Uma insondável tempestade helénica …

A Europa desde há meses que cultiva um preocupante estado de entorpecimento.
O Conselho Europeu, continua a apostar na continuidade nas soluções de emergência prévias, vazias de estratégia, que se resumem a um cego e obstinado cumprimento do Tratado Orçamental e a infindáveis ‘reformas estruturais’ e este caminho mostra que opções cada vez mais eivadas de indefinições, subterfúgios e fugas à realidade, (re)lançaram a Grécia na arena dos mercados e o rugido dos ‘leões’ da especulação já é  bem audível. Trata-se de uma penosa rota de regresso a 2010 quando começou o ‘ajustamento’ grego, iniciando-se, deste modo, um infindável círculo vicioso, impossível de gerir politicamente (e democraticamente) link.

As ‘yields’ gregas a 10 anos aproximam-se vertiginosamente dos 2 dígitos (8.22%), tendo contagiado de imediato quase todos os países periféricos (Portugal, Espanha e Itália). A perspectiva de uma nova crise da dívida ensombra a Europa do Sul já que, considerados esses níveis de juros, a Grécia está – na prática - impossibilitada de financiar-se nos mercados financeiros e o contágio aparece como inevitável.

A Grécia, no terminus do seu 2º. resgate, não tem capacidade financeira e económica para uma saída ‘limpa’ da intervenção externa e é confrontada com a ‘necessidade’ de um novo programa de ajudas (seja um programa cautelar, seja um novo resgate). Independentemente do conceito espúrio de ‘saída limpa’, circunstância enigmática e de contornos indefinidos que os portugueses há bem pouco tempo debateram e ainda permanece no nosso inconsciente colectivo o leque de soluções vindas da Europa e das instituições internacionais que mereçam o beneplácito dos mercados está, perigosamente, a estreitar-se.
O beco sem saída para aonde a Grécia está a ser empurrada é um gritante libelo para avaliar da qualidade, dos meios e fins dos denominados ‘programas de resgate’ engendrados por instituições financeiras internacionais e europeias para os países em dificuldades financeiras, decorrentes de ancestrais fragilidades de desenvolvimento que a moeda única veio agravar.

O FMI insiste num programa cautelar que dê conforto ao financiamento grego, não sendo explícitados os custos dessa medida o que torna o futuro da coligação de Antonis Samaras muito periclitante.  
Por outro lado, a Bloomberg News link revela que as próximas eleições poderão levar o partido Syriza ao poder que, defendendo a renegociação das dívida e a reversão de algumas das reformas impostas pela troika, rebentarão estrondosamente com toda a estratégia que vem sendo desenhada por Berlim para a Zona Euro.
A par da deflação que grassa na Zona Euro a ameaça grega tem de ser considerada como uma questão europeia da maior importância não valendo de nada dichotes do tipo “…nós não somos a Grécia!”.

A última reunião do Conselho Europeu (26/27 de Junho 2014) passou olimpicamente ao lado destes problemas porque esteve ocupada em 'jogos políticos' para a nomeação do presidente da Comissão Europeia. A próxima a realizar em 26/27 de Outubro não deverá ser diferente. Esta a postura habitual do Conselho quanto à previsão de cenários evidentes e eminentes. Depois vêm as ‘soluções drásticas’ e as 'recriminações abusivas', quando não as ameaças de exclusão. Só que seria importante ter a noção de que a Europa está à beira da exaustão, i. e., manifestamente cansada e incrédula!

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