Do primeiro 1.º de Maio, em Portugal, até hoje


Há 39 anos, em Lisboa, estive no Estádio 1.º de Maio, recém batizado, por entre a maior massa humana alguma vez vista em Portugal, na incontida euforia de quem tinha visto abrir as portas das prisões, prender os pides e neutralizar as forças da repressão, já com o fim da guerra colonial à vista.

Éramos mais, muitos, muitos mais do que os 500 mil trabalhadores das ruas de Chicago, na greve geral dos Estados Unidos, em 1886, mártires que deram origem ao significado e à data que nesse dia se comemorou, depois de 48 anos de ditadura, pela primeira vez em liberdade. Os cravos de Abril continuavam viçosos e os portugueses com esperança.

Nunca tantos se emocionaram tanto. Na tribuna ouviram-se, primeiro, os discursos dos sindicalistas e, depois, os de Pereira de Moura, Nuno Teotónio Pereira, Mário Soares e Álvaro Cunhal, cuja dimensão cívica e intelectual fazem sentir vergonha dos que hoje, eleitos democraticamente, ocupam o poder. Foi a maior manifestação popular do século XX, em Portugal.

O MFA era a força motora do entusiasmo, a inspiração de todos os sonhos, a referência emblemática para todas as transformações, o algoz da ditadura e arauto da democracia. Foi a festa da liberdade, uma jornada de emoções fortes e promessas de solidariedade.

Hoje, 39 anos volvidos, regressaram o medo, a angústia e o desespero. Já não se morre na guerra injusta, inútil e criminosa que o fascismo movia contra tudo e todos, espécie de «custe o que custar», com que hoje se despedem pessoas, fecham empresas e lançam na miséria um milhão de portugueses. Já não se apodrece nas prisões sob tortura mas já se morre sozinho, à míngua, e se põe termo à vida, por desespero.

A polícia ainda não bate nos manifestantes nem os jornais sofrem a censura prévia mas as imagens, que os canais televisivos nos mostram, revelam tristeza onde havia alegria, desolação onde fervilhavam sonhos e o pânico que substituiu a esperança.

Não se matam a tiro os adversários, nega-se-lhes o direito ao trabalho e à subsistência; não se prendem os que condenam o Governo, fica mais barato obrigá-los a emigrar; não prendem os recalcitrantes, abandonam-se à solidão e ao desalento. Não se censuram os jornais, despedem-se jornalistas ou compram-se para assessores do Governo.

Apesar da fome, do desemprego, da angústia e da tragédia, o dia de hoje é um aviso aos que querem que os trabalhadores se rendam. Enquanto o PM arengou ao pequeno grupo de avençados, reunidos numa sala para lhe bateram palmas, apodados de trabalhadores sociais-democratas, a CGTP e a UGT, infelizmente separadas, mobilizaram para as ruas uma multidão que não está disposta a render-se.

Algures em Belém, tal como em S. Bento, apesar do desprezo pelos trabalhadores e da falta de coragem que ali mora, não pode ter deixado de se ouvir o eco de um povo que saiu à rua e recusa o suicídio.

Viva o 1.º de Maio.
Ponte Europa / Sorumbático

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