Cavaco Silva, a troika e a Senhora de Fátima


A realidade é sempre pior do que a notícia. Cavaco Silva prestou-se a ser presidente da Comissão de Honra da canonização de Santo Pereira, a forma de desacreditar um herói nacional, Nun’Álvares Pereira, com o milagre pífio da cura do olho esquerdo da D. Guilhermina de Jesus, queimado com salpicos de óleo fervente de fritar peixe.

Um presidente que se presta a rubricar a cura milagrosa do olho esquerdo da cozinheira de Ourém, para fazerem santo um guerreiro com seis séculos de defunção, é alguém que prefere a oração ao colírio e que confia mais em Fátima do que na virtude dos enviados da troika, embora, neste caso, haja razões para desconfiar de todos.

Ao comprometer a Senhora de Fátima na aprovação da sétima avaliação do programa de ajustamento português, Cavaco revela que perdeu a confiança no Governo e vira-se para a Cova da Iria. Tal como Portas, notabilizado por mobilizar a marinha de Guerra contra um barco armado com pílulas abortivas, que ameaçava interrupções da gravidez da Gala a Buarcos, e que atribuiu à Senhora de Fátima a orientação dos ventos e marés que depositaram nas costas da Galiza resíduos tóxicos do naufrágio do petroleiro Prestige, o PR insiste na proteção divina, desígnio de que a exonera do estado a que chegámos.

Sabendo-se que o seu humor está ao nível do das vaquinhas dos Açores, os portugueses veem no PR, não o economista eleito PR, por milagre, mas o devoto capaz de anunciar aos portugueses: “Penso que foi uma inspiração da nossa Senhora de Fátima”.

Vi e ouvi o inspirado crente, com a colher da sopa suspensa entre o prato e a boca. Se a notícia fosse apenas do jornal certamente que teria duvidado.  Não sei como não meti o cotovelo no prato.

Comentários

Já agora, para ser coerente, só lhe falta ir a Fátima a pé, de copo e vela na mão, agradecer o milagre!
É homem para isso. Apenas tem medo de ouvir a Grândola pelo caminho.

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