Notre-Dame de Paris

Dizem que o coração não dói. Dói. E muito.

Ontem, quando as chamas devoravam uma das mais notáveis catedrais do mundo, uma das primeiras e mais simbólicas que a arquitetura gótica nos legou, o coração sangrou e as extrassístoles aumentavam a ansiedade de quem via, consumidos pelo fogo, nove séculos de história e de cultura, reduzido a cinzas um ícone da nossa civilização.

Ao tombar o pináculo da catedral, sentimos a dolorosa metáfora desta Europa que perde referências, o testemunho da história, da beleza e harmonia, no coração do Iluminismo.
As águas do Sena, que a rodeavam e lhe serviam de espelho, correram inúteis perante as bolas de fogo que a consumiam. Ontem, o coração de quem conheceu a joia do gótico, o monumento mais visitado da Europa, essa referência das artes, da literatura e da cultura universal, sentiu que um pedaço da memória coletiva ficou sepultada sob os escombros de um dos símbolos da nossa identidade.

Não foi só a França que ficou mais pobre, foi a Humanidade de perdeu uma joia do seu património.

Hoje, no rescaldo da tragédia, não mingua a desolação com o inventário ao que ainda se salvou, permanece a dor por tudo o que se perdeu.

A gloriosa catedral, secularizada, era também o símbolo da laicidade de que se alimenta o pensamento moderno e democrático.

O coração, afinal, dói, e dói muito, com feridas abertas e a sangrar por dentro.

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