O fingimento que pairou na tomada de posse do XX GC…

Hoje a democracia portuguesa assistiu a um cerimonioso ritual, esvaziado de sentido político, com a lúdica intenção de preservar formalidades. Mais parecia uma sessão de poesia no sentido pessoano do termo. Havia ‘fingidores’ por todo o lado. E, cúmulo da desfaçatez, o coro de jograis, engravatado e sorumbático, fingia que estava ali por 4 anos …

A indigitação do partido mais votado (outra coisa é ‘vencer as eleições’) para formar Governo parte de um costume democrático para, no caso presente, desembocar numa abstracção política. 
Na realidade, a coligação PSD/CDS quer pela prática dos últimos 4 anos, quer pela sua inflexibilidade ideológica que a leva a querer continuar a desempenhar o papel de ‘bom aluno’ acrítico e subserviente, esgota no seu seio a capacidade de alargar-se ou de suscitar os mínimos consensos (mesmo os mais circunstanciais).

A retoma da tese - por parte do Presidente da República - de que governos minoritários podem ser ‘estáveis’ e ‘duradouros’ não passa de um despudorado recuo pessoal, aparentemente assente não em factos políticos, mas em mirabolantes visões salvíficas, que já se tinham revelado em Junho/Julho de 2013.

Nas cerimónias de hoje existiu um facto político relevante e preocupante. Quando o Presidente da República afirma que durante a audição dos partidos representados no Parlamento não lhe foi colocada outra alternativa de governo, das duas, uma: ou recebeu os partidos sem a verdadeira intenção de ouvir o que tinham para dizer, ou sofre de problemas de acuidade auditiva. 
Na verdade, disse de viva voz e está estampado na página oficial da PR: “Tive presente, por outro lado, que, até ao momento da indigitação do Primeiro-Ministro, não me foi apresentada, por parte das outras forças políticas, uma solução alternativa de Governo estável, coerente e credível…link.

Esta manifestação de autismo político não augura nada de bom para a democracia portuguesa. Como o povo sabe o pior cego é aquele que não quer ver, assim como será obvio que o pior surdo é aquele que não quer ouvir.

Apesar de todos estes dislates no discurso na tomada de posse do Governo transparece - pelas palavras de Cavaco Silva - a noção de que na entourage de Belém já alguém tomou nota de que será difícil continuar a servir de modo incólume a Direita, sem que a dignidade do cargo não caia irrevogavelmente na lama.
Daí o tom menos crispado para quem não querendo retirar linhas ou vírgulas, resolveu baixar o registo. Falou uma oitava abaixo. Como voltará a falar daqui a 11 dias (um pouco mais do que uma oitava)?

Esta a incógnita que permaneceu no ar apesar das dúbias vozes que entoavam um soneto que soava a uma ode alusiva à (sua) morte anunciada…

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