O concurso de Saldanha Sanches

Não troco um só artigo de Saldanha Sanches, num qualquer jornal, por todas as páginas que aquelas criaturas que o reprovaram escreveram em sebentas húmidas de água benta com cheiro a cera e incenso.

Não os conheço a todos. De resto, alguns só tiveram direito à fama por terem reprovado o especialista em Direito Fiscal. Outros, certamente, ergueram-se do genuflexório para acenderem a fogueira da inquisição em que o cremaram para depois regressarem a dar graças por terem imolado o réprobo no pelourinho da opinião pública.

Quem conhece as praxes universitárias sabe que não é normal reprovar o candidato nas provas de agregação, após o trabalho original ter sido aceite pela universidade em que irá prestar provas. Se o mérito é discutível, aconselha-se o candidato a desistir, não se leva ao açougue para lhe aplicar o cutelo, à sorrelfa, com a mão do carrasco escondida.

O júri, com odor a hóstia e ressentimento, com bolas brancas e pretas metidas num saco, sob anonimato, é a excrescência medieval onde o arguido não pode defender-se. Mais do que um tribunal, assemelha-se a uma assembleia de cozinheiros sob os auspícios da receita de Vichyssoise.

Fica a dúvida se foi julgado um académico ou punido o cidadão, se foram avaliados os conhecimentos específicos ou apaziguado o ódio contra a vítima. Por mim, felicito os três académicos que resistiram à vendetta.

Seria uma ofensa pensar que esta picardia académica atemorizasse Saldanha Sanches no inestimável serviço cívico no combate à corrupção e na denúncia dos tartufos. Talvez seja um suplemento vitamínico.

Um abraço para Saldanha Sanches e uma saudação especial ao seu exemplar e corajoso combate cívico.

Comentários

Anónimo disse…
Indiscutivelmente que Saldanha Sanches sabe muito bem o que diz, o que escreve, e a quem o dirige, sem medos, e através de um discurso perceptível. A sua obra académica fala, também, muito por si; tem muito a ensinar e pouco a aprender.
Os que o "julgaram" agora certamente não estarão de consciência tranquila, pois foram parte activa de um julgamento com laivos de ... político, algo que se vai tornando (infelizmente ) frequente.
O juri quanto a mim não agiu académicamente; agiu atingindo quem na sua frente estava. Sim, foi julgado o cidadão desinido, desabrido, não situacionista, mas concreto.
Outro Saldanha Sanches? Acredito que "este" Saldanha Sanches, irá continuar a ser ele mesmo, apesar da da pena que lhe foi dada.
e-pá! disse…
Este paradigmático exemplo - que no caso vertente atingiu Saldanha Sanches - levanta as mais preocupantes dúvidas, e as mais negras suspeições, sobre a transparência e a equidade daquilo que se está que está a ser desenhado pelo Governo, como metodologia de progressão na função pública.
A modernidade só tem cabimento e será eficiente num clima de mentes abertas e num ambiente solidamente democrático e socialmente justo. Com uma cultura de progresso e de tolerância.
Estes requisitos não se obtêm por decreto.
As iniquidades, por outro lado, campeiam, à revelia de tudo. São o pilar de algumas chagas nacionais: o carreirismo, o amiguismo, o favorecimento, etc.
Atenção, pois, ao que de novo ai se anuncia, nesta área ...
Anónimo disse…
CE:
Atento o teor da defesa apresentada, queira juntar a procuração que lhe foi passada por SS.
Anónimo disse…
Mas foi uma questão politica ou religiosa?
O nosso Amigo Carlos Esperença está a confundir provas de dutoramento com agregação.

É que no caso da Agregação aquilo é ainda pior do que tem referido.

Agregação é método de bola branca bola preta, secreto, onde votam todos os catedráticos, independentemente de, por não serem especialistas na área, não terem qualquer conhecimento da matéria versada !
Anónimo disse…
O cavalinho da chuva:

Não confundi porque conheço a liturgia;

Em Coimbra, que eu saiba, só fizeram essa patifaria a um Professor de Medicina que rege a cadeira de «História da Medicina» e onde não há (não havia) outro especialista.
Anónimo disse…
os resquicios do santo oficio.
Anónimo disse…
Excelente Saldanha Sanches... O homem que só ele é que é inteligente... Qual Alberto João Jardim!!! O que diria este Esperancinha, se o Saldanha fosse do PSD !!!
Anónimo disse…
ignorancia que se saiba é independente.
Anónimo disse…
uma coisa é certa: o método de avaliação nas provas de agregação é, no mínimo, estranho.
e se, por mero acaso, o membro do juri se engana na bola?...
Anónimo disse…
"uma saudação especial ao seu exemplar e corajoso combate cívico"
Tão corajoso que quando lhe apertam os ditos, recua e diz que, afinal, não foi bem aquilo que quis dizer...
Anónimo disse…
Desde a década de 60 do século passado que não havia um chumbo nestas provas na Faculdade de Direito de Lisboa.

Diz alguma coisa?
Anónimo disse…
Benditos anos 60!!!

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