Valls ou os ventos da Gália…

O que se passa em França sempre interessou e influenciou Portugal. Embora recentemente a sua influência tenha sido debilitada pelos novos tempos da globalização a França, quanto mais não seja pela Revolução Francesa, sempre teve um papel relevante e marcante na cultura e na política nacional. Trata-se de um facto que remonta à origem da nossa nacionalidade, isto é, à disnastia dos Borgonha.

No século XIX verificou-se o apogeu dessa influência subsidiária da literatura, das artes e no campo político com o advento do liberalismo. No campo do socialismo, dito utópico, são vultos da cultura francesa como Saint-Simon, Fourier e Proudhon que o pensam, divulgam e lhe conferem credibilidade. Embora a evolução do socialismo – do utópico ao científico – tenha de certo modo escapado ao redil francófono, nomeadamente Engels que a par de Marx influenciará determinantemente o seu percurso, será através de editoras francesas (com o tradicional atraso de ‘incorporação’) que o mesmo ‘chega´a Portugal.

O enorme acontecimento político que foi a Comuna de Paris, isto é, um dos factos históricos relevantes da construção ideológica do socialismo já que, esse momento revolucionário, acabaria por revelar ao Mundo a primeira experiência de um governo popular que, muito embora tenha sido um episódio efémero, marcou o percurso histórico da evolução política contemporânea.

Mais recentemente, no pós-guerra não sendo o prévio e único precursor é o socialismo (provavelmente as políticas sociais nascem na esteira da ‘grande depressão’/anos 30), e muito especialmente a social-democracia, o veículo revelador do chamado Estado social (ou de bem-estar social) que marcou na Europa a segunda metade do século XX (e ainda hoje é invocado por muitos políticos).
Desenganos e insucessos como foram os regimes comunistas de Leste subsidiários de erros  e desvios totalitários e de uma nomenclatura dirigente que adoptou o autoritarismo como modelo de governação interna fizeram esboroar, no final do século passado, o processo socialista em curso na ex-URSS não apagam, nem afectam, este relevante percurso. A 'revolução de Outubro' não pode ser excluída da história do socialismo.

Bem, o lastro histórico é imenso e impossível de abarcar num post.

As declarações de Manuel Valls sobre uma putativa ‘renovação da Esquerda’ girando à volta de um incensado ‘pragmatismo’, do ‘reformismo’ e do ‘republicanismo’ link não contêm nada de inovador para além de serem (mais) um insulto à História. As afirmações de Manuel Valls são repugnantes porque, na verdade, o clamor pela ‘morte das ideologias’ costuma soprar de outras bandas.
De facto, não há política sem causas e essas entroncam-se em conceitos ideológicos e nunca em atitudes instrumentais (pragmáticas, de eficácia ou outras). A morte das ideologias emparelha um pouco com uma outra ideia (lá estão as ideologias) que é o fim da História (Fukuyama). Nada mais se pretende com estas mistificações do que ‘justificar’ o capitalismo neoliberal denegrindo a concepção dialéctica que continua a ser o instrumento de análise decisivo na compreensão da organização política e social dos povos. A defesa do ocaso ou da morte das ideologias abre, efectivamente, o caminho a todo o tipo de oportunismos mas não traz nada de esclarecedor e muito menos de renovador. Trata-se pura e simplesmente da 'sacralização' dos mercados que são convocados para 'assassinar'  ideais democráticos que marcam a Idade Moderna (Liberdade, Igualdade e Fraternidade).
Quando alguém aparece a fazer ‘strep-tease’ das ideologias (anunciando o seu ocaso ou o seu fim) certo e seguro que, para não morrer desamparado (despido) e enregelado pela frieza da eficiência, estará próximo de vestir outra indumentária (ideológica).

Manuel Valls ao pretender ‘refundar’ (conceito muito caro à Direita) o socialismo por caminhos ínvios prejudica muito mais a causa da Esquerda do que esclarece ou ultrapassa a óbvia confusão que por este espaço político grassa no período de crise mundial que tanto marca a Europa.
Teve - na entrevista concedida ao Nouvelle Observateur como resposta a Martine Aubry - uma intervenção que pretendeu ser desabrida mas não mostrou coragem suficiente para declarar-se naquilo que realmente se tornou, isto é, num fervoroso adepto do ‘socialismo liberal’. O medo de ser explícito levou a querer eliminar a palavra ‘socialismo’ mas, pelo contrário, a sua filia pelo conteúdo ‘liberal’ na sua ‘inovadora’ (neo) expressão, infesta todas as suas declarações.

Ao lermos o texto percebe-se quais as razões remotas do declínio da França. E ficamos com a certeza que elas não se confinam a Marine Le Pen. Existem outros ‘artistas’ que estão a dar um inestimável contributo. Há uma coisa que parece nítida: o socialismo não aguenta dois (ou vários) Tony’s Blair’s…

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