Cenas do segundo quartel do século XX (Crónica)


Cenas do segundo quartel do século XX  (Crónica)

A 5.ª classe do ensino primário, uma conquista da 1.ª República contra o analfabetismo herdado da monarquia, que o salazarismo havia de reduzir a três, foi um avanço cuja dimensão importa recordar quando, de novo, se pretendem aprofundar as desigualdades.

Foi com a 5.ª classe que o meu pai viajou para Lamego, uma das raras cidades que tinha um colégio, dirigido pelo padre João, onde, em regime de internato, era possível cursar os sete anos de escolaridade que faltava percorrer até à universidade.

Os liceus eram exclusivos das capitais de distrito e poucos aí chegavam. Mas não foi para falar das malfeitorias da ditadura salazarista, do regime de separação de sexos, da discriminação da mulher e de muitas outras aviltantes proezas da ditadura, que iniciei esta crónica. Foi para registar os tempos da transição do primeiro para o segundo quartel do século XX. Para escrever sobre pessoas que eram no século que foi.

O meu pai deve ter rumado a Lamego no ano de 1926. Voltava a Almeida nas férias do Natal, da Páscoa e no fim de cada ano letivo. Muito alto e magro, atingiu aos 16 anos, 1,85 metros, coisa rara para um português nascido no início da 1.ª Grande Guerra.

Numa das suas viagens, no fim das férias da Páscoa, ainda pré-adolescente, na primeira curva, depois de Vilar Torpim, a camioneta caiu. Nesse tempo não se pode dizer que as camionetas se despistassem, isso seria um privilégio de autocarros com amortecedores, motores potentes e capazes de grandes velocidades. A camioneta raramente ultrapassava os 20/30 km/hora e, na curva, aconteceu cair. Dessa vez, os vidros estilhaçaram-se e os garotos foram saindo pelas janelas que ficaram viradas para cima. O meu pai ficou na valeta a ouvir outros garotos a gritar, mamã, papá, avô, gritos lancinantes. O alarido era tal, que, no seu silêncio, julgou-se morto. Quando todos gritavam, o mutismo só podia ser de quem já era defunto. Quando o condutor o levantou teve consciência de que os estragos se resumiam ao fatinho.

Algumas dessas camionetas ainda aguentaram até à minha infância, veículos mistos que levavam passageiros à frente, até esgotarem os lugares, e as mercadorias e pessoas sem lugar, na parte de trás. A escada da retaguarda era um adereço obrigatório para levar o as mercadorias que sobravam para o tejadilho, normalmente as que resistiam à chuva.

Lembro-me bem de me separar dos pais para viajar entre as bagagens e pessoas que me acompanhavam. Parava-se a pedido dos fregueses e por causa dos furos. Os cravos que se soltavam das ferraduras das bestas penetravam os pneus e vazavam as câmaras de ar. Era breve a espera, entre dois furos, que os motoristas eram hábeis a remendá-los.

Tinha havido progresso pois os faróis já tinham substituído a luz do carbureto que uns anos antes irritava as pituitárias dos transeuntes e mal servia para indicar a estrada.

Em Almeida o primeiro carro de aluguer, parente próximo dos táxis atuais, foi um Ford do Zé Gouveia, que deixava a mulher a tomar conta da loja enquanto ia fazer um frete.  Uma vez demorou quase duas horas a percorrer os 14 km que separam Almeida de Vilar Formoso, sem qualquer furo ou avaria do motor. Teve o azar de ir atrás de uma carroça puxada por muares que, vinda da Junça, seguia à sua frente. Meio século depois ainda era motivo de gozo a maldita carroça que lhe impôs o andamento.

Ponte Europa /Sorumbático

Comentários

Bmonteiro disse…
Assim era o mundo dos nossos pais e avós.
Que já morreu e que faço por rever, mal, quando ali regresso, entre a Estrela-Açor Norte e a Gardunha-Maunça Sul, o meu "Va pensiero"
Também o nosso mundo, o que vivemos em Portugal 2ª metade séc XX, está a desaparecer.
O nosso mundo de até 2008-10, já não existe.
Em Portugal e Europa, a pagar por termos matado o Mandarim.
Eça, bem avisou "Não matem o Mandarim"
BMonteiro:

A campainha estava perto e o mandarim longe :(
José Batista disse…
Cenas comoventes, a um tempo realistas e sentidas. Um texto muito bonito.
José Batista:

Obrigado, Este texto foi também uma homenagem ao meu pai.
SLGS disse…
Um texto muito interessante e aqui deixo, por ele, os meus parabéns ao autor. Causou-me, no entanto, algum espanto o facto de a 5ªclasse subsistir no 2º quartel do século XX, porquanto:
- os meus pais, nascidos em 1914 e que completaram a instrução primária com 11/12 anos (1925/26)só fizeram a 4ª classe.
- um tio meu (irmão do meu pai) nascido em 1902, esse sim, fez a 5ªclasse por volta de 1913/14.
Não disponho de qualquer informação sobre as reformas do ensino na época e por tal peço as minhas desculpas pela ignorância, mas factos são factos e o que deixei relatado é real.
Os meus cumprimentos.
SLGS:

O meu pai nasceu em 1914. A 5.ªa classe esteve longe de ser levada a todo o país. A Grande Guerra e a crise que se seguiu impediu que muitos projetos da República ficassem pelo caminho.
ALGS:
(Apostila)

O facto de o seu tio ter nascido em 1902 vem confirmar a existência da 5.ª classe na República pois na idade de a frequentar já a República levava, pelo menos, 2 anos.
conquista da república, da que demitiu o único director do ensino primário reformista que Portugal teve desde Verney?

Agostinho de Campos 1905-1910....

inepta tal como a monarquia ..5ª classe ó que con quista
pois pá das minhas tias avós nascidas de 1889 até 1912...todas fizeram os primeiros anos de Lyceu e moravam todas nas brenhas, agora dos nascidos de 1916 a 1921 raros foram os que fizeram a 5.ª classe do ensino primário, se foi uma conquista da 1.ª República contra o analfabetismo herdado da monarquia, só os nascidos de 1922 a 1935 mês tios e tias é que chegaram a fazer o 5º e alguns mais se o salazarismo havia de reduzir a três, olha aqui na beira arraiana e na terra dos mouros nã se notou nada...
a república estropiou metade da família em guerras várias de 1917 até 1975...
a monarquia só matou uns analfabetos de 1800 a 1905 onde caiu o mais letrado nos dembos...
cê num pecebeu?

deve sere o al zheimer
carjaquim do PS?
AI ESTE século xxi começa mali

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