A comunicação social e as emoções

Como sou um leitor compulsivo de jornais, fartei-me de ver a comoção que ia por essas páginas impressas relativamente a um militar da GNR que outro colega assassinou. Vi a comoção dos colegas, a revolta (não percebi porque se viravam contra as chefias) e a raiva.

Segundo li, o soldado da GNR que assassinou o colega que o prendeu foi casado com uma mulher que agrediu de forma brutal e selvagem ao longo do matrimónio (daquele que segundo a Igreja é indissolúvel). Depois da separação continuava a procurá-la para a maltratar, com o primarismo de um selvagem e a maldade de um biltre.

A pobre mulher queixou-se à GNR e ia para o hospital com o corpo dorido e a alma em farrapos quando o patife do ex-marido exigiu que lhe abrissem a porta da ambulância e disparou dois tiros de caçadeira com que feriu a filha e matou a vítima.

Preso e sem a caçadeira, dentro da esquadra, sacou de um revólver e matou o colega que o prendeu e que, por incúria, não revistou o assassino e o deixou armado.

Quem não lamenta um soldado morto em serviço, um agente da autoridade que o colega matou a sangue frio?

Mas como pode esquecer-se aquela pobre mulher que passou a vida a ser agredida e foi enterrada com uma curta referência, sem comoção nem multidões, com uma filha ferida, como se a vida dela valesse menos que a do soldado da GNR?

Bem sei. Coube-lhe ser mulher, parir e aceitar um homem a quem prometeu obedecer, perante Deus. Onde está a igualdade de género que nem a comunicação social a respeita?

Comentários

ana disse…
Ela passou a ser a outra vítima. Também poderiam ter dito a segunda vítima, mas não se lembraram.
RJ disse…
O mais interessante são as multidões que se formam à porta da GNR ou tribunais para linchar o assassino, o mesmo não se passando para casos explícitos de violência conjugal, em que todos parecem fingir que não vêem...
Pertinentíssimo post. Com os funerais do guarda, ninguém mais falou da mulher que, não sendo mais do que ele, também não é menos. O defeito está principalmente nos obtusos "critérios jornalísticos" da nossa comunicação social.

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