O OE 2017 e a idiotice à solta…


Na discussão do OGE 2017 o CDS, através do deputado João Almeida, acusou os partidos que apoiam o Orçamento elaborado pelo Governo PS (e concertado no âmbito das posições conjuntas que unem a esquerda parlamentar) de serem uns ‘idiotas úteis’ link.

O termo foi, no passado, e ao que parece aleatoriamente, atribuído a Lenine que segundo a versão mediática teria classificado deste modo os incautos apoiantes ou divulgadores da revolução bolchevique.
Não existe qualquer suporte documental que comprove que a autoria desta frase seja imputável ao histórico dirigente soviético.
Aliás, o anunciador desta ‘novidade’ foi um dissidente do regime comunista, o Sr. Yuri Bezmenov, ex-jornalista, ex-agente do KGB, com vagas ‘funções diplomáticas’ na India e, por fim, conferencista de referência dos fóruns anticomunistas da década de 80, que numa entrevista efectuada em 1984 em arquivo no You Tube link criou a imagem dos ‘useful idiots’ .
Um insuspeito artigo publicado em 1987, no New York Times, sob o título “On Language” link, é esclarecedor do percurso desta polémica frase e das falsidades tecidas à sua volta.

 A concepção de ‘idiota útil’ ,foi, isso sim, indubitavelmente, uma peça de retórica intensamente utilizada no arsenal de propaganda anticomunista durante a ‘guerra fria’.
A guerra hoje é outra mas o CDS não se apercebeu. Prefere, na prática, levantar de espantalhos, fazer apologia do medo, agitar fantasmas. Esta a ‘idiotia política’ que contaminou a bancada do CDS.

Mas o contexto será, por ventura, mais vasto. O CDS, com a evocação do deputado João Almeida, pretendia, simultaneamente, inquinar e desvalorizar toda e qualquer opção político-ideológica que questionasse, ou enfrentasse, os valores da direita reaccionária e totalitária, fosse socialista, social-democrata ou, até mesmo demo-liberal, tornando qualquer tipo de escolha ideológica, passível de ser conotada com a Esquerda parlamentar, como uma muleta de expansão das doutrinas comunistas. Foi usada por muitos políticos nos EUA para conter movimentos de libertação (como, p. exº., para ‘sustentar’ os ‘contra’ na Nicarágua) e, na Europa, por Helmut Kohl em relação à divisão da(s) Alemanha(s), consequência da II Guerra.
Aliás, a historia da pulhice sobre dichotes políticos (viperinos) faz lembrar Roosevelt e o ditador Somoza, assim: "Somoza pode ser um filho da puta, mas é o nosso filho da puta".

Finalmente, a história da ‘idiotia útil’ vem, provavelmente, do antigamente, da Grécia Clássica, dos homéricos papéis. Poderá estar representada no ancestral ‘cavalo de Tróia’. Só que Tróia de hoje tanto pode ser Bruxelas, como a mítica Helena desempenhada pela Srª. Merkel.
É isso que a Direita quer explorar lá fora. Cá dentro, espera simplesmente que o ‘útil’ não se torne em qualquer coisa de ‘irrevogável’.
Esperar sentado é incomodativo e impacienta os espíritos, turvando-os.

O facto de o senhor deputado João Almeida ter ido repescar a frase ao baú das velharias do anticomunismo na sua intervenção acerca do OE 2017 mostra bem o estado da ‘nossa’ Direita. Ou seja, ao estado a que isto chegou!

Comentários

Jaime Santos disse…
Mas quem é o 'idiota útil' de quem? O orçamento presente é tudo menos um exemplo de rebeldia anti-europeia, aliás melhor seria chamar às medidas 'austeridade de Esquerda'. Na verdade, porventura por razões táticas, os partidos à Esquerda do PS aceitam e votam no consenso europeu. Jerónimo de Sousa disse mesmo que precisámos de rigor nas contas públicas, como precisámos de alívio de dívida... Algumas pessoas próximas do PCP parecem inclusive sugerir que optar pela presente estratégia tem a vantagem de mostrar ao PS que ela não é sustentável a prazo, o que me parece uma bela racionalização para acomodar uma mudança de posição... Ou seja, quer parecer-me que a Direita está ainda chocada com a mudança de comportamento das Esquerdas que, tendo entrado no 'arco da governabilidade', agora até já colaboram com o PS e são capazes de aceitar soluções de compromisso que, pasme-se, contribuem para melhorar as condições de vida daqueles que nelas votam. Que deveria, pois claro, ser a principal preocupação de todos os partidos progressistas...

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