A NATO e as suas circunstâncias…

O ‘Ocidente’ está nas comemorações dos 70 anos da NATO tentando 'cozinhar' argumentos para justificar o reforço e expansão desta aliança político-militar.

Quando, em 1949, foi criada a NATO, o Mundo era substancialmente diferente do actual e esse facto parece estar ausente das discussões sobre a pertinência – e permanência - da organização que, no presente, as ‘comemorações’ parecem levantar.

Duas situações convergem, de modo determinante, para esta mudança e não podem ser linearmente ocultadas ou contornadas. A primeira diz respeito ao fim da época colonial – consequência do desfecho da II Guerra Mundial - que veio alterar equilíbrios mundiais.
Na verdade, a Europa, devastada pela guerra, viu, com a perspectiva descolonizadora, ser afastada da centralidade do mundo. Nascem, com o fim da guerra, outros equilíbrios e, como expressou de forma literária Churchill, desceu uma ‘cortina de ferro’ sobre o velho continente europeu, tradução da divisão do mundo em duas polaridades: uma a Ocidente, genericamente agregador dos regimes liberais e outra a Leste (ainda aquém do Oriente) de influência socialista ou, se quisermos, comunista.

O ‘Ocidente’, política e militarmente, deixou de coincidir com a Europa Ocidental e colocou-se sob a dominância de uma ‘Aliança Atlântica’, onde os EUA imperavam de uma maneira absoluta e impõem os seus interesses nacionais no domínio comercial e industrial.

Além do poderio militar americano - que foi sendo aceleradamente desenvolvido desde o Tratado de Versalhes (1919) - a decisiva e determinante participação das forças americanas no desfecho da II Guerra Mundial (que conduziram à derrota do nazi-fascismo), conferiram, aos EUA, força política com traços hegemónicos e, mais, a oportunidade de reforçar a sua liderança no seio desta Aliança que foi paralelamente consolidada na Europa com o ‘Plano Marshall’ (1947-51).
Esta sucessão de factos viria a determinar, de seguida, a submissão da estratégia ‘comum’ europeia (alguma vez existiu?) aos interesses norte-americanos, frequentemente apresentados aos cidadãos europeus como sendo a ‘opção ocidental’, civilizacional e veículo de pacificação.

Em 1955, isto é, 6 anos depois da constituição da NATO, surge o ‘Pacto de Varsóvia’ que agrega os Países do Leste – capitaneados pela URSS – como resposta à situação criada pela NATO e veio trazer às relações internacionais uma certa ‘détente’ como um instrumento de equilíbrio e regulação das frissons belicistas (pontuais ou regionais) que, aqui e acolá, foram surgindo ao longo da 2ª. metade do século XX.

Para além desta dualidade pouco ou nada existia. O China, no período imediato pós-guerra, estava ocupada na consolidação do regime maoísta, foi profilaticamente isolada do Mundo e não tinha voz no concerto das nações sendo representada neste areópago internacional pela Formosa (Taiwan). Outras nações do contexto oriental que hoje consideramos ‘emergentes’ como, p. exemplo, a Índia, também não tinham qualquer influência nas decisões da política internacional.

No final do século passado – finais da década de 80 - dá-se a implosão política do bloco de Leste e, em 1991, o Pacto de Varsóvia seria dissolvido, sucumbindo perante uma nova realidade geoestratégica, resultante de um anunciado fim da 'Guerra Fria'.
Tudo mudou, menos a NATO que viu na mudança uma oportunidade para se expandir, a contrapé, de uma nova evolução das condições de segurança mundiais.

É sobre essa nova realidade, complexa, evolutiva e geradora de novos equilíbrios que a NATO foi chamada (levada/empurrada) a intervir em múltiplos conflitos regionais. Destas experiências deveriam ser feitas avaliações sobre a pertinência da Organização ou, pelo contrário, da sua linear dispensabilidade.
Os exemplos da ex-Jugoslávia, do Kosovo, a intervenção no Afeganistão, a balburdia das ‘primaveras árabes’ (nomeadamente na Líbia), os conflitos regionais no Médio-Oriente (Iraque, Síria, entre outros) são suficientes relevantes e didáticos para justificar uma reflexão que vá para além do desejo imediatista de ‘continuidade’.

Hoje, é difícil compreender a existência desta Aliança a não ser como um braço armado de uma conjuntura liberal que domina(ou?) o panorama internacional. E a necessidade de repensar a questão tornou-se imperiosa, quando os regimes liberais – sob a complacência da Esquerda, nomeadamente a social-democrata – se tornaram cúmplices de uma deriva populista de Direita em franca expansão.
Dotar os populistas – de que Trump será o mais notório exemplo – de um braço armado capaz de impor a sua progressão pelo Mundo não será avisado e conterá no seu âmago uma latente ameaça contra a Paz.
O reforço da NATO está a ser congeminado – nomeadamente pela atual Administração norte-americana - à custa do ‘esvaziamento’ da ONU.
Não parece ser uma grande opção, nomeadamente quando a ameaça de terrorismo campeia pelo Mundo.

Hoje, a luta não deverá concentrar-se à volta de estratégias hegemónicas de domínio comercial ou industrial (incluindo a indústria do armamento), com laivos de longo alcance (a sustentabilidade das economias), na realidade, em franca convulsão mas, no combate às causas do desespero e do obscurantismo que alimentam os variados próceres fundamentalistas e, no seio deles, os terroristas.

Quando Donald Trump vem exigir maior comparticipação dos países europeus na sustentabilidade da NATO (2% do PIB!) seria uma boa contraproposta – em oposição à expansão da Aliança Atlântica - a criação de uma força antiterrorista internacional, sob os auspícios do ONU que, apesar de todas as suas insuficiências e enviesamentos, tem melhores condições para agir num quadro de busca de equilíbrios mundiais e cujo financiamento poderia passar pelo confisco de receitas, p. exemplo, aos usurários proventos resultantes da exploração petrolífera a começar pelo reino Saudita, para citar um seus mais visíveis sustentáculos e promotores (haverá outros).
Este alvitre – não passa disso - baseia-se no facto de os fundamentalistas serem insensíveis aos argumentos civilizacionais mas muito vulneráveis e impressionáveis quando lhes vão à carteira.

NOTA FINAL: Não se percebe como o Governo português alinha acriticamente nesta nova fase expansionista da NATO, sem promover a mínima discussão interna.

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