Divagações incompletas e superficiais sobre o êxito da Front National…

Tanto a profecia ameaçadora como o desastre anunciado vieram a concretizar-se.
A Front National acabou por vencer as eleições regionais em França (2015) link.

Mais do que lamentar o ocorrido e estimar as consequências, para a França e para a Europa, interessa saber como foi possível chegar aqui.

De pouco vale mostrar uma profunda incredibilidade e desgosto como a nação que protagonizou a Revolução Francesa acaba por, nas urnas, questionar a clássica trilogia revolucionária (Liberté, Igualité et Fraternité) que contaminou o Mundo e deu origem ao que se convencionou chamar a Era Contemporânea. E aqui surge o primeiro sobressalto – embora os tempos e o Mundo sejam ou estejam diferentes – e dizem respeito ao pré-anuncio do fim de uma Era sem que divise com clareza o erguer de uma outra bandeira prenunciadora de uma nova. Tudo o que aparece cheira a retrocesso (político, económico, civilizacional e cultural).

O trajecto histórico mostra que algo poderá estar próximo, embora se apresentem ainda, pouco claro. Tudo remonta à evolução política ocorrida durante o século passado (XX) e decorre das saídas das duas grandes guerras europeias (ou se quisermos mundiais). Não foram saídas fáceis nem equilibradas. A primeira guerra mundial determinando o fim dos impérios europeus (prussiano e otomano) conduziu a uma II Guerra que será resolvida no contexto de uma outra – a guerra fria.

Este emaranhado belicista, quer seja frio ou ‘quente’, viria a sofrer mais um abanão já na parte final do século com a queda do muro de Berlim e o soçobrar dos regimes soviéticos no Leste da Europa. 

No calor dos festejos ocidentais poucos previram o que poderia vir a seguir. Estilhaçado o ‘inimigo primário’ (comunista) surge um novo capítulo designado com o equívoco nome de ‘globalização’ que, também, poucos foram capazes de entender em toda a sua extensão e consequências.
E politicamente o espaço concedido de bandeja à extrema-direita passa pela emergência de um capitalismo selvagem (neoliberal) e, simultaneamente, pelo progressivo e endémico colapso da social-democracia em grande parte do território europeu.

A conjugação de todos estes factores (colapso dos países comunistas, enfraquecimento da social-democracia e emergência do neoliberalismo) criou a ‘tempestade perfeita’ que acabou por despoletar a emergência de extrema-direita agressiva a cavalo de um exacerbado nacionalismo. É muito difícil enquadrar a Front National de Marine no ambiente económico. Não existe uma doutrina ‘nacional-social’ mas todos conhecemos o que foi o ‘nacional-socialismo’ dos anos 30 do século passado.

Na verdade, a Front National é, em termos económicos, uma 2ª. edição do ‘poujadismo’ dos anos 50 – por onde aliás se passeou o pai Le Pen -  em que se agiganta como a ‘grande ameaça’ aos franceses (nomeadamente à fustigada 'classe média'), uma sinistra trilogia: a emigração, a Europa e o fisco. Como suporte deste ‘neo-poujadismo’, serôdio e artesanal para um Mundo cada vez mais tecnológico, estão os clássicos ingredientes: o corporativismo, o antiparlamentarismo (autoritarismo) e a demagogia.

No campo social para além de o seu programa (da FN) passar por um rápido e profundo empobrecimento da população (existem aqui pontos de contacto com as emergentes concepções neoliberais), a ‘saga anti-emigração’ que inquina toda a movimentação da extrema-direita acabará por funcionar como um catalisador para que essa pauperização possa adquirir características duradouras.

Claro que existem outras atitudes concorrentes nomeadamente o aproveitamento político e eleitoral dos medos, temores e chantagens.

Todavia, muito do êxito que extrema-direita francesa hoje exibe pode ser imputado aos sucessivos fracassos do socialismo francês, de cariz social-democrata, que se mostrou incapaz, ao longo de anos, de promover um sustentável crescimento económico, de estimular o mercado de trabalho, de proceder a uma equilibrada redistribuição da riqueza e de construir um ‘Estado Social’ justo e solidário.

Ao fim e ao cabo, a progressiva e paulatina derrocada da social-democracia europeia, facilitou as coisas à Front National.

