Cavaco Silva: entre aleivosias e o estertor…

Cavaco Silva continua a lutar pela afirmação e consolidação da sua agenda política pessoal em total consonância com a coligação de direita, hoje, colocada em minoria e atirada para a Oposição.

As declarações de ontem na peregrinação que resolveu efectuar pelas ‘aldeias históricas de Portugal’ (Linhares da Beira, Almeida, Belmonte, Castelo Mendo, Castelo Novo, Castelo Rodrigo, Idanha-a-Velha, Marialva, Monsanto, Piódão, Sortelha e Trancoso) integrando um dos seus oblíquos ‘roteiros’, neste caso, para ‘celebrar’ uma longínqua decisão (há 20 anos), oriunda sua passagem pelo Governo (que sempre se esquivou a uma avaliação), são uma prova desse despudorado desígnio.

O PR disse nesta acção interventiva no interior: “Agora, como nos próximos anos, não tenho a mínima dúvida que os motores de crescimento da economia portuguesa, que os motores do desenvolvimento económico e social do nosso país estão no investimento, no investimento privado e nas exportações. E o investimento e as exportações vêm acima de tudo da iniciativa privada”… link.

A arte de distorcer a realidade é, na prática do actual PR, um vicioso hábito. Esta asserção, totalmente ‘lapalissiana’ para qualquer economista de meia tigela, contêm - como é da praxe para conseguir ‘levar a água ao seu moinho’ - alguns 'pózinhos de verdade', para melhor esconder o seu verdadeiro alcance que é, eminentemente, político.

Uma das questões fulcrais do novo ciclo político é exactamente sobre a definição do(s) motor(es) do desenvolvimento económico nacional. Perante uma onda de privatizações, de abruptas quedas no investimento, do esmagamento de salários e das condições laborais, de um desemprego endémico um problema que se coloca – e que está reflectido no novo ciclo político – é, exactamente, a redefinição do papel do sector público no relançamento económico. Para obviar a essa discussão, para consolidar o status quo, aparece Cavaco Silva a tentar cortar célere numa necessária redefinição estratégica, munido da habitual arma neoliberal: ‘não há alternativa’!

Isto é, quando a ‘sua’ maioria evidencia – na Oposição – gritantes fragilidades aparece a terreiro Cavaco Silva a tentar colmatar essas debilidades. 

O contexto que o Presidente Republica tentou conferir ao seu ‘roteiro’ não parece ser o mais favorável. Na realidade, a sua iniciativa de há 20 anos visando promover a sobrevivência das ‘aldeias históricas de Portugal’ não pode ser contabilizada, na prática, como sendo um êxito.

Os portugueses sentem que o interior (onde estão sediadas as tais aldeias históricas) vive um clima de pré-colapso. Nos últimos 10 anos o actual presidente foi um colaborador desse desastre subscrevendo (promulgando) o encerramento de serviços de âmbito público  (CTT, Tribunais, Quartéis, Escolas, Unidades de Saúde, etc.) que tiveram como resultado uma cataclísmica anemia do desenvolvimento e como consequência directa uma progressiva desertificação. 

Este presidente é useiro e vezeiro nestes malabarismos. Já o fez em relação às pescas quando (também no exercício de funções governativas) promoveu o abate da nossa frota pesqueira e a deslocalização dos pescadores para outras áreas produtivas e, no presente, aparece a exaltar a ‘economia do mar’.

Na verdade, no meio rural perante uma irreversível depauperização de uma burguesia rural e agrária, eminentemente conservadora e incapaz de assegurar o desenvolvimento local, que entrou numa galopante rota de recessão (insolvência), surge uma nova casta de ‘empreendedores’, com algum carácter efémero e flutuante (não radicada no 'mundo rural') interessada na transformação do património rural (e a história está em larga medida aí) em voluntariosos e experimentalistas projectos turísticos que posteriormente habilmente explora, em termos estatísticos, com sendo’ exportações’. Todos sabemos como esta transferência tem 'pés de barro' e quanto insustentável é a mudança que está na calha e que parece merecer o apoio do Presidente da República, em doloroso e penoso fim de mandato.

Na realidade, Cavaco Silva ao deambular neste meandros políticos com espúrias ‘justificações’ económicas está a gastar os últimos cartuchos a ajudar a actual Oposição (PSD/CDS) como o fez durante 4 anos e meio a apoiar a ‘maioria’ de então.

Ficamos sem saber se o homem é persistente ou se, simplesmente, é um ser irrascível, casmurro e teimoso. 

Mas esta aparente dualidade não interessa por o fulano ter cessado de desempenhar – por seus sucessivos erros – qualquer papel político.
Arrasta-se como uma avantesma pelo espaço que, caritativamente ou à laia de contrapartida por actos passados, alguns – misericordiosamente - ainda lhe concedem ou o toleram.

Amen!

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