Cavaco, Sócrates e o XVIII Governo Constitucional

A tomada de posse do novo Governo foi a liturgia obrigatória onde os exegetas viram sinais que as pessoas comuns não vêem. Deve ter ficado da Bíblia este interdito para os leigos, impedidos de lerem os discursos sem recurso a exegetas encartados.


O primeiro-ministro disse que cumprirá o programa com que ganhou as eleições, apesar de depender mais das oposições do que da sua vontade. Não é preciso ser profeta para adivinhar que as oposições aproveitarão o momento mais adequado para o derrubarem e que Sócrates esticará a corda quando sentir bloqueada a sua governação. A espada de Dâmocles vai pairar sobre a cabeça de quem não dispões de maioria absoluta.


Com um presidente da República fiável as coisas poderiam ser, para o Governo e para o País, bem melhores. Mas que esperar de quem afirmou: «serei sempre um referencial de estabilidade», depois da trapalhada em que se envolveu e que influenciou três processos eleitorais?


O PR afirmou que será sempre "o presidente de Portugal inteiro", embora fosse preferível ser presidente de todos os portugueses, merecedor da confiança que só recuperará com a entrega ao poder judicial de Fernando Lima por ter abusado do seu nome junto de um jornal numa cabala contra o PS. Enquanto o não fizer, soa a falso a garantia de lealdade institucional que, ironicamente, sentiu necessidade de reiterar na cerimónia de posse.


Finalmente, o caderno de encargos que traçou ao Governo não me parece adequado pois o Executivo responde perante a Assembleia da República e não perante o PR, o que só pode resultar de uma leitura apressada da Constituição da República.

Comentários

andrepereira disse…
O prof. Cavaco Silva continua muito preocupado com o défice externo. Eu também. Então, porque não usa o seu prestígio para de uma vez por todas acabarmos com o cancro do défice energético? Porque não avança o presidente com a ideia da energia nuclear? É que as renováveis - sendo sem dúvida uma aposta óptima - não chega! Leiam a vossa factura de electricidade. Lá verão que mais de 40% da fonte energética é gás, carvão ou petróleo. Apenas uns 50 a 60% são renováveis.
Maria C disse…
Discordo completamente com a opção do nuclear. Se já vamos em 50 ou 60% em renováveis, porquê não aumentar o esforço nacional para continuar a progressão das renováveis. Num país como Portugal com uma tão alta média anual de insolação, com uma costa tão extensa e com a célebre nortada, até parece mal justificar o nuclear como alternativa. Todas as alternativas aos combustíveis fósseis implicam um importante investimento portanto, investir por investir, vale mais fazê-lo em tecnologias limpas.
Maria C:

A energia eólica é limpa? Quais são as consequências dos milhões de toneladas de alumínio a poluirem os terrenos?

(Pergunta do Cardeal Diabo)
Morcego disse…
Aqui está uma matéria da estrita competência do governo que devia gerar um amplo debate, embora já com muitos anos de atraso.
Os 50% de renováveis pouco tem a ver com a eólica. Grande parte da produção de renováveis em Portugal é proveniente das barragens, muitas das quais construídas durante o Estado Novo.
Sempre fomos, e parece que continuamos a ser (pelo menos este governo) preconceituosos acerca da opção pela energia nuclear.Se o tivéssemos feito há uns anos (e.g. o Cavaco enquanto PM) julgo que estaríamos hoje melhor. Mas parece-me que ainda não é agora que se vai discutir a sério esta questão. É pena.

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