Os impostos e a reprodução

Já vi cães a correr atrás de um osso que o dono lhes atirou mas não imagino um casal a despojar-se, em ânsias, dos atavios, para se dedicar à prossecução da espécie, ao ouvir na rádio que um filho, se houver êxito na tentativa, permitirá um desconto de cinquenta euros no IRS, e insistirem no ato porque ambicionam vinte euros de aumento no abono de família.

Em vez de suspiros de felicidade, pelo ato em si, na intimidade do tálamo, o casal pensa nos setenta euros, como um faminto num prato de sopa, e corre para o êxtase à razão de dez euros por minuto.

O amor não é a química entre dois seres que se amam e fazem filhos, é a análise de uma folha de Excel onde se fazem as contas dos ganhos à peça. Um filho deixa de fazer-se por gosto e passa a ser a justificação para uma avença de setenta euros mensais.

A natalidade não é uma equação em euros, a resolução do problema de aritmética cujo enunciado é redigido no ministério das Finanças.

O mistério da vida e a alquimia do amor são inacessíveis aos vegetais que nos governam e o pior é se enganam um casal de idosos que, na corrida à procriação, fratura ela o colo do fémur e ele faz uma luxação da anca.

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