A professora de aldeia – O Cume e a sobrevivência (Crónica)

Quando a jovem professora de 28 anos chegou ao Cume, em outubro de 1947, depois da permuta com uma colega, paga a peso de ouro, com a ajuda dos pais e sogros, já levava os dois primeiros filhos.

Regressara ao distrito de origem, depois de errar por Ceca e Meca, vinda do Marquinho, na freguesia de Santiago da Guarda, concelho de Ansião, onde durante 4 anos lecionara numa escola com mais de 70 alunos repartidos pelas quatro classes do ensino primário. Abalou para lá a D. Nazaré aconchegada com os 8 contos de réis da permuta.

Foi difícil arranjar onde viver depois de breve trânsito por uma casa de que o dono veio a precisar. Arrendou outra, ao Sr. António Bernardo, minúscula, com janelas onde foi demorada a substituição de vidros partidos. Tinha por baixo a corte de terra batida onde, sobre a palha, se vazavam os penicos e, no curral que separava o portão das escaleiras da habitação, o galinheiro e o cortelho.

A estudante, que iniciou na Universidade do Porto um curso que as duas únicas alunas deixaram, adaptou-se a condições mais precárias do que as dos pais, na Miuzela do Coa.

A situação agravou-se quando ficou grávida do terceiro filho, uma segunda menina, sem poder albergar, em tão acanhado espaço, três filhos, a criadita e, nos fins de semana e no mês de licença, o marido, funcionário de finanças na Guarda, onde, de segunda a sexta-feira era hóspede da D. Bernardina, na Pensão Madeira.

Na aflição, o marido decidiu construir uma casa de raiz. A Junta de Freguesia cedeu-lhe o terreno, isto é, barrocos junto ao largo do mercado, onde a breve prazo vinte contos de réis do pinhal que o pai lhe dera e, mais tarde, o empréstimo do Montepio Egitaniense, lograram erguer paredes e pôr o telhado à casa, logo ocupada, e que progrediu à medida das posses do casal. Foi ali que a menina nasceu aparada pela Ti Ismelindra, corruptela de Ermelinda que a própria ignorava ser. Ainda seria de parteira do último filho, surgido nove anos depois.

O Sr. José Lúcio, de Carpinteiro, cujo ofício coincidia com o topónimo, fez as obras que ajustou. Ia à segunda-feira, bem cedo, e abalava sábado à tarde, para ver a família, trazer o farnel e preparar as ferramentas. Trabalhava de sol a sol para mais rapidamente ganhar a quantia do ajuste. Durante algum tempo trouxe na bicicleta um aprendiz para o ajudar e, mesmo assim, levou mais de 1ano a concluir a obra cujos acabamentos nunca foram previstos ou executados por serem um luxo escusado e dispendioso.

O Lecas exerceu ali o ofício de trolha durante muitos meses. No amplo logradouro, depois de erguer, rebocar e caiar paredes de tijolos que separaram as divisões da casa, construiu, dentro dos muros, a latrina, o cabanal, o cortelho, o galinheiro, o pombal e a corte da cabra. Os pedreiros, erguidas as paredes, tinham sido dispensados. Bastava um servente para ajudar o artista.

De aldeias próximas, gratos ao funcionário de finanças pelos conselhos sobre a décima ou partilhas, chegaram lavradores, com carros de bois, para acarretarem areia, pedras e barro, sem aceitarem o preço da jeira.

Não serve a literatura a descrição da casa, rés-do-chão e primeiro andar com forro, e a dos anexos, mas retrata a vida e as vidas ali vividas. Era um palácio, comparada com as outras casas da aldeia, geralmente de telha vã, sem reboco, com a corte do vivo por baixo ou dentro do curral, com raras janelas e algum postigo. Os pais dormiam em enxergas de palha, no chão ou sobre catres, e as crianças deitavam-se umas para baixo outras para cima, a aproveitar o calor e o espaço em divisões separadas por lençóis. O fumo saía pelos telhados, tanto mais espesso e negro quanto mais verde e molhada a lenha. Na lareira guardavam-se brasas cobertas de cinza para, na manhã seguinte, atear o fogo sem precisão de ir pedir lume à vizinha e voltar com brasas nas pontas dobradas da gesta negral.

Voltemos à casa da professora. O porco criava-se à pia até à matança que acontecia nas férias do Natal. O enchido já pingava do fumeiro quando se iniciava o segundo período letivo.

No curral, logo que a professora entrava em casa, galinhas, perus, marrecos e galinhas da Índia, corriam, vindos da rua, a disputar o milho, o centeio e os restos de comida. No inverno, sobretudo em dias de neve, quando escasseavam as ervas, sementes e insetos, a ração aumentava. As pombas comiam sobre o muro que cercava os anexos e, no quintal, só as pias de água eram comuns.

