Ainda a propósito do ‘caso Skripal’…

A saída pretensamente airosa dos sarilhos onde Theresa May e Donald Trump estão a meter os seus países poderá ser o prelúdio para uma guerra branqueadora das respectivas mediocridades que, diariamente, são patenteadas no ‘Brexit’ e no ‘american Russiagate’.
O mundo assiste atónito a este descalabro travestido de uma insana russofobia que alberga no seu âmago várias incompreensões e outras tantas dúvidas. Este o pressentimento coletivo subjacente e que, neste momento, alimenta a crise política internacional em curso.

O risco de uma escalada é enorme parecendo cavalgar maus pretextos, provavelmente um poderoso embuste informativo em muitos aspetos semelhante ao da invasão do Iraque. Serve, objetivamente, a situação política interna britânica decorrente do Brexit e, paralelamente, a confusão americana instalada à volta das suspeitas relações do staff eleitoral de Donald Trump com a Rússia (em investigação).

O ‘caso Skripal’ tem todos os ingredientes para ser interpretado como um incidente provocatório ‘cozinhado’. Dificilmente  será um perigoso e grave ataque à soberania do Reino Unido, país acolhedor de um ex-espião russo de cuja duplicidade beneficiou durante anos.

Continuam sem merecer cabais explicações um conjunto de ocorrências e sobressaltos que, apesar da sua volatilidade, contaminam perigosamente o ambiente político internacional.
Na realidade, perante a consumação de um crime, isto é, a tentativa de assassinato de um cidadão (e da sua filha) com agentes químicos, interessa – em primeira abordagem - saber qual poderá ter sido o ‘móbil do crime’.

Será pouco convincente imputar às autoridades russas a autoria do incidente já que teve o sujeito vítima do crime aprisionado por largo tempo e dispôs de todas as oportunidades para – paroquialmente - o neutralizar. Esta constatação não exclui que membros da polícia de segurança russa (GRU) não tivessem contas a ajustar com o ex-espião Skripal. Várias centenas de agentes russos foram denunciados por Skripal ao MI6 que, devido a estas denúncias, viram a sua segurança pessoal e carreiras nas forças de segurança, altamente comprometidas. Não parece podermos excluir que, no ‘mundo da espionagem’, tão pródigo em vindictas e 'soluções extrajudiciais', possam existir desforras pessoais ou individuais, à revelia de razões de Estado. Todavia, antes de um cabal esclarecimento são essas (más) razões que são perentoriamente aduzidas e esgrimidas na praça pública.

Uma outra incongruência é o calendário da condução dos acontecimentos. Uma vez levantada a suspeita de que o ex-espião Serguei Skripal e a sua filha Yulia tinham sido vítimas de ‘envenenamento por químicos’, segundo os relatos divulgados na imprensa a 4 de março, protelou-se a entrega das investigações à entidade técnica adequada que teria competência e independência para tal – a OPCW (Organization for the Prohibition of Chemical Weapons). O primeiro passo ‘internacional’ dado pelo Governo da Srª. May foi ‘político’, isto é, apressou-se a convocar, para o dia 14 de março, uma reunião do CS da ONU que de antemão sabia ser infrutífera (a acusação recaía sobre um membro permanente do CS/ONU com direito a veto).
 
De concreto, sabemos que os técnicos da OPCW só tiveram acesso a este caso 15 dias após a ocorrência (dia 19 de março). No espaço de 2 semanas tudo é possível desde o apagar de pistas à introdução de despistes como sejam manobras e factores de diversão e, ainda, de camuflagem ou adulteração dos factos indiciários ou ocorridos. Custa a crer que, quer o Governo de Sua Majestade, quer os serviços de segurança britânicos, tenham cometido este deslize.

A demora entre o incidente e a chamada de uma entidade técnica independente (OPCW) compromete irremediavelmente a credibilidade das acusações. Uma coisa serão as convicções e os interesses da Senhora May, outra será o desproporcionado alarido à margem das provas e das evidências confirmáveis.
É neste ponto que nos encontramos.

Comentários

Jaime Santos disse…
Convinha lembrar que as investigações foram levadas a cabo pela polícia e pelas demais autoridades britânicas e não pelo Governo de May. A separação de poderes poderá ser meramente informal no modelo constitucional britânico, mas tem sido sempre respeitada à risca.

