Turquia – As eleições autárquicas

É surpreendente que os meios de comunicação social portugueses, obcecados com uma campanha eleitoral, maioritariamente contra o atual governo, não contra a sua prestação governativa, ande alheia ao que se passa nas ruas da Argélia e quase esqueça as últimas eleições autárquicas turcas.

Curiosamente, na Turquia, observadores independentes da União Europeia coincidem com Erdogan na acusação de falta de transparência, e enquanto os primeiros acusam da “falta de ambiente livre e justo” os partidários do PR muçulmano, este, cada vez mais autoritário, denuncia irregularidades como a causa da derrota pessoal, e do seu partido, nas principais cidades turcas, atribuindo a autoria à aterrorizada oposição.

No país com mais jornalistas presos e 55 mil presos políticos, onde exonerou a laicidade e encorajou a re-islamização, depois da demissão de 150 mil funcionários públicos, de juízes e militares, garantes da laicidade, e do apelo nacionalista contra o povo curdo, Erdogan transformou o escrutínio autárquico de 31 de março num referendo a favor ou contra ele.

Foi-lhe particularmente dolorosa a perda de Istambul, onde iniciou a ascensão ao poder com a conquista do maior município turco. Ali empenhou os maiores esforços e, tal como nos maiores meios urbanos, foi derrotado. É na negação irracional que afirma que “houve irregularidades em todas as partes” das eleições municipais, e que se trata de um “crime organizado”, motivo que alega para impugnar as eleições.

O homem é capaz de tudo. Resta à oposição unir-se, como o fez em Ancara e Istambul, para evitar agora que o perigoso muçulmano simule um novo golpe de Estado para abrir caminho ao poder totalitário e eventualmente a uma teocracia de que se imagina califa.

A Turquia representa um perigo para a Europa e não é possível contê-lo com a eventual desintegração da União Europeia.

O silêncio sobre a derrota autárquica de Erdogan é uma forma de o encorajar a reverter, pela força, a força do voto que resistiu ao ambiente de medo agravado após a repressão a um alegado golpe de Estado de contornos nebulosos.

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Devemos respeitar as pessoas e combater as ideologias. E, para conhecer a mentalidade deformada em contexto islâmico, vale a pena deixar aqui uma frase de Emine Erdogan, mulher do PR, no Dia Internacional da Mulher, e que o ‘Courrier Internacional’, de abril de 2016, divulgou.


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