No 10.º aniversário da morte de Sophia

25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'O Nome das Coisas'

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Relembro outro poema, integrado no "livro sexto", publicado em 1962, quando "reinava" ainda o velho ditador Salazar:

O VELHO ABUTRE

O velho abutre é sábio e alisa
as suas penas
A podridão lhe agrada e seus
discursos
Têm o dom de tornar as almas
mais pequenas


Era precisa muita coragem para publicar isto em 1962!
e-pá! disse…
Devo confessar que a presença de Cavaco Silva e de Passos Coelho na transladação de Sophia para o Panteão Nacional me causa urticária...
As alterações imunitárias que me provocam coceira não passam por qualquer distúrbio decorrente da possibilidade de altos representantes do Estado estarem ausentes. O meu prurido assenta nas pessoas que, estando lá por inerência dos cargos que ocupam, nunca entenderam a 'poeta', aquela que desdenhava do termo poetisa.
As imagens da chegada do féretro ao Panteão transportaram-me para um gritante contraste entre a monumentalidade e o espaço cheio de 'gente vazia'.
Na verdade, 10 anos despois do seu desaparecimento físico, o povo que Sophia exaltou nos seus poemas ficou em casa deixando espaço livre para 'esta gente'...

Esta Gente

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia"

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