Convém distinguir o que é uma investigação judicial que tem lugar num País soberano. que calha de ser a mais antiga democracia parlamentar do mundo, de uma investigação dos serviços de espionagem sobre a posse de ADM por um outro País, que recorreu (necessariamente) a fontes bem menos fidedignas.

Espero que não queira sugerir que todos os serviços de segurança do RU envolvidos alinharam numa mistificação só para salvar a pele do PM do momento...

Depois, faz-me espécie que venha colocar em causa a 'qualidade' das vítimas... Skripal pode ser um ex-espião e um traidor ao seu País de origem, mas uma execução extra-judicial é sempre um assassínio, ponto final. E a sua filha, a quem pelos vistos colocaram o veneno na bagagem, é uma pessoa inocente, assim como os demais civis atingidos (sem igual gravidade, felizmente).

E repare que não se trata de uma execução recorrendo à eliminação só daquela pessoa, mas podendo pôr em risco a segurança coletiva. Se a responsabilidade for (e isto está por provar) do governo da Rússia, trata-se de um ato de guerra, ponto.

Se o agente é de facto proveniente do arsenal russo ou soviético (e os britânicos parecem acreditar que há uma elevada probabilidade disso) mas caiu em mãos erradas, a Rússia deveria assumi-lo e pedir desculpa, indemnizar as vítimas e perseguir os culpados... A resposta, em larga medida simbólica, de expulsar diplomatas representa tudo menos uma escalada... É um mero aviso ruidoso (sendo que certas personagens como Boris Johnson já provaram quão ridículas são).

Quanto a uma explicação para esta ação, acho que há algumas boas. Mostrar a fraqueza do RU agora que se prepara para o Brexit (ou nem por isso), tornar Skripal um exemplo (fazes o que ele fez e apanhámos-te e à tua família mais tarde ou mais cedo, a omertá da Mafia, se quiser), ou muito simplesmente, alguém fez isto porque pensou que poderia escapar sem consequências para si (o que é um facto)...
e-pá! disse…
Jaime Santos:

'Soluções extrajudiciais' (é assim que está no texto) não são o mesmo que 'execuções extrajudiciais'. As 'trocas de espiões', um dos exemplos mais frequentes nestas situações, têm por pano de fundo razões político-diplomáticas (não são propriamente 'emanações judiciárias').

Por outro lalo, a investigação policial é uma das vertentes, não tão autónoma como parece à primeira vista, e a tutela (política) da Primeira-Ministra e do Ministério do Interior não será propriamente desprezível.

Sobre a soberania interna convinha recordar que foi o Reino Unido que começou por 'internacionalizar' o problema quando convoca uma sessão extraordinária do CS da ONU. Ora não parece muito ortodoxo internacionalizar um problema e (res)guardar as informações (colhidas ou em curso) sob o manto protector da soberania. A situação tem algum (remoto)paralelismo com o atentado de Sarajevo quando os sérvios não aceitaram a interferência na investigação do Império Austro-Hungaro...
Sabemos hoje quais forma as consequências dessa atitude.

Finalmente, o laboratório cientifico inglês (Porton Down) que estará a estudar o agente utilizado não é tão taxativo quanto o Governo na identificação e imputação do agente químico em causa e julgo que será ainda mais indefinido quanto à sua origem. Interessaria saber onde e em que países poderão existir reservas ou armazenamento de produtos identificáveis como 'novichoc class nerve agent or closely related agent'. A resposta a esta questão não poderá ser endossada ao Sr. Boris Johnson e caberá à OPCW (Organization for the Prohibition of Chemical Weapons) definir - tecnicamente e de modo independente - o contexto global.

Um excelente artigo da autoria do Major-General Carlos Branco publicado no Expresso sob o titulo "O caso Skripal e as dúvidas que ainda subsistem" link levanta um rol de questões em aberto que o Governo de Sua Majestade está longe de ter respondido...
Manuel Galvão disse…
Quando a Rússia ou o UK ou os USA querem matar alguém fora do seu território, simplesmente contratam um mecânico que executa o trabalho, sem deixar rasto. Ou mandam um agente especializado fazê-lo.

Todo esta história cheira a esturro... cheira a torres-gémeas, isto é, manipulação da opinião pública, justificação antecipada de medidas incompreensíveis que são consideradas necessárias tomar, mas que cujos verdadeiros motivos são inconfessáveis.

