Cavaco Silva – o rancoroso veraneante da Praia da Coelha

O País deve o atual governo a Cavaco Silva. O desprezo que granjeara e a aversão que provocou a sua obstinação em manter Passos Coelho e Portas no poder, foram a base da união do grupo parlamentar do PS, que procurou dividir, com deputados da ala direita a sentirem mais vergonha de serem associados a Cavaco do que a romperem com Assis.

Acontece que o homem e os seus governos, que tiveram mais íntimas ligações pessoais, até de negócios nebulosos, com as trágicas administrações do BPN, BPP, BES e Banif, descobre agora que os quatro governantes a quem deu posse, obrigado pela CRP face à decisão da AR, tinham relações familiares.

Para Cavaco, agora vuvuzela da central de intoxicação da direita, são piores as relações familiares do que as dos negócios, é pior ser ministra a filha de outro do que a saída do Governo de uma ministra das Finanças para um fundo abutre ou dos seus ministros para a administração de empresas que privatizaram. Esqueceu-se de que, de 1976 até 2013*, 47% dos governantes do PS e 64% do PSD tinham ou criaram ligações com as empresas e que, nos governos de Durão Barroso e Santana Lopes, com Paulo Portas, chegou a haver 4 governantes com ligações empresariais por cada 1 que as não tivesse.

O ruído à volta das famílias é necessário para desviar as relações perversas em torno das ligações às empresas. O atual é o primeiro governo que não tem um alto quadro do BES que, embora morto com a pior decisão que podia ter sido tomada, ainda tinha quadros para ocupar várias pastas. António Costa nunca entrou na vivenda de Ricardo Salgado.

Quando se pensava que estaria a escrever Roteiros, em meditação sobre a linguagem das cagarras das Ilhas Selvagens ou emoções reveladas pelas vacas açorianas, Cavaco surge, com o rancor que o dilacera, a associar-se à campanha que, no intervalo dos incêndios, a sua direita manteve congelada nos três primeiros anos.

Cavaco, que Saramago definiu como “mestre da banalidade”, é o frasco de veneno que a falta de cultura, sensibilidade e modos, faz expelir o conteúdo com rosto congestionado e em descoordenação motora.

E o grande problema deste homem é a falta de memória e de pudor.

* in Os Burgueses, de Francisco Louçã e outros.

Comentários

e-pá! disse…
CE.

Apesar de existir alguma sobreposição temática resolvi (também) colocar um post sobre o espécime cavaquista, tendo em consideração as suas mais recentes perorações...

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