Inaceitável cedência civilizacional


Comentários

Jaime Santos disse…
Não Carlos, não é inaceitável levar em conta a cultura das pessoas numa sociedade laica. Revela, isso sim, tato. Estive recentemente na Dinamarca onde, instado a escolher um médico, me foi igualmente perguntado se preferiria um homem ou uma mulher e os dinamarqueses estão longe de ser gente pudica. É um procedimento normal. Atribuir a uma Muçulmana um Ginecologista, ou a um Muçulmano uma Urologista é meio-caminho andado para que essas pessoas recusem ser consultadas, o que representa um risco para a sua saúde (e mesmo para a saúde coletiva) e pode ser percebido como uma humilhação. Note que estamos a falar de pessoas que não são sequer imigrantes de longa data e sim recém-chegados. O Estado Laico não é o Estado Anti-Religião, mas sim o Estado que, porque não assume nenhuma Religião, as respeita todas, incluindo a Não-Religião. Devemos aceitar as diferenças naquilo que não é essencial, de modo a não transigir no que o é. De outro modo, estamos a dizer aos Muçulmanos (ou a Cristãos Conservadores, que também podem ter problemas em aceitar um médico de sexo diferente do seu), que não podem viver entre nós.
Rosalvo disse…
Concordo, claramente, com o comentário de Jaime Santos. Acrescento que o respeito pela autonomia das pessoas "obriga" a que os serviços forneçam todas as informações que permitam ao doente decidir pela sua cabeça. Depois de objetiva e devidamente informada, caso seja manifestamente impossível satisfazer a preferência da pessoa, se esta permanecer na recusa, deverá ainda assim tentar-se tudo para a persuadir. No final da linha, penso, poderá o médico (que não tem poderes divinos para decidir) pedir um suprimento judicial - recorrer ao Ministério Público (que tem poderes judiciais) para que este decida se o médico aceita a recusa de tratamentos (e fundamenta a falta de alternativas) ou se o médico/instituição deve diligenciar para respeitar a vontade da pessoa.
Jaime Santos
e Rosalvo:

Agradeço o contraditório e não serei eu a lançar achas para a xenofobia mas isto é uma cedência que vem depois de outra que censurei: uma escola para meninos e outra para meninas.

Lutei antes do 25 de Abril pela coeducação quando era professor. Não deixarei de o fazer em relação a refugiados cuja obrigação de proteger nos cabe.
Jaime Santos disse…
Creio que a questão da separação dos sexos na escola se referia apenas às aulas iniciais de Português dadas nos centros de acolhimento, ou seja, uma situação transitória. Concordo, e disse-o na altura, que dada até a experiência traumática de muitas dessas pessoas, se poderia transigir em relação a esta questão. Se estes refugiados forem integrados posteriormente no sistema geral de ensino, não se deverá pôr em causa a coeducação. Parece-me que a questão da escolha do médico é de outra natureza porque lida com a nossa intimidade e isso não tem necessariamente a ver com religião, pode ter apenas que ver com uma questão de pudor, pura e simples.
e-pá! disse…
Esta é uma mutação que se arrasta desde os anos 70. Isto é, a necessidade que o avanço civilizacional introduziu para chegarmos à diferenciação das questões de sexo, de uma outra 'coisa' - as de género.
Esta última (género) é uma nova categoria social, cultural, política e histórica que, civilizacionalmente, foi introduzida para ultrapassar uma mera diferenciação física e biológica. E é intencionalmente (numa perspectiva de avanço) que a nova categoria (género) expurga todas as condicionantes religiosas envolventes (que secularmente 'infectaram' estas questões).

Quanto aos refugiados não deverão ser levantados problemas nomeadamente em relação ao usufruto de um bem (saúde), que a nossa sociedade quer universal, equitativo e com acesso facilitado.
Uma coisa é condescender em relação a comportamentos e situações dominadas pelo pudor (quase todos de fundo religioso), outra será o dever de integrar na sociedade os que resolvemos acolher, num ambiente (tolerante) que respeite diferenças, mas não cultive desigualdades (em todos os âmbitos).

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