Oposição de gestão

Não conheço o dossier "Cimpor" em profundidade, nem sequer com o mínimo detalhe. Mas permito-me lançar aqui umas simples ideias e apresentar umas pequenas contas, enquanto cliente fiel da CGD e enquanto cidadão preocupado com a coisa pública.

O Sr. MF é devedor da CGD; O Sr. MF é titular de acções que valiam 100 e que agora devem valer 55. (Foi esta a queda em média nas bolsas mundiais.) Sobre essas acções impende um direito de garantia da CGD.
A CGD em vez de executar essas acções - que seriam vendidas no mercado a 55 ou mesmo menos - aceita uma dação em cumprimento, atribuindo-lhe um valor de 70.
Fez mau negócio?
Sinceramente penso que não!
A crise passará e facilmente estas acções retomam o valor de 80, 90 ou mesmo - a médio prazo - de 100!
O cliente (devedor, o Sr. MF) foi bem tratado? Pode-se dizer que sim.
Será sempre contra o interesse do Banco tratar tão mal quanto possível os seus clientes? Não me parece... Afundar ou contribuir para arruinar um grande devedor só vai conduzir a que se percam os créditos do Banco e, consequentemente, este prejudica-se...

Dito isto, aguardo mais explicações da CGD.

Mas não posso deixar passar em claro o lado político de toda esta questão.
O senhor da virtude e o imaculado Prof. Louçã lá foi falando do alto da sua superioridade moral o nome desse cliente, com um tom desonroso, com uma mistura de jocoso e repugnante. Que saberá o Prof. Louçã para estar tão desagradado com o Sr. MF? Bem como - nas últimas semanas - com o Sr. AA?

Mas também da bancada dos que aspiram voltar a Governar, da bancada dos companheiros do Presidente do Conselho de Admnistração da CGD, vieram ataques ferozes contra ... o Governo por causa de uma operação de ... um Banco!
Compreende-se agora porque razão eles desejam privatizar a CGD...! Porque acham que se o capital é público, o Governo e o Primeiro-Ministro têm que controlar tudo... Não percebem os limites da acção do Governo, não percebem que o Estado Republicano pode e deve ser titular de instrumentos de acção económica, sem que isso signifique que o Governo controle todo e cada processo individual.

Esta oposição aguarda eleições para se renovar. A esmagadora maioria daqueles senhores - colocados ali por Santana Lopes - terão que mudar de vida.
É uma oposição de gestão.

Comentários

e-pá! disse…
Caro André:

Na realidade é à AR que compete fiscalizar a actividade governativa. A Oposição está lá representada mas o poder de fiscalização também pode (devia) ser exercido pela maioria.
Um contrato para o serviço da dívida, envolvendo valores tão altos e tomadas de posição na estrutura accionista da empresa, como parece ter sido a operação da CGD com a Cimpor, não deve ter sido feita à revelia do Ministério das Finanças.
Hoje, Teixeira dos Santos, em curta declaração na RTP, pareceu-me reconhecer que conhecia a operação financeira há mais de uma semana...

Mas isso, não impede, nem invalida, que a CGD vá ao Parlamento, explicar a operação financeira executada. Porque não podemos assobiar para o lado e "negar" que vivemos uma grave crise financeira, económica e social e tudo o que fugir da habitual equidade de tratamento dos clientes, torna-se um assunto melindroso.
Caso contrário, como é cliente da CGD (também sou!) experimente ir lá vender acções do Millenium pelo preço de mercado de Agosto / Setembro de 2008, invocando a necessidade de resolver questões de liquidez. Depois conte aqui, no Ponte Europa, o que lhe disseram...

A imagem que passou para os cidadãos (e a maioria deles não são banqueiros, nem economistas ou gestores) foi confusa e perfila uma situação de favorecimento (que poderá não existir).
O que não pode faltar é uma explicação cabal do sucedido e não uma resposta do tipo: "só tive conhecimento ontem pelos jornais...!"

