Marcelo ou um Presidente que vai nu…

"...Temos de ser capazes de fazer chegar à sociedade portuguesa a seguinte mensagem: ninguém é feliz ou pode ser feliz fingindo que não existe pobreza ao seu lado. Ou, dito de outra forma: é uma vergonha nacional sermos, em 2017, e agora já em 2018, das sociedades mais desiguais e com tão elevado risco de pobreza na Europa. Eu tenho vergonha"...
Marcelo Rebelo de Sousa, numa sessão sobre Pobreza, na Fundação Calouste Gulbenkian, em 21.03.2018 link.
 
Senhor Presidente: todos temos vergonha da pobreza que nos cerca e, pior, medo de virmos a engrossar a fileira dos pobres, dos ‘miseráveis’ e dos ‘excluídos’.
Todavia, essa vergonha não deve envolver os pobres como uma entidade subjetiva e alegórica. Uma coisa é a pobreza enquanto praga social que misericordiosamente nos comove, outra coisa será os mecanismos que empurram diariamente os cidadãos para essa iniquidade. Os pobres existem, estão ao nosso lado no dia-a-dia e, na realidade, estão para ficar. Não existem mecanismos disponíveis (políticos, económicos e sociais) para que os que caíram na maldição da pobreza saiam desse estado.
 
Interessa saber porquê?
 
A tirada de Marcelo é mais uma piedosa, talvez, um ‘cristã’, constatação ou, melhor, um ‘estado de espírito’, pretensamente solidário e humanista completamente deslocado da realidade (onde estamos inseridos). Pior, tentando perverter a realidade.
Trata-se de mais uma utópica manifestação de uma constante e ambígua aposta na concertação da social, instrumento que o PR usa e abusa para a resolução de questões de sistema ou até de regime. Em primeiro lugar, é preciso entender que a pobreza é uma questão de sistema. Está visceralmente ligada ao modelo capitalista.
O regime de trabalho assalariado - como está definido no sistema capitalista nas relações de trabalho, de produção e de distribuição - gera necessariamente desigualdades, como denunciaram os pensadores políticos, já no século XIX.
 
O nosso Presidente sabe – porque tem cultura política bastante - que é assim.
Então porque razão aparece a mistificar o problema fulcral debaixo da vacuidade e ambiguidade de uma mirífica concertação de interesses tão divergentes?
 
A arenga de Marcelo na Gulbenkian é uma insuportável mistificação. Considerar que no atual sistema (capitalista) todo o cidadão que trabalha e produz riqueza sai (ou poderá vir a sair) da pobreza é uma pura aleivosia. O 'american way of life' tão incensado como modelo político-social (liberal) criou, lado a lado, um restrito grupo de multimilionários a par de um gigantesco exército de deserdados (que não para de aumentar).
 
A insidiosa retórica de Marcelo Rebelo Sousa tenta, também, transmitir a falaciosa ideia de que os presentes mecanismos políticos, económicos e sociais (existentes no 'Mundo global') são equitativos e justos. Que o problema da pobreza foge à (in)justiça (re)distributiva (da riqueza criada pela venda da força de trabalho).
Os ‘ciclos de privação’, isto é, os rituais de sacrifícios cíclicos peças evolutivas do edifício (sistema) político capitalista são 'amparados' socialmente pelo misticismo das religiões (todas!) que prometem compensar as paupérrimas condições de vida terrenas com promessas de um ‘paraíso’, a concretizar num outro Mundo.
 
Certamente que os portugueses dispensariam ao seu Presidente verborreias místicas, afetivas e fúteis deste tipo. Não esperam deste o protagonismo para uma revolução do sistema político que, tendo em vista o conhecido posicionamento político e ideológico de Marcelo Rebelo de Sousa, seria uma fantasiosa aberração.
 
Os portugueses esperam que o Presidente faça o que tem obrigação de fazer. Que cumpra e faça cumprir a Constituição da República.
No texto fundamental da Republica estão inscritos os mecanismos a desenvolver para combater a pobreza e as desigualdades. Estão aí os equilíbrios necessários e os caminhos (que não têm sido trilhados).
Uma outra coisa será aquilo que se pode designar como ‘piedosas comiserações’. Estas últimas são pessoais (os ditos 'estados de alma') e devem ficar confinadas ao remanso doméstico, aos templos, aos altares, às sacristias, aos claustros e outros locais de culto (religioso).
 
Por outro lado, existe uma atitude básica que um Presidente da República não deve violar. Tentar ‘tapar o sol com a peneira’ e, simultaneamente, apresentar-se como sendo um paladino da justiça e igualdade.
Porque corre o risco de mimetizar o descrito no velho conto de Hans Christian Andersen que ficou conhecido pelo jargão : ‘o rei vai nu!’.

Comentários

Cristina Matos disse…

OK, Carlos.

João Pedro

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