 ano ter começado o incumprimento das devoluções.

Na lógica neoliberal que infesta o sistema financeiro europeu, embora o Estado seja o maior accionista, não pode, na prática, controlar a gestão, limitando-se a uma presença simbólica no conselho de Administração. 

Este foi o sistema dos CoCo’s (contingent conversible bonds) em que os riscos de retorno desse tipo de recapitalização bancária recaem, em última análise, sobre a esfera pública. O 'pudor neoliberal' quis afastar de qualquer maneira e a todo o custo o espectro de uma nacionalização e prosseguiu no eterno louvaminhar das virtudes da gestão privada.

Na calha, percebe-se, estará mais uma ‘resolução’ como no Banco Espírito Santo. O Governo perante um contínuo deteriorar da situação do BANIF não pode limitar-se a dizer que está a ‘acompanhar a situação’ trabalhando a contra-relógio link. Sabemos que, neste momento, estarão em curso várias hipóteses de (re)solução e até de negócio (venda), sem garantias de qualquer sucesso.

Mas também sabemos que esta situação não começou ontem e foi sistematicamente desvalorizada e ocultada. Nomeadamente pela maioria que governou o País e as Finanças públicas até 4 de Outubro. A resolução do imbróglio que o actual Governo herdou passa necessariamente pela informação transparente sobre o que se passou neste Banco desde a intervenção pública e, mais importante, pela comunicação sucinta, clara e acessível a todos os cidadãos e de modo especial aos contribuintes do estado do sistema financeiro português, que entrou em franca e acelerada crise de confiança.

É importante para este Governo fazer a diferença com aqueles que estiveram mais de 4 anos a controlar o sistema e o deixaram num estado caótico. Isto é, os mesmos que foram impiedosos para os portugueses submetendo-os a um feroz ‘ajustamento’ que acabaria por provocar um violento empobrecimento, esqueceram-se de olhar para o sistema financeiro. 

Quanto a bancos nacionais já experimentamos de tudo um pouco: a nacionalização (BPN), a resolução (BES) falta agora o modelo da liquidação. Será esse o destino do BANIF?

Urge esclarecer este imbróglio.

Assepsia republicana

Sejam quais forem as razões, estamos perante uma decisão higiénica. 
As eleições não sufragam casais.

Cavaco e as aldeias históricas


Na pungente digressão, por aldeias prenhes de história e vazias de gente, fez o viajante o elogio da obra que diz ter realizado e da coligação que teimou em manter no Governo. Foi maior a comitiva do que a receção e mais animado o visitante do que os visitados.

No lúgubre encontro com os que restam nessas aldeias não percebeu o visitante a vida que definha no país que ajudou a privatizar e a perder a identidade. Foi uma reunião de espetros, sombras de um país que morre e a assombração da sua derradeira aparição.

Serviu-lhe de consolo o pensamento do mundo rural onde foi. Um e outro mantêm-se no segundo quartel do século ido, quando uns se matavam à sacholada por um rego de água e outros à facada por uma leira de terra, durante as partilhas. Todos abominam a política e os políticos. Isso dos partidos é para ladrões e oportunistas. Quando não é único.

No ocaso das funções, com as luzes do palco a extinguirem-se, ouviu ainda o viandante as palmas rituais dos que insistem em não morrer a quem teme não ter mais vida.

Ainda lhe disseram, bem-vindo ‘insigne visitante’, nas aldeias é sempre insigne quem as visita. Se a viajata se invertesse, e fossem os anciãos de mãos calejadas e pele curtida pelo sol a despedirem-se em Belém, teriam gritado, com ar sofrido de quem se resignou ao abandono, adeus ‘insignificante’.


Excerto de um artigo de opinião

«Oliveira e Costa, com ações a preço de saldo, abriu a Cavaco as portas do BPN. Na hora da desgraça, o silêncio. A Dias Loureiro fê-lo conselheiro de Estado, sem nunca se perceber porquê. Agora, é Rocha Vieira que, volvidos 16 anos sobre o processo de Macau, vai ser agraciado com a Torre e Espada.»

(Manuel Magalhães e Silva in  Correio da Manhã)

Fonte: DN, hoje, pág. 8


domingo, dezembro 13, 2015

A França, o terrorismo e as eleições

O terror está na origem da atração pelo fascismo islâmico e o medo que este induz foi o motor da vitória eleitoral da extrema-direita na primeira volta das eleições regionais. Na segunda volta não desapareceu a preocupação democrática e o fogo que lavra na União Europeia, mas a demência extremista da Frente Nacional foi contida.

Em França, onde a direita é civilizada e urbana, ao contrário da coligação portuguesa, a extrema-direita tem espaço para crescer e ainda está a dois ou três atentados islâmicos da conquista do poder. Urge conter a demência da fé.

O medo que levou os franceses a votar na extrema-direita à primeira volta provocou um  medo maior que fez sair de casa, à segunda, mais eleitores em defesa da República.