Assim, mais do que mostrar indignação e inquietação face ao sucedido em França nas eleições regionais de 2015 é necessário e urgente ressuscitar a pujança de uma esquerda agregadora e plural que encarne um projecto político diferente, viável e mobilizador em que a recuperação do emprego não seja obtida pelo fechar de portas aos surtos migratórios, em que o mercado interno não seja consequência de políticas proteccionistas e as políticas orçamentais e fiscais não girem à volta de ‘ajustamentos’ estritamente monetários e cambiais.

E assim, chegamos ao cerne da questão. A situação em França não é da exclusiva responsabilidade dos franceses e incorpora muitos erros das lideranças europeias que se acentuaram com a crise financeira despoletada em 2008. François Hollande é o primeiro e o imediato culpado dos resultados obtidos no último domingo, mas não será o único, o último ou o exclusivo.

A emergência em força da extrema-direita por toda a Europa não é fruto de um acaso ou um capricho de moda mas a expressão visível e consequência natural e expectável dos erros cometidos pelas respostas europeias face aos problemas que têm surgido, em catadupa, na crise financeira mundial com rebates políticos, económicos e sociais.

E se não for 'só' isto, poderá ser pior, isto é, o imparável declínio do dito ‘Ocidente’.

Comentários

Manuel Galvão disse…
"Todavia, muito do êxito que extrema-direita francesa hoje exibe pode ser imputado aos sucessivos fracassos do socialismo francês, de cariz social-democrata, que se mostrou incapaz, ao longo de anos, de promover um sustentável crescimento económico, de estimular o mercado de trabalho, de proceder a uma equilibrada redistribuição da riqueza e de construir um ‘Estado Social’ justo e solidário."

Este "socialismo francês" é mesmo um fracasso... gostava que me dissesse que socialismo eventualmente chegado ao poder pelas regras da democracia anglo saxónica conseguiria promover ... estimular ... construir ... mais do que do que os atuais socialismos europeus o fazem.

Engavetar Ricardo Salgado e a familia toda até que repatriassem as fortunas que têm em off-shor ressarcindo o fisco de fugas astronómicas ? impedir que os bancos comprem e vendam acções milhões de vezes por minuto manipulando os preços das acções a seu favor? (Holland bem o tentou), impedir a utilização de paraísos fiscais para fugiram ao fisco?
e-pá! disse…
Completamente de acordo com o comentário.

O que se pretendia dizer resume-se a uma pequena ideia:
Enquanto o socialismo (qualquer que seja a sua posição ideológica ou doutrinária) pretender gerir, pacificamente, as cíclicas crises do sistema capitalista, afundar-se-á inevitavelmente em brutais contradições e, concomitantemente, abrirá espaço à direita (seja ela 'civilizada', 'musculada' ou povoada por extremismos proto-nazis) para tomar de assalto o poder.
Em França sucedeu 'isso'.

Os cidadãos franceses foram colocados perante um governo, dito socialista, cujo presidente caiu no descrédito à custa de tanto rastejar perante a Frau Merkel, títere da frente 'popular europeia' (PPE) e cujo primeiro-ministro não teve qualquer rebuço em propor a eliminação da palavra 'Socialista' na designação partidária. Perante tanto falta de fibra e de espinha vertebral a Front National dirigida por Marine Le Pen foi impregnado as mentes com o 'nacional-populismo', conquistando adeptos e, hoje, tornou-se o maior partido de França.
Os socialistas face ao desastre eminente limitam-se a pedir socorro, desistem dos princípios políticos e sociais e passam a implorar a formação (efémera) de uma 'Frente Republicana' que sustenha a extrema-direita. Isto é, pedem um interregno para não terem de tirar consequências e tudo continuar na mesma.
Não dá!
MR disse…
A extrema-direita não progride somente em Franca, mas sim no mundo inteiro.
O raciocínio "intelectual" dos votantes da Le Pen, é o mesmo que o raciocínio dos extremistas muçulmanos. Uns e outros são xenófobos, ignoram a igualdade, são contra as liberdades e desconhecem a fraternidade.
A expressão destes indivíduos nos médias vai atraindo a multidão de fraco cariz humano, devido à tolerância que a democracia lhes concede.
Só quando os povos tiverem sofrido as consequências desastrosas do seu voto, levando ao poder estes fanáticos, é que voltaremos, talvez, a ter uma maioria esclarecida, e consciente.
A Historia é feita de erros cometidos de forma cíclica, pois acho que não se tiram lições do passado.
Hoje há quase tantos analfabetos, com a escolaridade obrigatória até serem jovens adultos, como quando a escolaridade não era obrigatória
Algum tempo, imaginei, que, com a escolaridade obrigatória, desenvolviam-se as consciências. Hoje perdi essa esperança.

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