Até o 1º. de Maio teve 'alternativas' para além da luta dos trabalhadores...

Quando, em 1889, o Congresso Operário Internacional decretou, na célebre reunião de Paris, o 1º de Maio como o Dia Internacional dos Trabalhadores, no seguimento das heróicas lutas operárias de Chicago (1886) pela jornada de 8 horas de trabalho que acabaram por conquistar em 1890, mal adivinhavam que largos anos após essas lutas que marcaram a era contemporânea um primeiro-ministro de um País europeu, muito a Ocidente, haveria de ignorá-las ou tentar pervertê-las.

Na arenga de hoje perante um simulacro de organização sindical (a dita ‘associação de trabalhadores sociais-democratas’) o primeiro-ministro ensaiou retomar a peregrina ideia expressa pelo PR no último discurso do 25 de Abril, que 'endeusou' o fatalismo político para agora e no futuro, ao arrepio de qualquer expressão da vontade popular. Nessa reunião, Passos Coelho voltou à carga nos seguintes termos: “Por isso é que tenho insistido na ideia de que seja o Governo de esquerda, do centro ou de direita não pode deixar de pugnar para que no médio prazo o Estado tenha um orçamento equilibrado, podem fazer as políticas como entenderem, mas no fim as contas têm de bater certo”… link.
Este o epílogo lógico para um governo ‘lacaio dos mercados’ que pretende criar situações de facto de modo a tornar as alternativas políticas inúteis ou fúteis. Tem sido isso o teor das sucessivas revisões do memorando de entendimento que os portugueses têm conhecido a conta-gotas e que se traduzem no enxertar de mais austeridade em cima da que já está a 'matar o País'.
Mas fundamentalmente este é um Governo que pretende desvalorizar o contexto democrático submetendo-o a estritas ‘regras de mercado’, como se não existissem distintas abordagens ideológicas (de que é um acabado exemplo a que se permitiu fazer).

Trata-se de ofuscar as opções políticas pelo pragmatismo. Só que os pragmatismos (há diversos), são instrumentos metodológicos para a abordagem da realidade, não isentos de conotações políticas e ideológicas. O pragmatismo é sempre um método de acção colocada ao serviço de uma ideologia. É mais um estilo do que outra coisa. A ideia que se pretende transmitir é a de que sendo o ‘equilíbrio orçamental’ um dos objectivos centrais para o combate à crise das dívidas soberanas, qualquer ‘caminho’ serve, ou é indiferente, desde que se chegue aí. Pretende-se, deste modo, ocultar que esse equilíbrio orçamental está a ser tentado com massivas transferências do sector do trabalho para os grandes grupos financeiros. Que passa pela destruição da nossa capacidade produtiva com a falência de milhares de pequenas e médias empresas e pela criação de uma legião de desempregados. Um trânsito que atira para um brutal empobrecimento os que vivem do trabalho, ou aqueles que sobrevivem das suas reformas, e pelo assegurar dos lucros às instituições financeiras.
E tudo ‘isto’ é apresentado como inexorável, urgente e sem alternativas. Ora, a verdade é que as alternativas podendo não estar completamente explícitas ou delineadas, podendo estar escondidas por detrás das políticas importadas, impostas ou levianamente adoptadas, na realidade, existem. E existem necessariamente num quadro de debate e construção política e ideológica que constitui o fundamental na resposta aos actuais e graves problemas. Se é verdade que é preciso poupar na despesa pública é necessário definir onde, como e de que maneira. E 'isso' faz toda a diferença.

Aliás, para retomar a ideia inicial da árdua ‘conquista’ da jornada de 8 horas diárias de trabalho, seria interessante recuar ao início desta legislatura e ter a noção de que os actuais paladinos do ‘ajustamento’ em direcção ao tal ‘equilíbrio orçamental’ tentaram derrogar esta conquista civilizacional, que dura há mais de um século, através de alargamento do período laboral (meia hora/dia) link que seria posteriormente substituída pela eliminação de 4 feriados.

É portanto expectável que as comemorações do 1º. de Maio incomodem seriamente este Governo e sejam pretexto para debitar mais uns dislates como aqueles que o primeiro-ministro proferiu perante a tal ‘associação de trabalhadores sociais-democratas’ (TSD) link.

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