Caro André:
Apesar dos porfiados esforços de Sócrates e do Ministro Manuel Pinho (?), hoje, é cada vez mais nítido que, na actual situação, o Sector Financeiro está a trabalhar "contra" (ou de costas viradas) para Economia real....
E, é, nesse particular aspecto que, o caso da Cimpor, constitui uma excepção.
Caro André:
Reproduziu o pensamento viciado do presidente da CGD.
Nesse caso, todos os clientes que solicitaram um empréstimo àquela instituição sentem-se no direito de renegociarem a sua actual dívida, reivindicando a aplicação desse seu raciocínio.
Vejamos um exmplo. Um determinado cliente comprou uma casa por 70 mil euros, recorrendo a um crédito de igual valor junto da CGD. Actualmente a sua dívida é de 60 mil euros. Invoca que o valor da casa desceu muito (tal como as acções do senhor Manuel Fino), com a crise imobiliária, e que as agências apenas lhe atribuem um valor de mercado de 48 mil euros, declarando não conseguir a sua venda por um preço superior. Faz uma proposta para que a CGD considere a dívida saldada e lhe adquira o imóvel, valorizando-o em mais 25%, em relação ao seu valor no mercado, ou seja, que lhe atribua um valor de 60 mil euros, com a garantia contratual que o cliente a poderá comprar novamente o imóvel daqui a alguns anos, pelo mesmo valor de 60 mil euros.
É evidente que o cliente só irá requerer a aplicação desse direito contratual quando, com a recuperação económica, o valor do imóvel atingir o seu valor nominal inicial (70 mil euros), comportamento este que também o senhor Manuel Fino têm em mente, para readquirir as acções da Cimpor.
Não acredito que o senhor Faria Oliveira aceitasse a proposta deste cliente, que nem sequer conhece, escudando-se com o argumento de que a CGD ficaria prejudicada por adquirir um imóvel por um preço muito superior ao seu valor no mercado.
Mas também acredito que todos os ricos, detentores de acções desvalorizadas pela crise bolsista, terão um tratamento idêntico ao dispensado ao senhor Manuel Fino, se, previamente, contraírem um empréstimo à CGD, no caso de ainda o não terem feito.
É inútil tentar iludir a imoralidade do comportamento do senhor Faria de Oliveira, prejudicando o Estado para favorecer um especulador.
Acabo de ouvir Vital Moreira, no novo canal da TVI, a esgrimir o falacioso argumento, já avançado no comunicado da CGD, de que a CGD ficaria prejudicada de procedesse à execução das acções da Cimpor, que Manuel Fino tinha dado como garantia do empréstimo contraído, para investir especulativamente no BCP.
O argumento é falacioso, pois, se a CGD optasse pela execução da dívida, tal como procede perante o incumprimento de qualquer credor, e não hipotecasse as acções da Cimpor, concedendo ao senhor Manuel Fino o direito de as readquirir, iria, num futuro próximo, beneficiar da sua potencial valorização, que ultrapassará o valor pelo qual as aceitou agora.
Com este perverso mecanismo, será o senhor Manuel Fino a beneficiar da expectável valorização em bolsa.
Foi um mau negócio para a CGD, que perdeu a oportunidade de obter mais valias futuras, entregando-as de bandeja ao seu astuto credor.
André Pereira disse…
Que o negócio foi bom para MF não tenho dúvidas! O que não é seguro é que seja mau para a CGD. E nos negócios não tem que haver sempre um prejudicado... MAs acho muito bem que tudo seja bem explicado. Sobre saber se o accionista principal devia conhecer estas medidas de gestão, confesso que teria que ir estudar o assunto. Um abraço. Nós os pequenos devedores (ou credores) nunca conseguirámos um bom negócio... Mas mesmo a um nível "micro", como o crédito automóvel, as pessoas com menores rendimentos pagam taxas de juro mais elevadas!...
Argumento jurídico-económico: são devedores com maior risco, logo devem pagar esse risco...
e-pá! disse…
Já no século XIX, Alexandre Dumas (filho), dizia:

" Dêem dinheiro, não emprestem.
Dar só faz ingratos, emprestar faz inimigos... "


Faria de Oliveira, presidente da CGD, emprestou milhões de euros a Manuel Fino que deu como contrapartida 10% das acções da Cimpor (ao que parece sobrevalorizadas e de uso condicionado), começaram (ambos) a ser vítimas desta máxima...

