Li no excelente blogue De Rerum Natura , num post de Carlos Fiolhais , o seguinte: «De facto, o candidato a rei é autor de um opúsculo laudatório do Beato Nuno, onde se pode ler esta pérola: “Q uando passava de Tomar a caminho de Aljubarrota, a 13 de Agosto de 1385, D. Nuno foi atraído a Cova da Iria, onde, na companhia dos seus cavaleiros, viu os cavalos do exército ajoelhar, no mesmo local onde, 532 anos mais tarde, durante as conhecidas Aparições Marianas, Deus operou o Milagre do Sol» (“D. Nuno de Santa Maria - O Santo” , ACD Editores, 2005).»
Fiquei maravilhado com o que li e, sobretudo, por saber que o Sr. Duarte Pio escreve.
O Sr. Duarte Pio, suíço alemão, da família Bourbon, imigrante nacionalizado português pela conivência de Salazar e pelo cumprimento do Serviço Militar Obrigatório, podia emprestar a imagem às revistas do coração mas precaver-se contra a ideia de publicar opúsculos.
Claro que não é necessário saber falar para escrever e, muito menos, ...
Comentários
O VELHO ABUTRE
O velho abutre é sábio e alisa
as suas penas
A podridão lhe agrada e seus
discursos
Têm o dom de tornar as almas
mais pequenas
Era precisa muita coragem para publicar isto em 1962!
As alterações imunitárias que me provocam coceira não passam por qualquer distúrbio decorrente da possibilidade de altos representantes do Estado estarem ausentes. O meu prurido assenta nas pessoas que, estando lá por inerência dos cargos que ocupam, nunca entenderam a 'poeta', aquela que desdenhava do termo poetisa.
As imagens da chegada do féretro ao Panteão transportaram-me para um gritante contraste entre a monumentalidade e o espaço cheio de 'gente vazia'.
Na verdade, 10 anos despois do seu desaparecimento físico, o povo que Sophia exaltou nos seus poemas ficou em casa deixando espaço livre para 'esta gente'...
Esta Gente
Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis
Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre
Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome
E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada
Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo
Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia"