Recordando Sá Carneiro

Seria injusto esquecer os deputados da Assembleia Nacional fascista que aí lutaram para que os direitos básicos dos cidadãos fossem reconhecidos e o partido único deixasse de o ser.

Do grupo, inicialmente liderado por José Pinto Leite, falecido num acidente de aviação na Guiné, passou a salientar-se Francisco Sá Carneiro que viria a fundar o PPD, depois do 25 de Abril, seguindo-se-lhe Magalhães Mota, Pinto Balsemão e Mota Amaral, tendo outro eminente deputado, Miller Guerra, aderido ao PS.

Sá Carneiro foi um prestigiado advogado do Porto, e vivia com uma notável mulher, Snu Abecassis, dinamarquesa e fundadora das Edições D. Quixote, editora que prestou um valioso contributo à cultura e à democracia. Foi admirável a coragem e a dignidade com que Sá Carneiro impôs a sua relação pública que a Concordata impedia de legalizar dado que o casamento era, para a ditadura e para o Vaticano, indissolúvel.

Admirei-lhe a inteligência, a coragem e a preparação política com a mesma firmeza com que fui seu adversário no ‘golpe Palma Carlos’ e na conivência com o general Spínola.

Sendo a política o que é, nunca o apoiei depois do 25 de Abril mas senti a sua morte, a perda do político e a falta que fez, porque não há democracia de pensamento único.

Foi o primeiro-ministro possível e honrado nas circunstâncias em que exerceu funções. Foi deplorável ter imposto a candidatura a PR do general Soares Carneiro, ex-diretor do sinistro Campo de S. Nicolau, em Angola, mas mais lamentável, depois da sua morte, foi a reintegração do candidato derrotado como CEMGFA, num regresso ao ativo digno do Terceiro Mundo. Dessa afronta ao PR Ramalho Eanes e a todos os democratas  não foi ele o responsável.

As circunstâncias trágicas da morte e a idade com que morreu converteram-no em mito mas é fácil reconhecer a enorme supremacia intelectual, política e cultural que separam o fundador do PPD, bem como de Emídio Guerreiro ou Nuno Rodrigues dos Santos  de líderes como Cavaco Silva ou Passos Coelho. É talvez essa distância abissal que faz do malogrado Sá Carneiro, falecido há 35 anos, o gigante que persiste na mente de muitos portugueses.

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