A intolerância religiosa e o sectarismo pio

A superstição seria irrelevante se não tivesse consequências. As crenças não passariam de convicções pessoais se os devotos não vivessem a desvairada tentação de converter os outros, de obrigar os agnósticos, ateus e cépticos e partilhar tolices individuais como dogmas universais.

As fogueiras ateadas pelos índios, para que a chuva caia, não diferem das procissões que os bispos e padres católicos organizam para o mesmo fim através das novenas.

Pedir a Santa Bárbara para amainar as trovoadas é incomparavelmente menos prudente do que instalar um pára-raios. A penicilina fez mais milagres do que as orações rezadas desde os primórdios da organização da superstição em negócios da fé. Morre mais gente nas peregrinações às grandes superfícies religiosas do que benefícios se colhem com as deslocações e oferendas.

Ninguém é prejudicado pelo facto de haver quem acredite que Cristo era filho de uma virgem ou que se dedicava à pregação e aos milagres numa altura em que as saídas profissionais eram escassas e a sobrevivência difícil. O que ninguém tem o direito é de impor que alguma pessoa se ajoelhe ou reze para agradecer uma prestação de serviços – a salvação da alma –, que ninguém lhe encomendou.

A liberdade é incompatível com as doutrinas totalitárias, políticas ou religiosas, e não há um só crente que não julgue ser a sua crença a única verdadeira. É neste clima inflexível que os crédulos de determinada fé se julgam no direito de converter os clientes de outra religião que dispute o mercado ou de perseguir quem recuse o paraíso.

A ICAR só reconheceu o direito à liberdade religiosa durante o concílio Vaticano II que B16 olha frequentemente com a mesma repugnância com que Maomé fita o toucinho.

Hoje, que a demência religiosa atingiu o auge com os talibãs, uma espécie de Opus Dei islâmica, em armas, exige-se aos Estados que defendam a laicidade para evitar que os avençados do divino impeçam os crentes da concorrência do legítimo direito à sua fé.

A Declaração Universal dos Direitos do Homem tem de substituir-se às tolices com que o Antigo Testamento, a Tora e o Corão intoxicam crianças nos templos e madraças onde o clero mata a inocência predicando a xenofobia, a crueldade, a violência, o sectarismo e o espírito de vingança.

Depois da bomba que explodiu frente a uma Igreja de Alexandria, no Egipto, fazendo 21 mortos e 80 feridos, durante a missa do Ano Novo, nenhuma consciência pode ficar tranquila, nenhum humanista poderá resignar-se perante o ódio sectário que cegou os assassinos dos pacíficos cristãos que assistiam a um acto litúrgico.

Comentários

perante o ódio sectário que leva alguém a acreditar que é a religião que divide....a religião é um pretexto como o tribalismo a política
ou a má vizinhança

mas cada um acredita no que quer

católicos não partiam a cabeça dos seus vizinhos por serem protestantes ou fiéis à rainha

faziam-no porque quando se tem uma vida de merda
se torna extremamente agradável saber que alguém está pior do que nós

é humano ter essa esperança....
muitas vezes recorre-se à violência como fé.....

se já foi fã de um clube de futebol
talvez compreenda melhorzito

infelizmente há muitos que não gostam de desportos impessoais
Julio disse…
Religião seria um passatempo inofensivo entre refeiçôes se ninguém saisse ferido.
Julio disse…
Fundamentlismo religioso e racimo são dois frutos venenosos da mesma árvore.
Tanto é tóxico o Catolicismo Romano como o racismo Nazi.
e-pá! disse…
O grande problema é que os repetidos confrontos entre cristãos coptas e muçulmanos podem acabar por desembocar numa "guerra civil religiosa".
Tal facto, extrapolaria o Egipto e desestabilizaria [ainda mais] a situação no Médio Oriente, onde se vivem tempos conturbados e complexos.

São, primáriamente, conflitos religiosos, como todo o Mundo denunciou. Mas não distantes da insolucionável questão israelo-palestina que inquina todas os "problemas" na região, sejam, políticos, territoriais e/ou religiosos.

A "guerra do Libano", também, foi, na aparência, despoletada por um conflito religioso que rapidamente degenerou num confronto militar, envolvendo os libaneses e os países limítrofes [Síria e Israel].
O atentado de 1 de Janeiro no Cairo, independentemente da questão religiosa subjacente [que formalmente não existe no Egipto], tem potencialidades para tornar-se num detonador de violências e perturbar [destruir] ténues e instáveis equilíbrios regionais...

A intolerância religiosa não será mais do que o rastilho de alargados conflitos politico-militares, que alastrarão, no Próximo e Médio Oriente, como uma mancha de crude...
Graza disse…
Que o tribalismo a política ou a má vizinhança e os maus fígados matem, não espanta, mas que as religiões estejam históricamente entre os motivos de guerras, é que não deixa de ser absurdo. Por aqui, elas não cumprem o seu papel: agravam até a tensão entre os Homens.

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