As bruxas e a conspiração dos eletrodomésticos (Crónica)

O ano de 2001 não começou mal. O mês de janeiro não deixou cicatrizes no corpo nem no orçamento. Fevereiro era mês e 21 o dia quando a TV Cabo me deixou sem imagens.

Foram baldados os esforços para falar com qualquer colaborador. No Tel. 239-851050 diziam-me que o assunto era com a linha direta (808299499) que ao longo do dia esteve ocupada ou dirigida para um gravador onde aliviei a desolação.

Admiti que se encontrassem a seguir a imposição do barrete cardinalício a dois cardeais portugueses criados por Sua Santidade! Imaginei os funcionários genufletidos durante a bênção urbi e orbi de João Paulo II, a alegria de verem desfilar 44 barretes cardinalícios a caminho de igual número de cabeças de Suas Eminências, só não compreendia que os sublimes momentos tivessem sido recusados ao assinante que, em casa, aguardava o dia em que Portugal recuperou, de uma assentada, dois cardeais.

Perdi a promoção diretamente a cardeal do padre Avery Dulles, o único que ainda não era bispo, convertido do protestantismo ao catolicismo, bisneto de um presidente dos Estados Unidos e do fundador da CIA, filho de um secretário de Estado de Eisenhower.
Temi nunca mais ter a oportunidade de ver 152 cardeais juntos.

Perdi o brilho ímpar de 44 purpurados a desfilar na Praça de S. Pedro e o espetáculo da liturgia, certo de que nunca mais veria os milhares de devotos comovidos, sempre que a cabeça de um príncipe da Igreja recebia o colorido barrete, enquanto milhares de freiras e padres rezavam pela salvação do mundo.

Para ressarcir-me dos prejuízos materiais, os danos morais seriam irreversíveis, no dia seguinte pedi à TV Cabo uma cassete do tempo em que estive privado da programação integral das cerimónias de elevação a cardeal de 44 eminentes prelados e dos momentos mais significativos da atuação de Sua Santidade e dos altos dignitários do Vaticano.

Em resposta a tamanha adversidade, manifestada nos termos referidos, recebi uma carta, (ref.ª GCQ/224.01/NF, de 14-03-2001), do Eng.º Rogério Gomes, cuja inteligência e  humor, armas que sempre me derrotam, bastaram para esquecer os danos sofridos com o corte da emissão durante a consagração feita, de uma só vez, à maior caterva de cardeais da história da Igreja católica.

Transmiti logo a renúncia às exigências. A deceção fora, aliás, atenuada no dia 11, com a consagração de 233 beatos na maior beatificação da história da Igreja, que elevou para 471 as vítimas da Guerra Civil Espanhola beatificadas no pontificado de João Paulo II.

Dessa vez a TV CABO cumpriu, e esperei que não falhasse quando o Papa beatificasse a multidão de mártires piedosamente assassinados por Franco. Falhou o Papa.

Em abril começou a conspiração dos eletrodomésticos. Primeiro foi o aspirador, que já vinha dando sinais de cansaço, começou a fingir que aspirava e só fazia ruído, até exalar o último suspiro. Levei-o ao técnico e o diagnóstico foi demolidor. Entreguei-o para lhe fazer o funeral e comprei outro.

Depois foi o frigorífico, o congelador recusou congelar e o resto da capacidade regulou-se pela temperatura ambiente. Traiu-o, primeiro, a água que verteu e, depois, o odor que exalou ao abrir-se a porta do congelador. Aproveitou a noite e não teve cura.

Na casa de banho o radiador fundiu uma resistência e passou a debitar metade do calor. Na marquise a máquina de lavar roupa entrou em delírio com ruídos que acordaram o prédio e afastou-se do sítio reservado para a função, em trepidante deslise, até se deter contra uma grade de ferro e exalar aí o último suspiro durante a centrifugação.

Desse mês de abril salvou-se apenas o dia de todas as alegrias, o dia 25. O mês terminou com o aparelho de televisão, que censurou a criação dos cardeais, a recusar a ligação. Levei-a ao técnico que, após aturado exame, declarou que tinha dado o berro. Ainda lhe disse que não tinha ouvido o ruído, foi o cinescópio, foi à vida, esclareceu o técnico.

Entregou a alma ao criador, balbuciei, perante o seu assentimento. Claro que não creio em bruxas mas aquele mês de abril abriu a caixa de Pandora e promoveu a conspiração dos eletrodomésticos que se conjuraram contra o orçamento familiar.

Coimbra, 6 de julho de 2014    

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