TAP e a alegoria de uma ‘gaivota que voava, voava’…



A greve dos pilotos da TAP tem – apesar do ensurdecedor ruído à sua volta - muitos aspectos ainda incompreensíveis para os portugueses link .

Desde os acordos celebrados em Dezembro último e que agora são denunciados pelo sindicato por não assegurarem na plenitude os direitos adquiridos pelos trabalhadores (as medidas de defesa dos postos de trabalho não prevê qualquer sanção para o adquirente no processo de privatização), ao súbito revisitar do acordo de 1999 (que reservava 20% do capital accionista aos trabalhadores) e às acusações de gestão ruinosa da administração (a situação criada no Brasil não será um ‘facto acidental’), há um alargado leque de nebulosos argumentos.

Nos últimos dias o ‘rodopio governamental’ à volta da greve manifestou-se de forma impressionante. Raramente os meios de comunicação social deram destaque às razões sindicais e, pelo contrário, têm imundado os portugueses com sonantes declarações oriundas da maioria governamental.
O ar crispado com que o Governo tem tratado este assunto revela que, por detrás do exposto, existem problemas políticos. Ou deixam antever compromissos negociais com os parceiros institucionais (vulgo Troika) que fizeram a supervisão do ‘processo de ajustamento’ português e ainda andam por cá (ao contrário do que foi anunciado pelos partidos que sustentam o Governo).

Paira no ar a sensação que esta greve dos pilotos poderá estar a interferir no processo de privatização em curso. O Governo tem tido o habitual comportamento - em relação ao factor trabalho - pleno de hesitações e dúbio. Declara, à cabeça, reconhecer o direito à greve para, logo de seguida, manifestar-se contra o seu exercício. Cola a estas declarações ameaças de despedimento selectivo ou colectivo e agita a hipótese se um eventual encerramento da empresa (como tem sido repetidamente afirmado pelos ‘circulos governamentais’). 
O inefável secretário de estado dos transportes, Sergio Monteiro, até teve a ousadia de desenterrar hipotéticos actos de sabotagem que teriam ocorrido na última greve (Verão passado) sem os fundamentar, mas introduzindo-os numa, cada vez mais ruidosa, chicana política link.

As repetidas referências governamentais à continuidade do processo de privatização da TAP que, ao contrário do que tem sido recentemente afirmado não merece o consenso dos portugueses (longe disso), só indiciam que esta greve está a perturbar seriamente os planos do Governo.
Na verdade, quando a ameaça chega à hipótese de fecho da empresa algo está (politicamente) a correr mal para as intenções do Governo.
Já é tempo da actual maioria parlamentar reconhecer que os seus objectivos programáticos e ideológicos podem, em muitas circunstâncias, não coincidir com o consenso nacional.

De resto, as ameaças de despedimentos não visam outro objectivo do que dividir os trabalhadores da empresa (a ‘manifestação silenciosa’ contra a greve foi um visível indício deste facto link), para mais facilmente levar avante a 'saga da privatização'.

Os pilotos sabem - e o Governo também - que se algo de grave ocorrer na TAP, amanhã, podem celebrar contratos com outras companhias aéreas. Isto é, a absorção dos quadros técnicos, altamente qualificados, numa época de globalização, pelas companhias concorrentes, é um pormenor no meio deste braço de ferro.  
A ‘perda’ da TAP, quer seja pela sua privatização quer pelo fecho é mais um passo no empobrecimento do País que aliena, ou encerra, um instrumento fundamental para a actividade exportadora (turismo) e ainda no contexto geopolítico (importância da lusofonia).
Assim, o que leva o Governo ao desespero e às ameaças são os custos políticos, com base ideológica, com o intuito de contrair o Estado (sector empresarial público) a todo o vapor, que podem representar um eventual fracasso da anunciada privatização. Esta a questão oculta que tem ensombrado (e condicionado) o braço de ferro entre o Governo, a administração da TAP e o sindicato dos pilotos nos últimos tempos.

O País merecia mais transparência em todo este processo. Na realidade, a greve dos pilotos parece não servir os interesses (imediatos) dos pilotos, da TAP, do Governo, do turismo, das exportações. Mas a vida mostra que estas manobras servem sempre interesses que não tardarão a vir ao de cima.
A TAP não é uma brincadeira de crianças (para usar um jargão do primeiro-ministro), nem os aviões são gaivotas em terra, porque há prenúncio de tempestade no ar… (lá para Setembro/Outubro!).

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