O Instituto para as Obras Religiosas (IOR), a máfia, os negócios e a santidade

O Banco do Vaticano, conhecido pelo pseudónimo de IOR, foi criado pelo quase santo Pio XII, com o pretexto de guardar esmolas das caixas e de outros recipientes pios onde os donativos, de quem queria lavar a alma, chegavam em quantias avantajadas.

Foi o papa Paulo VI, decidido a escapar ao cerco fiscal do Governo italiano, que exigiu “o pagamento de todos os lucros retroativos sobre investimentos, o que ultrapassava mil milhões de euros atuais”, que começou a expatriar grandes quantias de dinheiro do IOR.

Foi auxiliado pelo devoto banqueiro siciliano Michele Sindona, que controlava o envio de capitais da máfia, e pelo arcebispo Marcinkus, banqueiro de Deus. Sindona, dirigente do banco suíço Finbank e da Banca Privata Italiana, e Marcinkus controlaram “a mais maciça das exportações de capitais jamais ocorrida aos subterrâneos do Swiss Bank, em parceria com a Santa Sé”. Alargada a rede, Sindona e Marcinkus associaram ao tráfico outro banqueiro, Roberto Calvi, do Banco Ambrosiano.

Preso na prisão de alta segurança de Voghera, Sindona prometeu fazer revelações, mas morreu na sua cela, ao ingerir distraidamente café com cianeto de potássio. O inquérito sobre a morte concluiu que se tratara de suicídio. Deus não dorme.

Roberto Calvi suicidou-se, enfiando o pescoço no laço de uma corda dependurada numa ponte de Londres, suicídio que, após exumação, 16 anos depois, se demonstrou ter sido por estrangulamento em um terreno baldio, perto da ponte onde foi encontrado, e depois pendurado para simular o suicídio.

Na fraude do Banco Ambrosiano participou também Licio Gelli, que combateu ao lado de Franco, enviado por Mussolini, e foi informador da Gestapo na 2ª Guerra Mundial. Este amigo de Hermann Goering, tornou-se conhecido pelo envolvimento nas mortes de Aldo Moro, "Mino" Pecorelli, Roberto Calvi, João Paulo I e outros, além de numerosos comunistas. Acabou em prisão domiciliária, decerto dedicado à oração e à penitência.

Não se sabe se Deus existe e se perdoa, mas a máfia não desculpa, por maior que seja a devoção ou a generosidade pia dos padrinhos. Não surpreendeu, pois, que o arcebispo Marcinkus, reclamado para ser julgado em Roma, fosse protegido por João Paulo II, que negou a extradição pedida, evitando ao dileto a prisão e a si próprio alguma indiscrição que lhe dificultasse a canonização.

Há alguns meses, Francisco, o primeiro papa a ir ao coração da máfia calabresa, ousou enfrentá-la: “Aqueles que durante a vida escolheram a via do mal, como os mafiosos, estão excomungados”. A atitude inédita do papa, inverteu a política do IOR, sob pressão internacional, e perdeu provavelmente os melhores clientes.

A suspeita de que a Igreja católica beneficiou do ouro que os assassinos em série croatas roubaram às vítimas judias e sérvias possa ter ido para o Vaticano mantem-se graças à recusa em permitir o acesso aos seus arquivos, ao contrário do que fez o Governo Suíço, em relação aos seus bancos. A determinação do atual papa, em subtrair ao crime o IOR, pode esclarecer a suspeição referida, que se mantém sobre o offshore do Vaticano.

Ponte Europa / Sorumbático

Comentários

e-pá! disse…
O enigma é onde se 'encaixa' o novo director do Banco do Vaticano, o empresário francês Jean-Baptiste de Franssu.
Para já são conhecidas as suas ligações à Opus Dei, através de Vallejo Balda, conhecido membro da 'obra', mas sendo o papa jesuíta há qualquer coisa que não bate certo (embora o dinheiro não tenha facções).

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