Cavaco e os discursos

Há em Cavaco Silva um doentio fascínio pelo abismo. Nota-se quando as comunicações ou discursos são da sua autoria.

Os confrangedores momentos da sua passagem por Belém são tristemente memoráveis, reeditando os piores do seu consulado como PM.

O discurso de vitória do segundo mandato revelou o mais primário espírito de vingança, de onde a ética e a urbanidade foram exoneradas, um soberbo tesourinho deprimente.

A aprovação unânime do Estatuto dos Açores exasperou-o, num dos raros momentos em que tinha razão. Manifestou-se contra e devolveu-o, como era seu direito, à AR. Depois, quando confirmado, obrigado a promulgar o diploma, descarregou o rancor sobre os deputados num patético e ofensivo discurso de quem não respeita a separação de poderes e tem pelo parlamentarismo um ódio salazarista.

Agora, na indigitação de Passos Coelho para formar governo, direito que lhe assistia, revelou o azedume que a CRP, a democracia e os eleitores lhe provocam, com  ameaças intoleráveis, desajustadas e antipatrióticas.

No ódio que o habita apelou aos credores, sem um chilique, para se vingarem de um governo legítimo com apoio do PCP e BE. O sectarismo primário teve apenas o mérito de destacar, pela diferença, a grandeza ética, cívica e patriótica de Sampaio da Nóvoa.

A dignidade com que termina o mandato envergonha a função que exerceu.

Comentários

Jaime Santos disse…
Cavaco faz um grande favor à Esquerda ao lembrar aos mais de 2,7 milhões de pessoas que votaram no PS, BE e PCP que um Presidente da República diretamente eleito não é um Monarca corta-fitas, tem poderes reais e pode bem recusar-se a dar posse a um Governo suportado por uma Maioria. Alguém imagina que uma pessoa com o percurso de Marcelo Rebelo de Sousa não fará igualmente fretes à Direita? Ou seja, as Presidenciais não são a feijões e é boa hora de iniciar um sobressalto cívico em torno de uma personalidade da Esquerda que possa fazer frente a Rebelo de Sousa. Dados os silêncios de Maria de Belém Roseira, parece-me que essa pessoa só pode ser Sampaio da Nóvoa...
Bmonteiro disse…
Discurso vitória 2º mandato, exactamente o que me ocorreu.Tenho bem presente.
Agora renovado, uma questão de psicologia mal resolvida.
Ou a dificuldade em aguentar as criticas, mesmo que porventura desajustadas.
A bem do Regime.
e-pá! disse…
Cavaco ao mostrar-se disposto a afrontar uma maioria oriunda da AR, isto é, representativa, deve à priori ser responsabilizado por todas as consequências daí advindas.
Nesta leva, a coligação PSD/CDS, que o PR tão diligentemente se mostrou disposto a servir, também não pode aspirar a ficar imune dessas responsabilidades.
A 'tradição' que tanto foi invocada pela Direita segue o seu caminho. Tudo indica que será curto.
Passada esta 'diversão' esperam os portugueses que chegue a vez da Constituição. Basta de retórica barata e manhosa!
Há uma coisa que deveria chegar ao palácio de Belém. O servilismo não serve a ninguém e não pode ser escondido ad eternum...

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