Nunca defendo o mal maior nem o bem menor

Quando Cavaco Silva fez a rodagem ao automóvel até ao Congresso da Figueira da Foz, preferia João Salgueiro à criatura que a ala direita do PSD tinha criado contra o último e Rui Machete, únicos com dimensão cultural e prestígio para a função. Marcelo, Júdice, Santana Lopes, Durão Barroso e Pinto Leite, combativos e organizados, experimentados na disputa entre Mota Pinto e Mota Amaral, conseguiram sempre o mais reacionário.

Recordo a saída de sendeiro de Cavaco Silva do Governo e a sua apoteótica do partido. Perante duas candidaturas, de Fernando Nogueira e Durão Barroso, apesar da distância que me separava dos protagonistas, preferia Nogueira, que Cavaco havia de torpedear. Compreende-se hoje a sua preferência por Barroso.

No CDS escolhia, certamente, Freitas do Amaral e não Paulo Portas, tal como no PCP elegia Carvalho da Silva e não Jerónimo de Sousa. Admito que na empatia, que não sei explicar, esteja subjacente alguma afinidade escondida a comandar a preferência.

No Bloco de Esquerda sempre reconheci em Francisco Louçã o melhor, apesar das contradições que minam os vários partidos que o habitam em união de facto.

No PS, preferi Zenha a Soares, e Soares acabou por se impor e tornar-se um elemento incómodo para o PS mas uma voz lúcida a quem acabei por dar razão, tardiamente. No último Congresso preferia Assis a Seguro. Talvez não fossem grandes as diferenças mas o currículo, a postura e a aparente autenticidade levavam-me a torcer pelo primeiro.

Quem está fora dos partidos corre o risco de cometer injustiças, de fazer avaliações sem ponderação, de se substituir aos militantes, e querer, sem o incómodo da participação, a vitória das suas preferências.

Pretendi manter-me neutro, nesta disputa interna do PS, onde qualquer dos candidatos é incomparavelmente mais capaz do que a triste invenção de Relvas e Marco António que Cavaco, no ódio ao PS, apadrinhou. Foi assim que Passos Coelho chegou a PM.

Ocorre que o partido com enormes probabilidades de designar o próximo PM, não pode escolher um líder para os avençados, mas um político para o País. Não deve protelar um processo de decisão nem refugiar-se em estatutos que só interessam aos militantes.

A situação no PS é confrangedora, com a agressividade, na luta pelo poder, que não pôs na defesa da honra e do passado do partido, depois duma oposição frouxa e de cedências que permitiram a chantagem reiterada do PR para fazer do PS um satélite do PSD.

O recurso ao voto de simpatizantes é, neste momento, uma manobra que adia decisões e degrada o ambiente interno do partido. Seguro, responsável da fuga a eleições urgentes, é culpado pela deterioração da imagem do PS e pelos prejuízos futuros para o País. Não lhe nego os méritos nem lhe atribuo a responsabilidade dos insultos dos seus sequazes a António Costa, a roçar a penúria ética e a arruaça, mas penso que lhe falta a dimensão política, experiência, carisma e determinação que sobram a este.

O aparelho do PS pode atrair os simpatizantes que quiser, escolher o líder que entender,  mas arrisca-se a ganhar o partido e a perder o país, a deixar esta direita no poder e a ser a comissão liquidatária do partido em que mais portugueses confiavam para desinfetar o Estado desta maioria, governo e PR.  Pelas provas dadas, prefiro Costa a Seguro.

Comentários

José Canteiro disse…
Caro C. Esperança,
Estou plenamente de acordo consigo e, curiosamente, ou talvez não, pelas mesmas razões que refere.
Abraço, JC
andanças disse…
finalmente amigo.. decidiu-se.. estava á espera para me decidir também, e decido-me no mesmo sentido
aquele abraço de admiração
Luciano leal
Obrigado, caros leitores.

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