Lisboa - O primeiro 1.º de Maio

Era a primeira vez que a liberdade descia à rua nesse dia, o primeiro feriado que nem o atual Governo, pusilânime e vingativo, teve coragem de extinguir.

Nesse dia, em Lisboa, um milhão de pessoas, talvez mais, não se sabe de onde vieram, foram tantas, algumas transportadas pela massa compacta que não lhes deixava espaço para pisar o chão, dirigiram-se ao estádio que logo tomou do dia o nome. O feriado do 1.º de Maio nasceu ali, tardio, exuberante, no rescaldo da ditadura fascista, com Abril fresco de cravos e Maio florido de sonhos.

Não houve nesse dia merceeiros a fazer descontos, não ousaram escancarar as portas da provocação os ressentidos, não estiveram lá, certamente, Cavaco, Marcelo ou Ricardo Salgado. Era um ambiente assético, feito de emoção e fraternidade, onde cabia o sonho por entre cravos que floriam nas lapelas e discursos de sindicalistas a que se seguiram Francisco Pereira de Moura, Nuno Teotónio Pereira, Mário Soares e Álvaro Cunhal.

De onde vinha a força que nos impulsionava enquanto se ouvia “O povo unido jamais será vencido!”?

Não me recordo de ter saído do Estádio 1.º de Maio, entre beijos, abraços, com lágrimas do sonho de Abril, repetido em Maio. Devo ter saído, saí, tenho a certeza, o dia findou decerto, mas o momento, único, irrepetível, não mais saiu de mim, gravado na memória com o fogo da saudade.

Comentários

josé neves disse…
Já olhei horas para esta foto e ela me sugere uma imensidão de pensamentos ou ideias quando reparo especialmente no "ambiente facial" das duas personagens; Soares entusiasmado, integrado e aberto ao ambiente vivendo exuberantemente a festa de liberdade daquele momento; Cunhal fechado, indecifrável e completamente abstraído da festa, da alegria da festa, concentrado em algum pensamento ou ideia que não condizia nada com o momento.
Posturas total e frontalmente opostas e que seriam a imagem e o tom inalterável entre ambos posteriormente.
Duas personalidades com dois mundos interiores diferentes que se reflectiam igualmente no mundo exterior.

O que estas recordações me fazem aflorar é uma angustia enorme pela borrada de país que tanto oportunista (há quem até se intitule comunista) vão deixar após quarenta anos de gente como o socrates e seitas conexas.
Como dizia a magistrada: até me doi estar a destruir processos de corrupção dos dinheiros da UE que prescreveram por falta de meios para serem levados a tempo até ao fim.
E isto debaixo da "imprescindivel" constituição da treta que tanta vez foi "assassinada", mas que logo no mès seguinte é adorada.
Sinto vergonha de tanta gente que em vez de votar com a cabeça vota com "impressão" que a sua agremiação é que defende bem o povo. Tal como os que enchem sucessivamente fatima.

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