A pequena horta comprada ao lado da casa produzia legumes. O estrume das galinhas, pombas, cabra e porco bastava para adubar a terra. Alfaces, cenouras, couves, feijão frade, tomates, cebolas, feijão verde e de estaca, alhos, nabos e abóboras abundavam na época própria. As meruges e os agriões bordejavam os regatos e bastava apanhá-los tal como os cogumelos, míscaros e tortulhos, depois de noites húmidas, nos dias de outono, por entre pinheiros e carvalhos.

Em casa, ao lusco-fusco, acendiam-se os candeeiros a petróleo, um espanto de claridade para quem só aspirava à candeia de azeite. Penoso era acarretar a água da fonte, a única nascente que alimentava as necessidades da aldeia. No inverno doíam as mãos a pegar nos regadores e baldes que nunca mais enchiam as panelas e a caldeira de cobre onde, depois de aquecida, era levada para a banheira de zinco, sucessivamente esvaziada para outro banho. E a lenha que se gastava! O banho semanal era uma exótica bizarria da Sr.ª professora para uma população que lhe atribuía malefícios para o corpo e, sobretudo, para a alma, jamais imaginando que pudesse alguma vez converter-se em hábito diário.

Os pratos partidos, juntados os cacos, esperavam os gatos com que o amola-tesouras os devolveria à mesa e os tachos furados regressavam à trempe com pingos de solda. Até do caldeiro da vianda do porco, depois de queimado, se fazia um assador de castanhas.

O pão, as mercearias e a carne de vaca, assim como o polvo seco do Natal, o azeite ou o petróleo, vinham no fim de semana trazidos pelo marido da professora que os filhos iam esperar ao apeadeiro do comboio em efusiva alegria.

O pão de trigo era um luxo na aldeia onde o forno comunitário era desamuado uma vez por mês, aguardando alguns dias o pão da última fornada porque tenro e estaladiço não surdia. As folhas de couve e um local seco logravam manter por mais de um mês o pão de centeio, o único que era cozido na aldeia. O trigo não se adaptava à aridez dos solos.

O sal, o sol, o unto, o azeite, o açúcar e o fumo conservavam os alimentos. No sal jazia, para todo o ano, parte significativa do porco, cuja matança era uma festa e ainda se lhe juntavam pés, orelhas e pás de outros porcos, arrematados nas festas pias, pagamento de promessas de paroquianos ao santo da devoção que os livrara da moléstia. O sol secava os figos e as vagens, assegurando a desidratação notável longevidade. No pote de azeite ficavam os chouriços e no unto os lombos. A marmelada, a ginjada, a geleia e o doce de abóbora, com o ponto apurado, duravam o ano inteiro. No vinagre curtiam-se pimentos e cenouras e às azeitonas bastava o sal e a mudança de água.

Não faltavam galinhas degoladas quando as pombas deixavam de criar ou era preciso variar as ementas. O pombal fornecia centenas de borrachos por ano e a carne era uma delícia, assada, guisada ou cozida, a acompanhar a massa, o arroz , as batatas ou o pão.

A cabra Becas, que era mocha, comia a erva da beira dos caminhos e era regularmente mudada de sítio à medida que a consumia. Os filhos mais velhos disputavam o pastoreio e sabiam procurar os melhores sítios públicos para a prender. Soltou-se algumas vezes e teve direito a coleira com chocalho para facilmente ser localizada. Ó Becas!, e a mocha logo se denunciava pelo tilintar do badalo.

Havia competição dos filhos para mugir a Becas cujo leite era abundante e delicioso, salvo na primavera quando a ingestão de maias das gestas negrais lhe transmitia sabor amargo. Não faltava o leite e, nos períodos de maior abundância, ainda sobrava para os queijinhos e requeijões que a professora e mãe se esmerava a fazer com rara satisfação. Até das natas acumuladas, os filhos embirravam com os farfalhos no leite, surgiam pequenos rolos de manteiga embrulhados em papel vegetal.

Os filhos só muitos anos depois tomariam consciência da determinação da mulher que, sendo uma professora de exceção, conseguiu criá-los felizes e sem fome em tempos de miséria. Não imaginaram ser diferentes dos outros meninos e foram iguais aos filhos de outras professoras que, com ordenados miseráveis, viveram no tempo do racionamento que perdurou depois da guerra de 1939/45.

Jornal do Fundão – 24_12_2015

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Nigéria – O Islão é pacífico…

A desmemória e a dissimulação

Miranda do Corvo, 11 de setembro