Nem os norte-americanos nem os ingleses - a opinião pública - estão dispostos a pagar mais dos seus impostos para que os seus jovens vão combater no lamaçal da Síria. A Rússia e Assad ganharam por falta de comparência...

De resto todo o ocidente anda atrás dos prejuízos que a globalização lhe está a trazer. Promoveram a dita cuja e agora estão a ver que não é assim uma ideia tão boa com lhes pareceu ser...
Jaime Santos disse…
Não se escude na formulação. Falou de 'soluções extrajudiciais' entre aspas juntamente com vinganças. Se se expressou mal, peça desculpa senão, assuma o que disse...

Mas o meu comentário não tem a ver com isso. O e-pá não disse que aprovava a execução. Tem a ver, isso sim, com uma declaração como 'Dificilmente será um perigoso e grave ataque à soberania do Reino Unido, país acolhedor de um ex-espião russo de cuja duplicidade beneficiou durante anos.'

Não, não é apenas um perigoso e grave ataque. Se a responsabilidade fosse da Rússia, seria um ato de guerra. Não foram apenas os Skripal as vítimas e elas já são de lamentar, independentemente das avaliações de carácter que façamos do pai (e que são completamente espúrias em face da gravidade do caso, note-se).

Quem quer que fez isto colocou em risco a vida de muitos civis britânicos e foi uma sorte que mais ninguém tenha sofrido muito com isso (mas o detetive exposto ao agente químico precisou de tratamento hospitalar).

Quer dizer, alguém usa um agente neuro-tóxico no meu território e se eu convocar o CS perante a gravidade de tal ação tenho que abdicar da soberania? Onde é que o direito internacional obriga a tal coisa? O meu caro não está a falar a sério.

Acho até que o RU está a ser particularmente transparente ao permitir a OPCW pronunciar-se sobre isto. Até porque um inquérito judicial desta natureza certamente que envolve uma boa dose de segredo de justiça.

Se fosse entre nós, as conclusões preliminares já estariam publicadas no CM...

Estou farto da conversa da russofobia. As reações são meramente simbólicas. Macron manteve a visita à Rússia e Merkel prepara-se para aprovar o gasoduto Rússia-Báltico. Acha que é daqui que vai começar a Terceira Guerra Mundial?

Putin não é flor que se cheire e episódios como o do submarino Kursk ou do ataque ao teatro onde estavam reféns com gás que matou toda a gente mostram que a Rússia é pródiga a meter a pata na poça. Era pois necessário um sinal... Foi isso que se fez. Tão só...

O resto não passa do arrancar de vestes de parte a parte do costume, que tem laivos de ridículo...
e-pá! disse…
Jaime Santos:

Quando escrevi 'soluções extrajudiciais' queria - exatamente - não delimitar a questão às execuções. Peço desculpa mas não existe outra interpretação. O facto de estar no mesmo paragrafo do que 'vinganças' só significa que foi concebida como sendo uma postura distinta.

Quanto ao resto existem (e vão persistir) conceções e avaliações divergentes. Não vale a pena continuar a chover no molhado.
Tenho por certo que o tempo esclarecerá o 'caso Skripal'.
Jaime Santos disse…
Não sei se o caso Skripal terá um esclarecimento. Se a responsabilidade foi da Rússia e o RU dispõe de provas sólidas, espero que as não revele e que fiquemos por aqui. Porque aí, sim, então tínhamos o caldo entornado.

Muito bem, está esclarecido, não queria falar apenas de execuções. Mas também não as excluiu da sua formulação (o que não quer dizer que as aprove, já sei).

Mas, repito, o meu problema com as suas declarações não tem a ver com essa expressão em particular e sim com a ideia de que como o RU protegeu um espião, não se pode agora queixar de um grave ataque. Será que diria o mesmo se algo tivesse acontecido à espia (Anna Chapman) trocada por Skripal na Rússia? Claro que não diria.

Infelizmente, talvez por causa do que se passou durante a guerra do Iraque, parece que há muitas pessoas insuspeitas de simpatias por ditaduras que estão prontas a dar o benefício da dúvida a Putin, mas não ao Ocidente, o que é terrível. Convém não esquecer que a Rússia nem sequer é uma democracia no sentido que o RU é. E convém também lembrar que nestes conflitos não há inocentes.

Mas isso não quer dizer que tudo (em particular operações que colocam em risco ou mesmo sacrificam inocentes) sejam aceitáveis.

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