Faria de Oliveira, começará por ter de explicar-se no Parlamento. Depois o BdP caírá sobre a CGD e na passada a CMVM investigará eventuais manobras de aquisições bolsistas de Manuel Fino...
Vai ser activada toda a cascata dos mecanismos de fiscalização e de regulação... que poderiam também estender-se a outros negócios: Joe Berardo, João Rendeiro (ex-BPP), aos gestores do Millenium e do BNP, etc.
Assim, como quem está a comer cerejas...

O Ministério das Finanças, o Banco de Portugal, a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), a banca comercial (pública ou privada) e os bancos de Investimento estão sob rigoroso escrutínio dos cidadãos por manifesta perda de confiança pública nas instituições financeiras.

E o Estado que é, podemos assim dizer, o avalista da liquidez bancária nesta situação de crise, colocou à disposição dos Bancos portugueses milhões de euros que, pudicamente, os Bancos nacionais têm manifestado rebuço em utilizar...
Por alguma razão. É que ao utilizarem os "fundos de liquidez públicos", ficam eticamente comprometidos a operarem com, pelo menos, algum sentido de equidade e, o mais grave, colocam-se sob mecanismos de inspecção das entidades reguladoras.

É interessante neste País, onde nada consegue ficar sob reserva, que Faria de Oliveira, proteste contra a "quebra do sigilo bancário".
Para mim e penso que para a esmagadora maioria dos portugueses o sigilo bancário pode acabar hoje. Ele, a par dos offshores e dos paraísos fiscais, só tem escondido as grandes fraudes financeiras e dificultadso o combate ao branqueamento de dinheiro "sujo" (das armas, da droga, da prostituição, ...).

Esta questão do sigilo bancário, levantada com indignação por Faria de Oliveira, deveria ser incorporada na questão que o leva à AR, no sentido de acabar com a anacrónica concepção de que "o segredo é a alma do negócio".

Isto dizia respeito aos tempos dos nossos avós, em que os compromissos se baseavam na honra e na palavra e nem papéis havia...

Actualmente, os negócios são outra coisa...
A actual crise financeira, económica e social, quando for conhecida em toda a sua dimensão, encarregar-se-à de demonstrar à saciedade a inutilidade do segredo bancário. Ele, neste momento, protege gande parte dos ilícitos ou irregularidades:
lobbys económicos insondáveis e, pior, actividades criminosas praticadas por máfias, tríades, quadrilhas, etc..
O sigilo bancário bloqueia as investigações dos crimes fiscais, económico e financeiros...num momento em que a transparência deve ser a marca de água do mundo financeiro.

Então, que a ida de Faria de Oliveira ao Parlamento sirva, ao menos, para dar o tiro de partida, no sentido de questinar (e extinguir) esse sigilo...cujo intransponível guardião internacional (a Suiça), já começou a claudicar!
André Pereira disse…
http://dn.sapo.pt/2009/02/28/opiniao/um_negocio_fino.html Mere o meu apoio o editorial do DN sobre a questão.
ahp disse…
Não posso pronunciar-me sobre o problema de fundo, pois, embora tenha biblioteca, não percebo nada de finanças...
Mas amigos meus que percebem, alguns até directores bancários de bancos privados, dizem-me que a C.G.D. fez o negócio menos mau que era possível. É que, dizem-me esses amigos entendidos, existe no sistema bancário uma regra não escrita que é a seguinte: "se uma pessoa deve pouco dinheiro a um banco, essa pessoa tem um problema; mas se uma pessoa dever muito dinheiro ao banco, então é o banco que tem um problema..."
ahp disse…
Não posso pronunciar-me sobre o problema de fundo, pois, embora tenha biblioteca, não percebo nada de finanças...
Mas amigos meus que percebem, alguns até directores bancários de bancos privados, dizem-me que a C.G.D. fez o negócio menos mau que era possível. É que, dizem-me esses amigos entendidos, existe no sistema bancário uma regra não escrita que é a seguinte: "se uma pessoa deve pouco dinheiro a um banco, essa pessoa tem um problema; mas se uma pessoa dever muito dinheiro ao banco, então é o banco que tem um problema..."
Caro e-pá:
Os meus parabéns pelo seu excelente texto, onde com uma grande clareza descreve os ocultos e pouco transparentes mecanismos da actividade especulativa dos bancos e dos seus grandes clientes.
Este texto deveria merecer um outro tratamento editorial. Por isso, peço ao meu amigo Carlos Esperança que o transfira para a página principal do blogue.
Um abraço

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