Não é motivo de tranquilidade mas os vencedores da Frente Nacional foram arredados do poder regional em França. Salvas as devidas distâncias ideológicas, vivi a angústia de Marine Le Pen e Marion Maréchal-Le Pen com a mesma alegria com que vivi a de Portas, Passos Coelho e Cavaco com a formação do atual governo em Portugal.

Gambia: Um incêndio que alastra…

Jammeh desfilando com o Corão e adornos religiosos em ambas as mãos

O presidente da Gâmbia, Yahya Jammeh, tristemente conhecido por perseguir os homossexuais e pela reintrodução da pena de morte, protagonizou hoje um novo episódio mediático ao ‘transformar’ o seu País num ‘Estado Islâmico’.

As ‘justificações’ para tal proclamação são inconcebíveis. Jammeh afirmou que “…a Gambia não pode dar-se ao luxo de continuar o legado colonial”. link

Esta 'boutade' é proferida num País que acedeu à independência há meio século (1965). Ninguém ignora que muitos dos desmandos dos países africanos têm raízes no passado colonial mas tal facto não justifica tudo e principalmente todos os governantes (pós-coloniais) que por livre arbítrio, convicção política, jogos étnicos, divisões religiosas ou por lastro cultural adoptaram a ditadura como modo e modelo de governação. 

A ‘culpa colonial’ e os ‘pesadelos’ inerentes ao histórico da exploração de uns povos pelos outros (génese do colonialismo) não podem ser um eterno de álibi para branquear as prepotências de hoje.

A Gâmbia, segundo a Constituição em vigor, é definida como um sendo Estado secular. Esta será a uma nítida e visível 'herança colonial' que, passados 50 anos, é ostensivamente ignorada por conveniências ditatoriais.

Uma modificação da lei fundamental não poderá ser adquirida por mera intenção presidencial como foi recordado pelo líder da Oposição, Ousainou Darboe (do Partido da União Democrática), ao actual presidente link, embora o problema não seja a formalidade constitucional que, como sabemos, de nada vale numa ditadura.

É de supor que a declaração do presidente da Gâmbia não seja um alinhamento directo com o Daesh e a sua adesão ao 'califado'. Não sabemos qual o conhecimento - ou a ignorância - que o ditador tem do dramático contexto internacional. A única coisa que temos conhecimento é que se trata de (mais) um fanático crente islâmico. O que não sendo condição suficiente é bem necessária para gerar dislates deste tipo.

Tratar-se-á, isso sim, de alinhar mais um País predominantemente islâmico com a imposição do código da ‘sharia’ o que não sendo inédito no Mundo não deixa de ser, em termos civilizacionais, muito preocupante.  

Jammeh em pleno acto de cura da SIDA
Mas nada nos poderá espantar na boca de um ditador que, depois de um golpe de Estado, governa este país há 21 anos (sem qualquer escrutínio) e teve a ousadia (desplante) de anunciar - há alguns anos - um miraculoso tratamento da SIDA (que infesta o seu País) à base de tratamentos homeopáticos e fitoterápicos link.

Os “Papa Doc´s” não se esgotam nos Duvalier, nem se circunscrevem ao martirizado Haiti. Nascem como cogumelos à sombra das ditaduras que exploram a ignorância.

Cavaco Silva: entre aleivosias e o estertor…

Cavaco Silva continua a lutar pela afirmação e consolidação da sua agenda política pessoal em total consonância com a coligação de direita, hoje, colocada em minoria e atirada para a Oposição.

As declarações de ontem na peregrinação que resolveu efectuar pelas ‘aldeias históricas de Portugal’ (Linhares da Beira, Almeida, Belmonte, Castelo Mendo, Castelo Novo, Castelo Rodrigo, Idanha-a-Velha, Marialva, Monsanto, Piódão, Sortelha e Trancoso) integrando um dos seus oblíquos ‘roteiros’, neste caso, para ‘celebrar’ uma longínqua decisão (há 20 anos), oriunda sua passagem pelo Governo (que sempre se esquivou a uma avaliação), são uma prova desse despudorado desígnio.

O PR disse nesta acção interventiva no interior: “Agora, como nos próximos anos, não tenho a mínima dúvida que os motores de crescimento da economia portuguesa, que os motores do desenvolvimento económico e social do nosso país estão no investimento, no investimento privado e nas exportações. E o investimento e as exportações vêm acima de tudo da iniciativa privada”… link.

A arte de distorcer a realidade é, na prática do actual PR, um vicioso hábito. Esta asserção, totalmente ‘lapalissiana’ para qualquer economista de meia tigela, contêm - como é da praxe para conseguir ‘levar a água ao seu moinho’ - alguns 'pózinhos de verdade', para melhor esconder o seu verdadeiro alcance que é, eminentemente, político.

