Os liberais e os anarquistas

Os liberais só se distinguem dos anarquistas porque não dispensam a polícia e o recurso à repressão. Uns e outros odeiam o Estado e, sobretudo, qualquer limitação aos direitos individuais. Há ainda um pequeno detalhe a favorecer os anarquistas, não enjeitarem a solidariedade.

Miguel Cunha Duarte, distinto e influente liberal que, certamente, prefere Friedemann a Keynes, escreveu na minha página do faceboock um comentário coerente com a ideologia que professa, com toda a legitimidade. Não discuto a sua fé nem a preparação académica, mas julgo demasiado importante a economia para a deixar à solta nas mãos de gestores.

Comentando o meu texto, «O primeiro-ministro e o presidente do Banco de Portugal mentiram», escreveu o seguinte: «Carlos, não existe quem defenda a existência de um banco público? É evidente que se existe um banco público, que faz empréstimos às empresas, quando existe uma falência de uma empresa esse custo recai sobre o banco em questão» [sic].

Para além de não ser «evidente», é espantoso esquecer que foram bancos privados e a especulação financeira que estiveram na origem dos «lixos tóxicos» e os culpados da maior crise financeira das nossas vidas. Não foram os bancos públicos.

Os EUA não saíram da grande depressão com o liberalismo económico, mas impuseram ao Chile a receita que precisou do torcionário Pinochet. Bush Jr. deixou falir o Lehman Brothers, de acordo com a usa bíblia neoliberal, e esse bater de asas provocou um tufão financeiro no Planeta. O Tea Party prepara-se para reduzir à miséria os desgraçados a quem Obama quis dar um mínimo de proteção na saúde.

Não basta a Miguel Cunha Duarte, formado em gestão por prestigiadas escolas, ter uma fé inabalável no mercado, porque, ao verificar que os particulares gerem mal os bancos, dá como receita acabar com os públicos. Eu, que não sou gestor, penso que é altura de o Estado pensar na nacionalização dos privados, mas não serei utópico e pensar que possa acontecer num só país, sobretudo no nosso, tão exposto ao exterior.

O Miguel não deu uma solução, receitou um veneno. Não, obrigado.

Apostila: Tenho afinidades com o Miguel Duarte, que não vêm a propósito, e a simpatia que varia na razão inversa das convicções sobre a economia, em geral, e o sistema bancário, em particular. Cabe aos leitores a opção na altura de exercerem o voto.

Comentários

Andre Esteves disse…
Coitados dos anarquistas.. Têm umas costas muito largas...

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