Segunda década do séc. XXI
Embora a situação mundial seja tensa e complexa e esse facto nos afecte - directa ou indirectamente – 2011 será, para os portugueses e para as portuguesas, a prova de fogo da nossa capacidade em enfrentar grandes desafios.Entramos num iniludível "ciclo de decadência" que, não se circunscrevendo ao campo económico e financeiro, é a antecâmara de uma grande batalha, onde elaborar estratégias correctas para vencer os problemas e ultrapassar os obstáculos, é decisivo.
Neste momento, lutamos – à custa da austeridade e de restrições sociais [parcelares] – por uma viragem na nossa trajectória económica e financeira, enquanto nação europeia desenvolvida. Esta luta que deve abranger a nossa identidade cultural envolverá todos os portugueses e, mais do que nunca, equidade na repartição dos sacrifícios e melhor distribuição da riqueza. Estes serão factores determinantes para conseguir progressos. Entra, também, aqui uma chaga que vergasta há séculos a nossa sociedade: o combate à corrupção.
Para além da necessidade de preservar um modelo social que responda com o mínimo de eficácia e prontidão a alguns dos grandes dramas nacionais, como o progressivo alargamento de bolsas de pobreza e a persistência de elevados índices de desemprego, tornaram-se questões fulcrais na consolidação dos alicerces do Estado democrático [neste momento fustigados por conceitos neoliberais] sectores como: a Educação, a Saúde, a Segurança Social, a Justiça.
Portanto, o ano de 2011, deverá ser o prenúncio de um período [mais ou menos dilatado] onde são previsíveis grandes rupturas, não obrigatoriamente pacíficas. A dificuldade reside em integrar essas rupturas [reformas] no nosso acervo político e cultural sem causar fracturas violentas. Elas devem ser trabalhadas [politicamente] e aparecerem aos olhos dos cidadãos como consensuais, indispensáveis, justas e, uma vez aplicadas, atingirem transversalmente toda a sociedade, à margem de quaisquer blocos de interesses. Não poderão poupar ninguém, nem aprisionar os mais fracos a uma pobreza sem perspectivas.
Deverá deixar de fazer sentido a célebre frase tão brandida pelos portugueses perante as crises: “são sempre os mesmos que pagam” !
Vamos necessitar de reforçar a coesão e a solidariedade nacionais à custa de objectivos a médio e longo prazo que têm de contemplar certezas no sentido de aportarmos a mudanças sociais e económicas, equilibradas, justas e progressistas. Mudanças que não se confinam a Portugal mas abrangem a Europa onde a consciência de um espaço comum político, financeiro, económico, representativo no interior da EU e influente perante o Mundo é o gigantesco trabalho a realizar concomitantemente e para o qual teremos de colaborar.
O saneamento das finanças públicas [quer seja do défice orçamental ou da divida soberana] passa por uma profunda remodelação económica e social, dentro de um quadro democrático moderno. Só possível através da reformulação [renovação] do "ambiente" político nacional que nos leve a congregar esfroços à volta de desígnios nacionais transparentes e direccionados para o desenvolvimento e para a justiça social. A democracia não pode ser "só" um regime rotativo [alternância do poder] e replicativo. Deve ser um regime aberto onde as alternativas fluem e catalisam mudanças. Nada mais frustrante para um quadro democrático do que a singular expressão: “não existem outras alternativas válidas...!”.
Os políticos – enquanto arautos da mudança, da inovação e do progresso – devem assumir em plenitude a sua representatividade popular [advinda do voto], em nome de opções [convicções] doutrinárias explícitas e, com essa legitimidade, transformarem-se nos motores das mudanças necessárias que, os novos tempos e as mutáveis realidades, determinam e exigem.
Portugal está saturado de soundbites de financeiros, economistas, gestores e administradores. Que criaram um círculo vicioso retórico e não nos levam a nada.
Comentários
"Portugal está saturado de soundbites de financeiros, economistas, gestores e administradores. Que criaram um círculo vicioso retórico e não nos levam a nada."
Depois de ler a entrevista do Prof. Gomes Canotilho ao último Expresso link acrescento ao rol : consultores jurídicos e/ou mercadores de pareceres...