"HÁ QUALQUER COISA EM NÓS DE QUE NÃO GOSTAM"

Começo por pedir desculpa aos leitores por estar constantemente a citar o belíssimo verso de Manuel Alegre (do poema “O Resgate”) que serve de título a este artigo. Mas é que ele está sempre a vir a propósito de coisas que vejo e oiço.

Ontem vi parte do programa da RTP 1 “Prós e Contras”, onde pontificou a nova “estrela” do governo, o ministro Maduro (que de “maduro” não tem nada, antes parecendo manifestamente “verde”); desta vez a palavra-chave do seu discurso não foi o “consenso”, mas sim a “credibilidade”: temos de nos portar bem, como meninos ajuizados e “bons alunos”, para sermos credíveis perante “os mercados”.

Mas é de outra coisa que quero falar. Estava na plateia um senhor alemão, creio que professor, que vive em Portugal há muitos anos e fala bem português. Pareceu-me pessoa séria, instruída e civilizada. A dada altura a orientadora do programa, Fátima Campos Ferreira, perguntou-lhe se os alemães pensam mal de nós. Ele reconheceu que grande parte do povo alemão – e em geral dos europeus do norte – tem bastantes preconceitos contra os portugueses, e em geral os europeus do sul. E deu exemplos, que passo a citar.

Não o dizendo expressamente, deu a entender que os nórdicos têm inveja do nosso sol e das nossas praias e acham que passamos demasiado tempo a gozar esses dons da natureza.

Os alemães criticam-nos por “perdermos” muito tempo a almoçar (eles praticamente não almoçam; interrompem – quando interrompem – o trabalho para satisfazerem a necessidade fisiológica de se alimentarem, o que fazem ingerindo uma sandocha e uma cervejola).

Por outro lado, enquanto os teutónicos, em geral, confinam as suas relações sociais à família restrita – pais e filhos – os povos do sul facilmente convidam amigos para jantar, em refeições mais ou menos lautas que se prolongam noite dentro, do que resultaria no dia seguinte irem para o trabalho ensonados.

Quer dizer: a tal “qualquer coisa em nós de que não gostam” é justamente o melhor que nós temos: o sentido da amizade, da partilha, do convívio alargado, da hospitalidade, da confraternidade, e o saudável culto das relações humanas.

É com isso que eles embirram. É isso que querem “ajustar”. Maldito “ajustamento”!

Comentários

André disse…
Eu tenho diversos amigos nórdicos, da Alemanha inclusive, que não partilham em nada dessa visão do Sul, e por isso acho que o argumentário desse alemão é de um primitivismo tal, que me espanta tanto que se dê palco a tal figura como me espanta que neste blog se considere que tal pessoa seja culta e instruída. A mim soa-me mais a um carroceiro travestido de professor a debitar puro preconceito, que claramente não faz doutrina. Cumprimentos
William Telles disse…
Acesse também http://europaimperialblog.blogspot.com.br/
Muita coisa legal por lá.

Abraço.
André

Ou eu me exprimi mal ou V. me compreendeu mal, ou ambas as coisas. O tal professor que estava no programa não tinha esses preconceitos; apenas reconheceu que grande parte dos seus compatriotas os tinham. E a indiscutível verdade é que os têm. Poderia dar-lhe inúmeros exemplos, mas dou-lhe só um: um amigo meu foi a um congresso científico na Alemanha, onde apresentou um estudo (em inglês). Um colega alemão veio felicitá-lo pelo seu trabalho e, no seguimento da conversa, perguntou-lhe qual era a sua nacionalidade. Quando ele disse que era português, o teutão disse logo:"Ah, é daqueles que bebem vinho ao almoço?", como se isso fosse coisa de bêbedos. E esse era instruído!

Mas é claro que tais preconceitos estão mais disseminados entre os alemães médios. V. mesmo admite que os "carroceiros" alemães os têm. O pior é que na Alemanha há muitos "carroceiros", sobretudo no sentido figurado do termo!

Cumprimentos
Percebi o mesmo que Horta Pinto.

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