Uma das questões fulcrais do novo ciclo político é exactamente sobre a definição do(s) motor(es) do desenvolvimento económico nacional. Perante uma onda de privatizações, de abruptas quedas no investimento, do esmagamento de salários e das condições laborais, de um desemprego endémico um problema que se coloca – e que está reflectido no novo ciclo político – é, exactamente, a redefinição do papel do sector público no relançamento económico. Para obviar a essa discussão, para consolidar o status quo, aparece Cavaco Silva a tentar cortar célere numa necessária redefinição estratégica, munido da habitual arma neoliberal: ‘não há alternativa’!

Isto é, quando a ‘sua’ maioria evidencia – na Oposição – gritantes fragilidades aparece a terreiro Cavaco Silva a tentar colmatar essas debilidades. 

O contexto que o Presidente Republica tentou conferir ao seu ‘roteiro’ não parece ser o mais favorável. Na realidade, a sua iniciativa de há 20 anos visando promover a sobrevivência das ‘aldeias históricas de Portugal’ não pode ser contabilizada, na prática, como sendo um êxito.

Os portugueses sentem que o interior (onde estão sediadas as tais aldeias históricas) vive um clima de pré-colapso. Nos últimos 10 anos o actual presidente foi um colaborador desse desastre subscrevendo (promulgando) o encerramento de serviços de âmbito público  (CTT, Tribunais, Quartéis, Escolas, Unidades de Saúde, etc.) que tiveram como resultado uma cataclísmica anemia do desenvolvimento e como consequência directa uma progressiva desertificação. 

Este presidente é useiro e vezeiro nestes malabarismos. Já o fez em relação às pescas quando (também no exercício de funções governativas) promoveu o abate da nossa frota pesqueira e a deslocalização dos pescadores para outras áreas produtivas e, no presente, aparece a exaltar a ‘economia do mar’.

Na verdade, no meio rural perante uma irreversível depauperização de uma burguesia rural e agrária, eminentemente conservadora e incapaz de assegurar o desenvolvimento local, que entrou numa galopante rota de recessão (insolvência), surge uma nova casta de ‘empreendedores’, com algum carácter efémero e flutuante (não radicada no 'mundo rural') interessada na transformação do património rural (e a história está em larga medida aí) em voluntariosos e experimentalistas projectos turísticos que posteriormente habilmente explora, em termos estatísticos, com sendo’ exportações’. Todos sabemos como esta transferência tem 'pés de barro' e quanto insustentável é a mudança que está na calha e que parece merecer o apoio do Presidente da República, em doloroso e penoso fim de mandato.

Na realidade, Cavaco Silva ao deambular neste meandros políticos com espúrias ‘justificações’ económicas está a gastar os últimos cartuchos a ajudar a actual Oposição (PSD/CDS) como o fez durante 4 anos e meio a apoiar a ‘maioria’ de então.

Ficamos sem saber se o homem é persistente ou se, simplesmente, é um ser irrascível, casmurro e teimoso. 

Mas esta aparente dualidade não interessa por o fulano ter cessado de desempenhar – por seus sucessivos erros – qualquer papel político.
Arrasta-se como uma avantesma pelo espaço que, caritativamente ou à laia de contrapartida por actos passados, alguns – misericordiosamente - ainda lhe concedem ou o toleram.

Amen!

As próximas eleições presidenciais_4

Passos Coelho, Cavaco Silva e Paulo Portas odeiam Marcelo porque é simultaneamente inteligente, culto e insuspeito de negócios escuros, fugas ao fisco ou à Segurança Social.

Passos e Cavaco queriam a cultura do ex-presidente do PSD e Portas só a oportunidade e ausência de cadastro. Uniram esforços porque lhes faltou outra opção e contam com o carácter de Marcelo, isto é, com a ligeireza de carácter. Em campanha, há décadas, é a única esperança de sucesso para a direita.

Marcelo traiu Pinto Balsemão, de quem foi ministro, e no Expresso de que o fez diretor, enganou com a Vichyssoise Paulo Portas e este serviu-lha fria, como é hábito servir-se à mesa, em direto, na televisão. Agora apoia-o, forçado, engolindo-a, ele próprio, gelada.

Marcelo odeia Paulo Portas que o denunciou, Passos Coelho a quem despreza e Cavaco porque lhe complicou a vida com a falta de sentido de Estado na ‘indicação’ de António Costa para formar governo, mas foi hábil a enganá-los. É um excelente manipulador.

A inteligência e capacidade de dissimulação de Marcelo prendeu os três à arreata, mas o homem não mudou. Enganou-os bem. Manipulou para evitar que um outro candidato da direita se antecipasse e, agora, com o apoio de toda a direita, a pior incluída, só lhe falta enganar o eleitorado de esquerda.

É por isso que o carácter é tão importante na escolha de um PR. Os portugueses sabem, embora haja muitos que esqueçam. Veremos pelos resultados eleitorais.